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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

31
Ago20

CIDADÃ DO MUNDO

Sandra

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Deitada na cama, do nada, ou derivado ao cansaço, vem o desejo de ir… simplesmente ir.
Bornéu, Kilimanjaro, o deserto da Namíbia. India. Camboja. Austrália selvagem. Irlanda, Escócia. Amazónia. Quénia. China ou Japão. Equador.
Estão a ver o estilo, certo? Se não, eu esclareço: tenho medo de andar de avião, tenho receio de andar de barco. Tenho pavor a bicharocos e outros que tais. Sou imensamente esquisita com a minha alimentação. Não dispenso uma higiene completa e com a privacidade merecida! Possuo a "pancada das doenças ". Só falo um pouco de inglês e francês… e o meu italiano já precisa de revisão.
Enfim, a lista poderia alongar-se e algo certamente iria ficar esquecido. E, por falar nisso, lembrei-me agora: não tenho meios para tais passeatas.

Por outro lado, sempre poderia mudar os destinos: um musical na Broadway, uma ópera em Itália, uns croissants ao pequeno-almoço em Paris. Dubai, pode ser? Claro! Claro que... não!

Fico pelas expedições espirituais. Desperdiço a oportunidade de desfrutar de novas culturas, história local, tradições, arquiteturas, paisagens, culinária regional e sei lá que mais. É só isso que perco! (Percebam, por favor, a ironia do “SÓ!”).

O que o passeio cerebral tem de bom é que não gasto um cêntimo, não tenho que pensar em reservas, malas, burocracias, horários. Melgas e mosquitos (de todo o tipo, se me entendem). E posso sempre encontrar-te numa dessas viagens mentais. A ti. Tu. De quem um dia terei gostado e que sumiste em alguma encruzilhada da vida, deixando a saudade e o anseio.
É tarde, pelo menos para mim. Do alto dos meus anos vividos, digo e repito: é tarde.

Vou viajando como sei: entre lençóis, à noite, enquanto o sono não vem, num mundo imaginário onde tudo pode acontecer e ser. No fundo, sendo eu tão picuinhas, serão talvez essas as melhores jornadas que posso fazer. E se te encontrar por lá, nessas viagens mentais, talvez tenha a coragem de te dizer o que, na vida real, nunca te disse. 

30
Ago20

VISITA INESPERADA

Sandra

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Pela manhã bem cedo, enquanto à janela da cozinha espreitava como estava o tempo, tive a alegria de vislumbrar algo que adoro e não esperava encontrar: andorinhas!
Um pouco desconfiada por ver andorinhas nesta altura do ano, e a pensar se não seria outra espécie, concluí que tendo em conta alterações climáticas existentes é possível serem essas aves que admiro tanto.

O micro-ondas deu sinal avisando-me que o meu café com leite já estava quente, mas as andorinhas tinham captado por inteiro a minha atenção. Agora sim, já tinha a certeza do que via: andorinhas de facto! Todos os anos, pela primavera, sou brindada com a sua presença, embora este ano já me tivesse interrogado, por várias vezes, onde estariam elas. Ou se voltaria a vê-las. Afinal, há tantas outras espécies cujo número de elementos tem vindo a diminuir! Mas hoje, aqui estavam elas, vestidas de preto, azul escuro e branco, com as suas asas típicas e a cauda inconfundível, passando a alta velocidade em voos rasantes à minha janela. Quase me tocavam a cara, enquanto faziam manobras verdadeiramente dignas de um caça F-16! Tenho a certeza que a indústria aeronáutica aplica, no fabrico dos seus modelos, dados e técnicas resultantes do estudo da vida animal.

Este bando que vejo é grande, as aves majestosas, firmes, determinadas e focadas na sua busca incessante de alimento. Parecem quase agressivas! Como a sua época oficial do engate, do namoro e construção de ninhos já ficou para trás, só podiam estar mesmo à procura de comida para a sua prole: insetos mais distraídos que são capturados em pleno voo. Dizem que as andorinhas não podem aterrar, as suas patas não estão concebidas para tal. Tal como só podem viver em liberdade, pois em cativeiro definham e morrem. Defendem também que estas aves acasalam e nidificam sempre com o mesmo parceiro. Mas, facto cientificamente comprovado, algumas espécies gostam de ocasionais, secretas, breves e deliciosas relações extraconjugais.

Questões sexuais (e sentimentais) à parte, sou sua fã desta espécie de aves, que migrando persegue o calor, andorinhas que me transportam à minha infância e que adoro ver para cá e para lá atarefadas, chiando em tons altos e agudos, indiferentes à minha presença.

Se não fosse o meu café com leite estar a arrefecer, juntamente com o meu corpo recém-saído do quentinho da cama, teria ficado mais tempo à janela. Mas estas minhas amigas vão ficar ainda algum tempo por cá, voando, chiando e petiscando, até que um dia, misteriosamente, desaparecem para dar lugar às folhas de outono, com tons cruzados entre o amarelo, o laranja e o vermelho. (Ai, o outono!).

 

29
Ago20

DESPIDA DO DIA

Sandra

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O dia de trabalho chega ao fim. Sinto um peso a sair de cima dos ombros quando desligo o carro: a noite vai avançada e eu estou oficialmente de folga. Pelo caminho até à porta de casa travo uma luta desigual contra o vento que, teimoso, me empurra para trás. Não é só o vento que me desagrada... o casaco que trago vestido não me impede de sentir que também está frio.

Por contraste, ao entrar em casa sou abraçada pelo ar estagnado, demasiado quente. Após arrumar a mala, bebo um café e, descalça, corro à janela em busca do vento, do ar fresco da noite. Se antes me incomodou, agora que estou em casa é um prazer sentir algum frio na minha pele que só quer livrar-se da roupa e do calor. Fico ali um bocado, olhos fechados, cabelo preso à toa e o decote completamente aberto para melhor aproveitar o fresco do exterior.

Olho o céu, não consigo parar de o fazer. Como é lindo, familiar e tranquilo. Sinto uma espécie de nostalgia. Penso nas minhas rotinas, nos meus problemas e no que deveria ou não fazer. A passagem do tempo é rápida e a incerteza habita no amanhã, cujo controlo não está nas nossas mãos. Pertence a outros domínios. Respiro fundo e olho novamente ao meu redor. Alguns vizinhos passeiam os seus cães, embora frequentemente me pareça o oposto.

Olho novamente o céu. Sinto um misto de sentimentos dentro de mim. Começa mais uma semana e isso traz-me sempre alguma ansiedade e apreensão. Sempre! Tento não pensar nisso e obrigo-me a focar na noite.

O mundo é imensamente belo! Assusta-me e fascina-me. Temo-o pela sua grandiosidade e poder, em todas as vertentes, e pelo mesmo motivo, amo-o. Num universo gigante, somos minúsculos às vezes. Às vezes. Vejo uma estrela luzir mais que as outras por cima dos pinheiros altos. Pergunto-me há quanto tempo estará ela ali sozinha, brilhante, majestosa, a olhar para mim.

Tenho que fechar a janela sob o risco de ter alguma melga a perseguir-me a meio da noite (e eu a ela!), mas não consigo afastar-me do parapeito. Este momento faz-me sentir melhor, é exatamente o que eu estava a precisar depois de um dia de trabalho barulhento. Mas tem que ser, por muito que me custe, tenho que recolher-me.

Todos temos um ou outro dia em que não estamos em paz com a nossa alma; hoje foi a minha vez. Amanhã é sempre outro dia e sei de antemão que voltarei às minhas rotinas com alegria, com fé no meu Deus e com a confiança de sempre, cantando e saltitando entre divisões enquanto me foco no meu trabalho doméstico. Vou buscar um chocolate e ligo os dados móveis do telemóvel para ler as notícias.

28
Ago20

DENTE DE LEÃO

Sandra

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(Conto escrito a convite de MJP, tendo por tema A Liberdade.)

Era uma manhã de estranhas nuvens. O Dente de Leão olhava pasmado aquele ponto pequenino tombado na terra, de aspeto tão frágil mas mais brilhante que uma gota de orvalho a dormir ao sol. O ponto pequenino, sentindo-se observado, sorriu, fez uma vénia e apresentou-se: Liberdade era o seu nome. 

... as estranhas nuvens soltaram a chuva que caiu noite e dia sem parar. Rios encheram-se de vida. Campos cobriram-se de cereais. As árvores cederam o descanso dos seus ramos aos bandos de aves migratórias cansadas de voar. Animais de grande porte caminharam em fila pelo interior de densas florestas. Baleias deslizaram pelos oceanos.

Quando a chuva parou, o Sol foi fazer companhia ao Dente de Leão. Este, feliz, quis logo apresentar a sua nova amiga, a Liberdade. Contudo, não a encontrou mais ali a seu lado. Foi o vento, que passeava por ali de vestes ondulantes e mãos atrás das costas, quem esclareceu o triste Dente de Leão: a Liberdade tinha partido. Nascera o Ser Humano e a Liberdade agora já tinha onde morar: no coração de todos os homens! 

O Dente de Leão queixou-se ao vento:
- Mas a Liberdade era tão pequenina!
- O Homem tem a capacidade de fazê-la crescer para que ela possa chegar a toda a Humanidade...

Isso não convenceu o Dente de Leão:
- Tinha um ar tão frágil...
- Mas é forte. A Liberdade tem vontade própria. Quando a sua essência toca a vontade do Homem, a Liberdade consegue fazer milagres!

Indignado, o Dente de Leão bateu o pé:
- O Ser Humano não saberá o que fazer com a Liberdade!
- Mas a Liberdade saberá o que fazer com o Ser Humano! Obrigá-lo-á a crescer!

Vendo o ar duvidoso do Dente de Leão, o vento explicou:
- Lembras-te como a Liberdade brilhava? Isso acontece porque encerra em si todo o poder: a liberdade de sonhar e criar; a liberdade de errar e crescer; a liberdade de perdoar e pedir perdão; a liberdade de ensinar e aprender; a liberdade de escolher, de decidir, de lutar e conquistar. O melhor de tudo: a liberdade de amar o próximo, a natureza, o mundo, a si mesmo! 

O Dente de Leão acenou e sorriu feliz. O vento viu que a ideia da Liberdade habitar no coração do Homem tinha sido finalmente compreendida e aceite. 

Sim, era bem capaz de resultar...
Então o vento soprou o Dente de Leão. Este, sentindo no seu coração um pouco daquela liberdade que um dia conhecera, soltou com determinação as raízes que o prendiam ao solo e voou leve para longe!

27
Ago20

CONFUNDES-ME

Sandra

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Confundes-me. Não sei como avaliar o que sinto. O que me fazes sentir. Os alicerces que construí como certezas, tremem já. Convições começam a ceder. O que eu tinha estipulado como definitivo, aos poucos, está cheio de fendas como uma parede rachada pronta a ruir. Por ti. Para ti. Mas confundes-me.

De novo, tudo aquilo de que eu me resguardava: as incertezas, os pontos de interrogação, as frases inacabadas, os "E se?". Reticências. Artigos indefinidos. Eu não queria um amor. Senhora do meu nariz, não estava nos meus planos abdicar do que demoliste em mim. Não queria de novo o sonho, a saudade, a expetativa, a dúvida, o querer e a raiva.

Mas alguma vez tinha que ser, não é? Tinha que, vindo sei lá de que outros mundos e de que outros tempos, surgir alguém para remexer os meus sentimentos, a minha tranquila essência, as minhas cálidas certezas. Tinhas que chegar, não é?

Eu sei, não se pode caminhar longe do amor por muito tempo. Algures escondia-se o cupido, lenta a sua espera, determinado a cumprir a sua missão, desejoso de me confrontar:

"Eu avisei! Podes fugir mas não te podes esconder!".

Traiçoeiro. Eu não queria sentir o que sinto. Porque tu confundes-me.

Em ti, não distingo ainda o que é real entre todo esse sentir que vem no silêncio da noite. Desconheço até onde me levaria toda esta minha nova vontade em crer. Receio cada letra que tímida te entrego, ignorante quanto às expetativas de uma alma que é toda ela sentimento. Poderia pedir-te que não te precipites quando, em jeito de confissão, me dou? Poderia eu pedir-te que fales comigo se alguma dúvida houver quando um sentimento, ou uma afirmação minha, desajeitadamente te cedo? Fazes isso? Combinado? Diz que sim...

Sei que te esqueces de que ainda não sei falar de mim, ainda não sei ligar sílabas à solta e escrever preto no branco. Ainda não sei falar-te de amor. Daquele que eu sinto já a querer insinuar-se em mim e que eu tentava, de forma enganadora, em vão, manter distante. Tão ingénua eu era, sempre certa de tudo saber!

E eu, assim, rendida a ti. Sem saber se é um fim ou um princípio. De novo os receios, as inseguranças. Ser menina. Questionando tudo. Tocada por algo que vivia lá longe, do outro lado do horizonte, e que veio escondido em nevoeiros entre as ondas do mar. Tinhas que ser tu. No meio da minha prosa, a tua poesia. Tu confundes-me e eu gosto de ti.

Cupido traiçoeiro, é hora da desforra: qualquer dia quebro-te as setas!

26
Ago20

INSÓNIA

Sandra

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Insónia. Mente desperta. Impaciente, desvio de cima de mim o lençol, e subo o top, preciso de ar fresco. Mas o calor dentro do quarto não ajuda. A noite vai adiantada. Subo os estores, abro a janela e debruço-me sobre o parapeito. Olhos fechados. Respiro fundo uma, duas, três vezes e reencontro-me.

Estou descontraída. A noite é fresca, jovem e bela. Através do silêncio intenso e quase palpável, olho para longe. Pressinto outros mundos, outras civilizações, outras vidas, outros seres. Tanto e tanto ainda a descobrir e a tentar compreender! Olho no céu as constelações, lembrando-me que alguns pontos brilhantes não são estrelas mas planetas. Os que não piscam. Relaxo ainda mais. Começo a sentir frio mas não me importo, o frio espicaça-me e desperta-me. Faz-me bem.

Penso na humanidade, em todas as suas forças e fraquezas, capacidades, falhas e conquistas. E em tudo o que faz parte deste mundo que conhecemos. O Homem é poderoso. Dele, partem outras coisas imensamente poderosas: o amor, a palavra e o acreditar. Cada uma dessas coisas tem o seu próprio poder e propósito, mas tem também algo em comum que as coloca num mesmo nível: são forças cinéticas e consoante o seu uso podem ser demolidoras ou construtivas. Basta ler alguns registos que ficaram na história da humanidade: por amor, travaram-se batalhas; pelo poder da palavra, civilizações, como os Assírios, organizaram estratégias que lhes trouxeram enorme poder comercial, religioso e político; pelo poder de acreditar, aviões rasgam atualmente os céus - porque alguém, um dia, acreditou e fez! O amor, a palavra e a fé, forças que vêm através dos séculos, desde tempos primordiais, e que trouxeram o Homem até onde ele está hoje.

O céu, embora sem nuvens, está com uma luz rosada. Sinto os braços gelados e, finalmente, o sono a chegar. Penso no teu nome. Pergunto-me se estarás acordado e se eu, alguma vez, uma vez só, estarei aconchegada num abraço teu. Pensas em mim?

Deito-me, revejo, apesar de amanhã estar de folga, se tenho o despertador ligado, e procuro com os pés, uma zona da cama que esteja fria. Continuo a ouvir os sussurros doces da noite lá fora e a pressentir outros mundos, civilizações, outras vidas e outros seres. Alguma vez conseguirei chegar a ti como tu, em tão pouco tempo, chegaste a mim? 

 

25
Ago20

A BORBOLETA E O ANJO

Sandra

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Um anjo descansava num banco de jardim distraído das suas funções pela borboleta que beijava as flores. A borboleta pousou no ombro do anjo, colorida e leve. Olharam-se e sorrirndo, decidiram ver quem conseguia voar mais alto.

A borboleta pequenina, frágil, de asas brancas e redondas, contra o anjo solene, enorme, poderoso, de asas capazes de tapar o sol.

Soltaram uma risada e começaram o desafio. Quando já iam alto no céu, feliz, o anjo olhou para baixo e viu que aquele coração que jurou proteger, sofria. Esquecera-se dele!

A incrédula borboleta ganhou, pois, o anjo, ao ver o que acontecia com aquele coração lá em baixo, tão desamparado, sentiu as suas asas enfraquecerem com uma dor tão súbita que por momentos quase deixou de voar.

A borboleta, sentada nas nuvens à espera do seu amigo anjo, voltou atrás e ajudou-o a recuperar a força. E foram juntos, borboleta e anjo, buscar um pouco de sol para aquecer aquele pobre coração de olhar triste.

 

24
Ago20

AO JARDIM

Sandra

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Hoje, após noites de trabalho, foi a minha folga. Para aproveitar o dia optei por um jardim não muito longe daqui. Esse jardim, que faz parte da minha vida desde que nasci, é ainda hoje o meu lugar de eleição sempre que me apetece um pouco de natureza. Tem excelentes relvados, dois parques infantis, dois cafés com esplanada, courts de ténis, mesas de piquenique e um lago.

Na minha infância este jardim ocupava uma área maior e tinha um aspeto mais selvagem. Cada recanto tinha que ser devidamente explorado! Hoje, após muitas intervenções, resultantes principalmente da construção de prédios em seu redor, o jardim está mais citadino. Do que sinto mais a falta é da quantidade de verdes que havia e do lago de outrora, maior e praticamente coberta de nenúfares onde libélulas voavam e rãs coaxavam.

No entanto, apesar de tantas transformações, adoro o "meu" jardim. No inverno, nos dias em que o sol não brilha, tem um ar desolador, triste, desamparado e solitário. Mas no verão, apesar da secura, como sabe tão bem aproveitar os seus bancos à sombra dos plátanos históricos ou ao lado das hortênsias floridas, tendo por companhia tudo o que faz parte de um jardim digno desse nome.

Hoje, como sempre, percorri sem pressa cada espaço, sentando-me aqui e ali, e aproveitando para tirar algumas fotografias, outro dos meus passatempos.

Enquanto bebia um café quase hipnotizada pela luz do sol na água parada do lago, apercebi-me que passeio por este mesmo jardim há quarenta e quatro anos, espalhando os meus pensamentos, limpando a minha mente e energizando a minha áurea. Chego à conclusão de que as mudanças operadas neste espaço verde têm acompanhado as mudanças ocorridas na minha própria vida.

23
Ago20

AMA-ME

Sandra

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... e perco-me no sentido do nada remetido a tudo o que és!
Terceiro carril.
Selada a frágil luz dourada
em angelical madrugada,
já as tuas mãos em mim conetam o meu corpo
a outras esferas: 
mundos insondáveis,
de notas subtis, cristalinas.
Já desisti, já me rendi.
Sou tinir de cristal,
frágil gelo quebrado
em vibrações que me sobem
à altura de um firmamento
onde místicos,
gigantes deuses, habitam.
O teu olhar de mar azul mistério
há muito que arrebatou certezas onde forte me escondia.
De tudo o que ficou,
sorvo invisivel embriaguez de alma, refaço-me sedenta do teu tudo. Vou enfim, em mim, reencontrar-te.

Desvaneço-me atordoada,
escrava em desejos opalinos, imperativos que comandam ocultos a roda primitiva da vida.
Que estrelas caiam!
Que torpores adormeçam vulcões! Que vagas desfaçam rochedos! Vences, azul no olhar!
Em profundas, vastas planícies
como noite te passeias;
já nada meu quero,
nenhum eu que não tu,
fragata empurrada por silenciosos ventos vindos de longe.
Não treme ansioso
o meu corpo teu,
no eco de palavras devoradas?
Submissa tua, finalmente,
derradeira paixão na Terra,
onde como bússola em mapa me pousas.
Ama-me sem rumo.

22
Ago20

ENQUANTO HÁ TEMPO

Sandra

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Gosto da hora imediata ao acordar. É o momento que me traz maior introspeção, embora nem sempre voluntária. É como se algo guiasse a minha linha de pensamentos e eu fosse mera observadora. Contudo, é nesse estado de espírito que alguma preciosa reflexão nasce. Quando ainda me sinto ensonada, ligada a esse estranho e misterioso mundo dos sonhos, os sentidos ainda meios adormecidos mas a mente já a despertar. Quando as vozes do inconsciente ainda se fazem ouvir sem encontrar resistência.

Hoje, talvez por culpa de algum sonho já remetido para o universo do oculto, acordei a pensar em algo que não pode ser mais real: todos, sem exceção, temos alguém especial nas nossas vidas, alguém que nos marca, ou marcou, pela positiva.

Há sempre mais que uma pessoa, mas, por algum motivo real e válido, existe normalmente alguém que se destaca de todos os outros. Se conseguirmos analisar a questão com verdadeiro espírito analítico, esse alguém é facilmente reconhecível.

Infelizmente nem sempre conseguimos colocar em palavras ou atos todo o reconhecimento e gratidão que lhe temos. Ou porque o momento passou, ou porque ainda não chegou, ou porque alguma barreira impede as palavras de fluírem das nossas bocas.

Hoje sinto-me assim e isso entristece-me um pouco pois os ponteiros do relógio nunca andam para trás, pelo menos por livre arbítrio, e o momento que é o agora, no futuro, será o ontem. Mais: se agora a coisa parece não ter muita importância, um dia acabamos confrontados com a certeza de que poderíamos ter sido mais, dado mais, retribuído mais a essa pessoa que tanta importância tem.

Esse será o meu próximo desafio: conseguir colocar em palavras algo tão simples como um "Gosto tanto de ti, obrigada, desculpa, és demais, estou aqui para ti".

E oferecer todas essas palavras ao alguém especial que torna tudo sustentável, viável e com ainda mais sentido, mais encanto. Pelo menos, tentar.

 

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