Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Sílabas à Solta

Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria | Fotos retiradas da internet

Sílabas à Solta

Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria | Fotos retiradas da internet

ANDORINHAS

30.08.20 | Sandra

4506785_S.jpg

Pela manhã bem cedo, enquanto à janela da cozinha espreitava como estava o tempo, tive a alegria de vislumbrar algo que adoro e não esperava encontrar: andorinhas! Um pouco desconfiada por vê-las nesta altura do ano, e a pensar se não seria outra espécie, concluí que tendo em conta as alterações climáticas existentes era bem possível serem essas aves que admiro tanto.

O micro-ondas deu sinal avisando-me que o meu café com leite já estava quente, mas as andorinhas tinham captado por inteiro a minha atenção. Agora sim, já tinha a certeza do que via: andorinhas, de facto! Todos os anos, pela primavera, sou brindada com a sua presença, embora este ano já me tivesse interrogado, por várias vezes, onde estariam elas. Ou se voltaria a vê-las. Mas hoje aqui estavam de novo, vestidas de preto, azul escuro e branco, com as suas asas típicas e a cauda inconfundível, passando a alta velocidade em voos rasantes à minha janela. Quase que me tocavam a cara, enquanto faziam manobras verdadeiramente dignas de um caça F-16! Tenho a certeza que a indústria aeronáutica aplica, no fabrico dos seus modelos, dados e técnicas resultantes do estudo da vida animal.

Este bando que vejo é grande, as aves majestosas, firmes, determinadas e focadas na sua busca incessante de alimento. Parecem quase agressivas! Como a sua época oficial do engate, do namoro e construção de ninhos já ficou para trás, só podiam estar mesmo à procura de insetos mais distraídos que seriam capturados em pleno voo e levados às suas crias. Dizem que as andorinhas não podem aterrar, as suas patas não estão concebidas para tal. Tal como só podem viver em liberdade, pois em cativeiro definham e morrem. Defendem também que estas aves acasalam e nidificam sempre com o mesmo parceiro. Mas, facto cientificamente comprovado, algumas espécies gostam de ocasionais, secretas, breves e deliciosas relações extraconjugais.

Questões sexuais (e sentimentais) à parte, sou fã desta espécie de aves que migrando persegue o calor, andorinhas que me transportam à minha infância e que adoro ver para cá e para lá atarefadas, chiando em tons altos e agudos, indiferentes à minha presença. Se não fosse o meu café com leite estar a arrefecer, juntamente com o meu corpo recém-saído do calor da cama, teria ficado mais tempo à janela. Mas estas minhas amigas vão ficar ainda algum tempo por cá, voando, chiando e petiscando, até um dia, misteriosamente, desaparecerem para dar lugar às folhas de outono, com tons cruzados entre o amarelo, o laranja e o vermelho. (Ai, o outono!).

 

Mais andorinhas em:  https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/andorinha-89124?tc=76604960908

 

DESPIDA DO DIA

29.08.20 | Sandra

milky-way-2695569_640.jpg

Dia chegado ao fim. A noite vai já muito avançada, caminhando descalça entre meditações e lutas silenciosas, acanhadas. Na rua sopra um vento forte, gelado, que pica a pele e o cansaço. Dentro de casa, pesa um silêncio demasiado quente, estagnado. O calor esmaga-me, a minha pele anseia livrar-se da roupa e das horas passadas. Abro a janela e respiro o frio da noite obscura. Cabelo preso à toa, decote completamente aberto, olhos fechados. Sabe bem sentir o vento, ainda que ele teime em exagerar a sua força.

Olho o céu, não consigo parar de o fazer. Como é lindo, familiar e tranquilo. Sinto uma espécie de nostalgia. Começa mais uma semana e isso traz-me sempre alguma ansiedade e apreensão. Sempre! Penso nas minhas rotinas, nos meus problemas, e no que deveria ou não fazer. A passagem do tempo é rápida e a incerteza habita no amanhã, cujo controlo não está nas nossas mãos. Pertence a outros domínios. Tento não pensar nisso agora. Respiro fundo e olho ao meu redor. Alguns vizinhos passeiam os seus cães, embora frequentemente me pareça o oposto. Quem manda, afinal?

O céu escuro e algo agitado. O mundo é imensamente belo! Assusta-me e fascina-me. Temo-o pela sua grandiosidade e poder, em todas as vertentes, e pelo mesmo motivo, amo-o. Num universo gigante, somos minúsculos às vezes. Às vezes. Vejo uma estrela luzir mais que as outras por cima dos pinheiros altos. Pergunto-me há quanto tempo estará ela ali sozinha, brilhante, majestosa, a olhar para mim.

Todos temos um ou outro dia em que não estamos em paz com a nossa alma; hoje foi a minha vez. Amanhã é sempre outro dia, e sei de antemão que voltarei às minhas rotinas com alegria, com fé no meu Deus e com a confiança de sempre, cantando e saltitando entre divisões enquanto me foco no meu trabalho doméstico. Vou buscar um chocolate e leio no telemóvel as notícias do dia. Lá fora a noite prossegue o seu percurso, contorcendo-se alheia às vidas cá em baixo que se debatem em infindáveis questões.

CONFUNDES-ME

27.08.20 | Sandra

1745173_M.jpg

Confundes-me. Não sei como avaliar o que sinto. O que me fazes sentir. Os alicerces que construí como certezas, tremem já. Convicções começam a ceder. O que eu tinha estipulado como definitivo, aos poucos, está cheio de fendas como uma parede rachada pronta a ruir. Por ti. Para ti. Mas confundes-me.

De novo, tudo aquilo de que eu me resguardava: as incertezas, os pontos de interrogação, as frases inacabadas, os "E se?". Reticências. Artigos indefinidos. Eu não queria um amor. Senhora do meu nariz, não estava nos meus planos abdicar do que demoliste em mim. Não queria de novo o sonho, a saudade, a expetativa, a dúvida, o querer e a raiva.

Mas alguma vez tinha que ser, não é? Tinha que, vindo sei lá de que outros mundos e de que outros tempos, surgir alguém para remexer os meus sentimentos, a minha tranquila essência, as minhas cálidas certezas. Tinhas que chegar, não é?

Eu sei, não se pode caminhar longe do amor por muito tempo. Algures escondia-se o cupido, lenta a sua espera, determinado a cumprir a sua missão, desejoso de me confrontar:

"Eu avisei! Podes fugir mas não te podes esconder!".

Traiçoeiro. Eu não queria sentir o que sinto. Porque tu confundes-me.

Em ti, não distingo ainda o que é real entre todo esse sentir que vem no silêncio da noite. Desconheço até onde me levaria toda esta minha nova vontade em crer. Receio cada letra que tímida te entrego, ignorante quanto às expetativas de uma alma que é toda ela sentimento. Poderia pedir-te que não te precipites quando, em jeito de confissão, me dou? Poderia eu pedir-te que fales comigo se alguma dúvida houver quando um sentimento, ou uma afirmação minha, desajeitadamente te cedo? Fazes isso? Combinado? Diz que sim...

Sei que te esqueces de que ainda não sei falar de mim, ainda não sei ligar sílabas à solta e escrever preto no branco. Ainda não sei falar-te de amor. Daquele que eu sinto já a querer insinuar-se em mim e que eu tentava, de forma enganadora, em vão, manter distante. Tão ingénua eu era, sempre certa de tudo saber!

E eu, assim, rendida a ti. Sem saber se é um fim ou um princípio. De novo os receios, as inseguranças. Ser menina. Questionando tudo. Tocada por algo que vivia lá longe, do outro lado do horizonte, e que veio escondido em nevoeiros entre as ondas do mar. Tinhas que ser tu. No meio da minha prosa, a tua poesia. Tu confundes-me e eu gosto de ti.

INSÓNIA

26.08.20 | Sandra

1987808_M.jpg

 

Insónia. Mente desperta. Impaciente, desvio de cima de mim o lençol, e subo o top, preciso de sentir no meu corpo o ar fresco. Mas o calor dentro do quarto não ajuda. A noite vai adiantada. Subo os estores, abro a janela e debruço-me sobre o parapeito. Olhos fechados. Respiro fundo uma, duas, três vezes e reencontro-me.

Estou descontraída. A noite é fresca, jovem e bela. Através do silêncio intenso e quase palpável, olho para longe. Pressinto outros mundos, outras civilizações, outras vidas, outros seres. Tanto e tanto ainda a descobrir e a tentar compreender! Olho no céu as constelações, lembrando-me que alguns pontos brilhantes não são estrelas mas planetas. Os que não piscam. Relaxo ainda mais. Começo a sentir frio mas não me importo, o frio espicaça-me e desperta-me. Faz-me bem.

Penso na humanidade, em todas as suas forças e fraquezas, capacidades, falhas e conquistas. E em tudo o que faz parte deste mundo que conhecemos. O Homem é poderoso. Dele, partem outras coisas imensamente poderosas: o amor, a palavra e o acreditar. Cada uma dessas coisas tem o seu próprio poder e propósito, mas tem também algo em comum que as coloca num mesmo nível: são forças cinéticas e consoante o seu uso podem ser demolidoras ou construtivas. Basta ler alguns registos que ficaram na história da humanidade: por amor, travaram-se batalhas; pelo poder da palavra, civilizações, como os Assírios, organizaram estratégias que lhes trouxeram enorme poder comercial, religioso e político; pelo poder de acreditar, aviões rasgam atualmente os céus - porque alguém, um dia, acreditou e fez! O amor, a palavra e a fé, forças que vêm através dos séculos, desde tempos primordiais, e que trouxeram o Homem até onde ele está hoje.

O céu, embora sem nuvens, está com uma luz rosada. Sinto os braços gelados e, finalmente, o sono a chegar. Penso no teu nome. Pergunto-me se estarás acordado e se eu, alguma vez, uma vez só, estarei aconchegada num abraço teu. Pensas em mim?

Deito-me, revejo, apesar de amanhã estar de folga, se tenho o despertador ligado, e procuro com os pés, uma zona da cama que esteja fria. Continuo a ouvir os sussurros doces da noite lá fora e a pressentir outros mundos, civilizações, outras vidas e outros seres. Alguma vez conseguirei chegar a ti como tu, em tão pouco tempo, chegaste a mim? 

 

AO JARDIM

24.08.20 | Sandra

3137588_M.jpg

Não longe daqui,
há um jardim.
Na lagoa ensolarada,
onde caiem sombras nómadas
e folhas impávidas,
cismam os patos, as rãs,
os nenúfares rijos, sólidos,
coroados por libélulas vadias.
Tartarugas aos montes
trepam pedras redondas,
quentes no calor cru do sol.

Bancos ladeados, bem estimados,
embriagados
pelas sombras de plátanos
mais velhos que o século.
Hortênsias e samambaias.
Sombras exuberantes que escutam pavões e pombos desmazelados.
Crianças, baloiços e risos.
Jogos de cartas, dominó.
Um café. Um olhar. Um beijo?
Esplanadas e mesas de piquenique,
que admiram espantadas
buganvílias, agapantos, jacarandás floridos.
Riachos escuros e distintos,
que riem.
De novo, os patos, preguiçosos.
O tempo, a pausa, o poder.
E o não te ter.
Fazes falta neste jardim que não te conheceu.
Nem eu.
Não tenho o teu amor
neste jardim que sei de cor.

ENQUANTO HÁ TEMPO

22.08.20 | Sandra

1450300_S.jpg

A hora imediata ao acordar é muito peculiar. É o momento que me traz maior introspeção, embora nem sempre voluntária. É como se algo independente de mim guiasse a minha linha de pensamentos e eu fosse somente uma mera observadora. Contudo, é nesse estado de espírito que alguma preciosa reflexão nasce. Quando ainda me sinto ensonada, ligada a esse estranho e misterioso mundo dos sonhos, os sentidos ainda meios adormecidos mas a mente já a despertar. Quando as vozes do inconsciente ainda se fazem ouvir sem encontrar resistência.

Hoje, talvez por culpa de algum sonho já remetido para o universo do oculto, acordei a pensar em algo que não pode ser mais real: todos, sem exceção, temos alguém especial nas nossas vidas, alguém que nos marca, ou marcou, pela positiva. Há sempre mais que uma pessoa, mas, por algum motivo real e válido, existe normalmente alguém que se destaca de todos os outros. Se conseguirmos analisar a questão com verdadeiro espírito analítico, esse alguém é facilmente reconhecível.

Infelizmente nem sempre conseguimos colocar em palavras ou atos todo o amor, o reconhecimento e gratidão que lhe temos, e que essa pessoa merece saber que sentimos. Ou porque o momento passou, ou porque ainda não chegou, ou porque alguma barreira impede as palavras de fluírem das nossas bocas. Ou porque "amanhã, sem falta".

Hoje sinto-me assim e isso entristece-me um pouco pois os ponteiros do relógio nunca andam para trás, pelo menos por livre arbítrio, e o momento que é o "agora", no futuro, será o "ontem". Mais: se por enquanto a coisa parece não ter muita importância, adiar demonstrações de afeto e gratidão, um dia acabamos confrontados com a certeza de que poderíamos ter sido mais, dado mais, retribuído mais a essa pessoa que tanta importância tem.

Esse será o meu próximo desafio: conseguir colocar em palavras algo tão simples como um "Gosto tanto de ti, obrigada, desculpa, és demais, estou aqui para ti". E oferecer todas essas palavras ao alguém especial que torna tudo sustentável, viável e com ainda mais sentido, mais encanto. Que torna mais leve esta minha caminhada. Pelo menos, tentar.

MOMENTO

21.08.20 | Sandra

430085_M.jpg

Todos nós temos aquela hora do dia que nos faz sentir melhor. Aquele momento que pelas suas caraterísticas peculiares nos permite abstrair de tudo o resto, nos liberta e serena, quando tudo o que nos rodeia parece mais apelativo aos sentidos e mais encantador à nossa alma.

O meu momento é o crepúsculo. Nessa hora singular gosto de apreciar a partida da tarde e saudar a chegada da noite. E é o que faço hoje: deixo-me ficar debruçada à janela perdida nesse maravilhoso evento. Relembro um ou outro pormenor do que fiz desde que acordei, tomo algumas notas mentais para organizar o dia seguinte e, como um capítulo que termina para dar início a outro, foco-me apenas na paisagem que tenho à minha frente. Então algo muda.

É um momento de mistério e transformação. Nesta altura só conta o aqui e o agora. Não há vento, tudo parece parado no ar estagnado e quente. No lusco-fusco, o céu brinda-me com tonalidades fantásticas. As árvores transformam-se em negras silhuetas contrastando com um céu que aos poucos escurece também. Vejo bandos de pardais barulhentos a esconderem-se à pressa entre a folhagem dos ramos que parecem igualmente adormecer. No céu surgem estrelas tímidas, como que envergonhadas do seu brilho ainda ténue. Ao longe, as luzes da cidade acendem-se aos poucos e os prédios ganham brilho, cor. Carros passam depressa numa estrada distante, consigo ver as suas luzes no escuro que se adensa. Na praceta em frente da minha janela noto que os candeeiros de rua estão já acesos. À volta deles voam traças. A noite chega depressa e silenciosa. A lua quase cheia parece maior e mais brilhante que o costume. Oiço algures um melro e, ao longe, um cão ladra. Está calor e alguns miúdos ainda jogam à bola no campo seco aqui ao lado. Riem despreocupados e falam alto.

Saboreio sem pressa a minha bebida fresca e olho para longe: do lado do mar, o farol sempre incansável na sua tarefa; do outro lado, vivendas ladeadas de terrenos selvagens. E no alto da serra, o Palácio da Pena, todas as noites sempre bem iluminado. Relaxo, sinto em mim toda a serenidade que me cerca. E embrenho-me em recordações... há sempre alguém especial que inevitavelmente será lembrado numa noite assim.

Deixo-o chegar, quero pensar nele. Nunca fomos mais que amigos embora o sentimento disfarçado por nós fosse outro bem diferente. O meu coração bate forte num misto de saudade, arrependimento e comodismo. Juntamente com algumas lembranças vêm as interrogações, um aperto no peito, uma vontade louca de o rever e retomar a nossa história no ponto em que eu a deixei. Quando se dá o "tudo ou nada"!

O bom senso que há em mim emerge subitamente para me lembrar que há coisas tão mais importantes, sendo que a principal é saber que aqueles que amo, que realmente me importam, estão bem. Rezo constantemente a Deus para que sempre os guarde, os proteja e ajude. A fé, por si só, pode não ser o suficiente para conseguir algo mas é um tremendo ponto de partida (e de chegada) para alcançar respostas, e eu creio firmemente no meu Deus.

Olho novamente o céu agora já carregado de estrelas, acabo a minha bebida, inspiro uma última vez o ar quente e seco da rua e despeço-me a custo da noite. O seu silêncio é meu cúmplice, o amante perfeito.

Fecho a janela. Os afazeres esperam-me e o relógio exige que eu não perca tempo. Tenho ainda algumas tarefas a terminar. No entanto, há algo que preciso com uma urgência maior: um banho a meia-luz, demorado, perfumado e relaxante. Tenho um desejo enorme de me fechar os olhos e sentir a água no meu corpo, no meu cabelo. No meio do vapor, que preenche o ambiente e embacia o espelho, sinto-me limpar também a alma, regressar a mim, à minha essência, às minhas convicções e à minha esperança. Em corpo de mulher, o meu coração volta a ser pequenino outra vez.

BORBOLETAS AO VERÃO

20.08.20 | Sandra

1127666_S.jpg

Estou à janela em jeito de pausa dos meus afazeres domésticos quando passa bem perto de mim uma borboleta branca. Depois vejo três mais adiante, rodopiando entre si, leves, felizes e embaladas na aragem que passa sobre o relvado verde e cerrado. Simultaneamente frágeis e fortes, igualmente simples e complexas. Parece que com o passar dos anos são cada vez menos...

Está muito calor. Lembro-me de verões passados. Os dias intermináveis eram divididos entre alegres idas à praia e a tranquilidade de um jardim próximo, com toda a sua vida e frescura a desenrolarem-se em meu redor e dentro de mim. Adorava tudo aquilo que os meses do calor representavam. Era como se por essa altura tudo fosse possibilidades, certezas, escolhas, livre arbítrio, soluções sempre presentes. Liberdade, confiança absoluta, decisões acertadas. Sorte. Como se tudo dependesse unicamente de mim, e tudo eu conseguisse. Mais... nessa altura, havia tempo para ter tempo. Hoje, o tempo manda em mim.

As borboletas passam agora ainda mais perto da minha janela, logo acima das copas redondas das árvores. Parecem tranquilas na sua simplicidade, sobrevivendo, explorando recursos e falando entre si sobre quase nada. Com o sol a destacar ainda mais a brancura das suas asas, limitam-se ao que é mais acertado e decisivo para elas naquele momento. Parece resultar.

O voo branco das borboletas atarefadas faz-me abstrair de tudo. Fica a sensação de que naquele momento tudo gira em seu redor, como se fossem elas o centro de tudo o que vejo a partir da minha janela! E parece tudo tão simples, tão fácil... Mas existirão sempre desafios, provas, cansaços. Tudo isso faz parte da nossa condição enquanto seres humanos. Por ora, deixo os meus pensamentos partirem para longe. Afinal tenho Deus, e no céu brilha um sol maravilhoso!

As borboletas? Ainda voam sob a minha janela...



BALANÇO FEITO

19.08.20 | Sandra

2910948_S.jpg

Agora alguns miúdos brincam na rua, as suas vozes altas e agudas, pautadas por risos, misturam-se ao ladrar dos cães que correm atrás da bola. A hora avança. A minha respiração está mais leve e pausada, sinto o meu corpo fresco e, imersa no jogo de luz-sombra que me acolhe no quarto onde me encontro, estou serena, tranquila.

As minhas férias estão a terminar. Faço um pequeno balanço destes dias que passaram, e dos que se seguirão, se Deus quiser. Repenso tanto de mim: as minhas fragilidades e capacidades. O que me torna ansiosa, e o que me faz sentir mais forte. As minhas limitações e as possibilidades que se apresentam pela frente. Os receios que me acompanham, e a minha tremenda fé no meu Deus. Tanto ainda a alcançar, tantos desafios a ultrapassar! Talvez eu avance muito devagar. Eu tenho essa noção. Mas avanço! E é essa certeza que me move, tendo por objetivo final a paz, a minha e principalmente, a de quem me importa. Se estiverem bem, eu também estarei certamente. A tarde está a ceder devagar, mas de forma notória, as suas horas ao crepúsculo. Decido ir fazer um café e, com essa bebida que evoca o exótico, fazer mentalmente um brinde em jeito de agradecimento:

"Foi apenas mais um dia normal. Que bom! Obrigada meu Deus, obrigada!".

FILHO MEU

11.08.20 | Sandra

IMG_20190905_081918_661.jpg

Hoje, enquanto olhava da minha janela as árvores da rua, apercebi-me do quanto sinto falta de assistir a um pôr-do-sol. Daqueles que acontecem num dia quente como o de hoje e que dão a tudo um tom entre o vermelho e o laranja. Um crepúsculo que faz o horizonte parecer imenso. Que evidencia o tom da terra meio seca, o verde das folhas, a relva que cresce selvagem, que projeta sombras longas no chão e até parece ter perfume próprio.

Ao fim do dia, também o meu Filho ficou demoradamente à janela, contemplativo, perdido nos seus próprios pensamentos. Olho-o sem que ele se aperceba da minha presença. Até à sua chegada eu não sabia nada sobre o significado de Amar. Nada! Como o amo! Tanto, dói na alma...

Ele tem os seus problemas e eu, cheia de um imenso amor por ele, com uma tremenda fé em Deus, rezo, rezo muito, para que Deus o ajude sempre. Dava tudo para que fosse possível fechar negócio com Deus, algo do género:

" - Meu Deus, retire tudo o que de menos bom estiver reservado para o meu Filho e coloque isso sobre mim e apenas sobre mim, para que ele viva sempre em paz e com paz em todas as áreas da sua vida! Em troca, eu...".

Depois, um aperto de mão e ficaria o acordo selado entre ambas as partes. Contudo, na verdade, já é isso mesmo que eu peço nas minhas orações silenciosas: que o meu Filho tenha somente desafios menores na sua vida, aqueles que fazem parte da vida de todos nós, que são passageiros, de resolução fácil, e que até ajudam no processo de crescimento pessoal!

O meu Filho é crescido, alto, mais do que eu, porém, ao vê-lo naquela janela, contemplativo, senti-o tão pequenino que só quis correr para ele e apertá-lo, abraçá-lo, mimá-lo, protegê-lo, dar-lhe colinho!

Aproximei-me dele sem perturbar o seu estado contemplativo. Permanecemos os dois à janela, em silêncio cúmplice, a ver a praceta, as árvores, as colinas relvadas, os baloiços coloridos, os cães risonhos a brincar. O sol a dourar tudo na sua luz pacifica, nostálgica, no calor de fim de tarde. Não foram precisas palavras.

Sinto a falta de assistir a um ocaso. Porém, aqueles doces minutos ao lado do mais maravilhoso ser que recebi na minha vida, valeram cada pôr-do-sol que pudesse assistir neste momento. A minha vida, o meu coração, tudo o que sou, tudo o que tenho, tudo o que faço, eu por inteira, tudo entrego em oração pelo meu Filho. A um Deus que amo e questiono. A esse Deus, a quem peço a proteção do meu Filho, com uma tremenda fé.

O meu Filho, algo muito, mas muito acima de mim, a soma de todas as coisas mais belas que alguma vez vislumbrei. Naquele ser tão doce e tão meu amigo, reconheço a beleza das ondas do mar revolto, da águia que voa no alto das montanhas, da força das águas da catarata que caiem a uma velocidade vertiginosa, da baleia que deslumbra ao saltar fora de água, das maiores migrações animais ao cimo da Terra, dos milagres das monções e do misterioso universo.

É exagero? Não, é apenas um Filho, o meu filho, que, por tudo aquilo que é, com todas as suas características muito próprias, inclusive as menos fáceis, merece todo o amor desta sua Mãe. 

Pág. 1/2