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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

MOMENTO

21.08.20 | Sandra

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Todos nós temos aquela hora do dia que nos é mais querida. Aquele momento que, pelas suas caraterísticas peculiares, nos permite abstrair de tudo o resto, nos liberta e serena, quando tudo o que nos rodeia parece mais encantador.

O "meu" momento é o crepúsculo. Nessa hora singular gosto de apreciar a partida da tarde e saudar a chegada da noite. E é o que faço hoje: deixo-me ficar debruçada à janela perdida nesse evento mágico. Relembro um ou outro pormenor do que fiz desde que acordei, tomo algumas notas mentais para organizar o dia seguinte e, como um capítulo que termina para dar início a outro, algo muda.

É um momento de mistério e transformação. Nesta altura só conta o aqui e o agora. Não há vento, tudo parece parado, até o ar está estagnado e quente. No lusco-fusco, o céu brinda-me com tonalidades fantásticas. As árvores transformam-se em negras silhuetas contrastando com um céu que aos poucos escurece também. Vejo bandos de pardais barulhentos a esconderem-se à pressa entre a folhagem dos ramos que parecem igualmente adormecer. No céu surgem estrelas tímidas, como que envergonhadas do seu brilho ainda ténue. Ao longe, as luzes da cidade acendem-se aos poucos e os prédios ganham brilho, cor. Carros passam depressa numa estrada distante, consigo ver as suas luzes no escuro que chega. Na praceta em frente da minha janela noto que os candeeiros de rua já estão acesos. À volta deles voam traças. A noite chega depressa e silenciosa. A lua quase cheia parece maior e mais brilhante que o costume. Oiço algures um melro e, ao longe, um cão ladra. Está calor e alguns miúdos ainda jogam à bola no campo seco aqui ao lado. Riem despreocupados e falam alto.

Saboreio sem pressa a minha bebida fresca e olho para longe: do lado do mar, o farol sempre incansável na sua tarefa; do outro lado, vivendas ladeadas de terrenos selvagens. E no alto da serra, o Palácio da Pena, todas as noites sempre bem iluminado. Relaxo, sinto em mim toda a serenidade que me cerca. E embrenho-me em recordações... há sempre alguém especial que inevitavelmente será lembrado numa noite assim.

Deixo-o chegar, quero pensar nele. Nunca fomos mais que amigos embora o sentimento disfarçado por nós fosse outro bem diferente. O meu coração bate forte num misto de saudade, arrependimento e comodismo. Juntamente com algumas lembranças vêm as interrogações, um aperto no peito, uma vontade louca de o rever e retomar a nossa história no ponto em que eu a deixei. Quando se dá o "tudo ou nada"!

O bom senso que há em mim emerge subitamente para me lembrar que há coisas tão mais importantes, sendo que a principal é saber que aqueles que amo, que realmente me importam, estão bem. Rezo constantemente a Deus para que sempre os guarde, os proteja e ajude. A fé, por si só, pode não ser o suficiente para conseguir algo mas é um tremendo ponto de partida (e de chegada) e eu creio firmemente no meu Deus.

Olho novamente o céu agora já carregado de estrelas, acabo a minha bebida, inspiro uma última vez o ar quente e seco da rua e despeço-me a custo da noite. O seu silêncio é meu cúmplice, o amante perfeito.

Fecho a janela. Os afazeres esperam-me e o relógio exige que eu não perca tempo. Tenho ainda o jantar para fazer, algumas coisas a arrumar e a telenovela que não quero perder. No entanto, há algo que preciso com uma urgência maior: um duche a meia-luz, demorado, perfumado e relaxante. Tenho um desejo enorme de me fechar os olhos e sentir a água no meu corpo, no meu cabelo. No meio do vapor, que preenche o ambiente e embacia o espelho, sinto-me limpar também a alma, regressar a mim, à minha essência, às minhas convicções e à minha esperança. Em corpo de mulher, o meu coração volta a ser pequenino outra vez.

BORBOLETAS AO VERÃO

20.08.20 | Sandra

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Estou à janela em jeito de pausa dos meus afazeres domésticos quando passa bem perto de mim uma borboleta branca. Depois vejo três um pouco mais à frente, rodopiando leves, felizes e dançantes sobre o relvado verde e cerrado. Parece que com o passar dos anos são cada vez menos.

Está muito calor. Do nada questiono-me onde ficou o meu Eu de antigamente. Jamais eu teria deixado passar um dia assim sem ir à praia! Adorava tudo o que a praia representava para mim e que ia desde a visão do areal até ao perfume do mar, das rochas cobertas de limo e dos óleos bronzeadores.

Costumava fazer imensas caminhadas pela zona de rebentação, rendida ao toque quente do Sol no meu corpo alto e sentindo nos tornozelos a frescura do mar. Algumas vezes, encontrava alguém conhecido com quem parava a conversar; outras, limitava-me a andar devagar, sem parar, esquecida das horas, vendo através dos óculos de Sol o mar brilhar em toda a sua sensualidade, cheio de reflexos prateados, onde uma ou outra prancha cruzava as ondas.

A minha parte preferida era quando me sentava nas rochas quentes e duras, com os pés dentro de água, olhando entretida as poças que ali se formavam. Encantavam-me as algas, os caranguejos minúsculos, um ou outro búzio, as anémonas coloridas e os peixes tímidos. Apreciava também quando, deitada na toalha com o Sol no seu ponto mais alto, de olhos fechados, sentia o vento passar por mim, como uma carícia vagarosa ou um véu que pousava na minha pele.

Nessa altura o verão era eterno, os dias intermináveis e as noites eram sinónimo de festas ou convívio. Nestes últimos anos raramente fui à praia, acho que já não consigo desfrutar em pleno de um dia passado assim. Julgo que tal transformação pode ser resultado das mudanças trazidas com o passar dos tempos ou de problemas que surgem e interferem com vontades ou estados de humor.

Certo é que hoje em dia prefiro espaços verdes. Adoro os jardins com os seus muros, musgos e trepadeiras, relvados, árvores antigas, bancos à sombra, repuxos e bebedouros. Serena-me a visão dos lagos recheados de nenúfares, libélulas, peixes, tartarugas e patos. Sem falar do som dos pássaros e da companhia dos pavões ou dos pombos. Tenho, de longe a longe, saudades desse meu Eu de outrora que entregava, completamente rendida e despreocupada, o corpo, os sentidos e a alma ao prazer de um dia de praia acompanhado pela famosa Bola de Berlim. Acho que de tudo o que esse tempo representa para mim, aquilo de que tenho mais saudades é da sensação de liberdade, das certezas que tinha então, da confiança e do saber que está tudo bem. Sempre. Que ingénua! Hoje, as responsabilidades são outras, as preocupações são diferentes e alguns pontos de vista mudaram. Até o calor parece outro.

Mas, calor é calor e, rezando sempre para que o amanhã chegue sereno, para mim e para os meus, deixo as minhas reflexões partirem e entrego-me ao ar quente que entra pela janela aberta e atravessa facilmente as cortinas leves e imóveis. Afinal, há que aproveitar já que quase tudo é efémero. As borboletas? Ainda voam sob a minha janela...

BALANÇO FEITO

19.08.20 | Sandra

2910948_S.jpgAs minhas férias estão na sua reta final. Encontro-me naquele estado de alma em que me lembro constantemente que podia (e devia) ter aproveitado mais. Sinto que, de novo, falhei. Criei, atempadamente para esta altura, uma lista de "coisas a fazer" que tencionava cumprir religiosamente. Mas as únicas coisas que cumpri, e que não se enquadravam na lista, foram os afazeres domésticos. Claro que tive momentos agradáveis e de descanso, mas, ainda assim, nada daquilo que planeava ter feito ou que escapasse à minha rotina foi cumprido. Por isso, esses tais momentos não contam.

Convenço-me, aos poucos, que se calhar não falhei de todo. Fui eu por inteira, em concordância com o que sou. Agora, férias terminadas, voltarei a ser de novo aquela pessoa que, mesmo parecendo alegre e ativa, estará em constante sentido de alerta, analisando atentamente as possibilidades e impossibilidades desta vida, focada nas minhas tarefas, no bem-estar daqueles que amo, e tentado sempre manter-me confiante. O regresso ao trabalho faz-me refletir nas minhas qualidades e defeitos, nas minhas forças e fraquezas, nas minhas limitações e poderes. Reconheço que sempre existirão vitórias, receios, cansaços, alegrias, ansiedades, desafios e celebrações, tudo determinado por algo que nos torna pequeninos ou gigantes. Contudo, tenho ainda a minha fé, o meu Deus e o meu poder de acreditar.

Agora alguns miúdos brincam na rua, as suas vozes altas e agudas, pautadas por risos, misturam-se ao ladrar dos cães que correm atrás da bola. A hora avança. A minha respiração está mais leve e pausada, sinto o meu corpo fresco e, imersa no jogo de luz-sombra que me acolhe, estou serena, tranquila. Decido ir fazer um café e, com essa bebida que evoca o exótico, fazer mentalmente um brinde em jeito de agradecimento:

" - Foi apenas mais um dia normal. Obrigada meu Deus, obrigada!".

NÃO HOJE

18.08.20 | Sandra

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Tenho acompanhado, na medida da minha disponibilidade, um programa que passa diariamente na RTP1, cujos episódios são transmitidos a partir das várias regiões que fazem parte da famosa Estrada Nacional 2 (EN2). Trata-se da maior estrada nacional de Portugal e uma das maiores do mundo. Mais de 700 quilómetros que ligam o norte e o sul do nosso país. Sempre que o programa termina, fico a remoer a minha imensa vontade de percorrer todo esse trajeto. Mas mesmo que o fator monetário não fosse um impedimento, seria o fator tempo.

Outra vez, o tempo!

Parece-me que tudo passa cada vez mais rápido. Horas, dias, semanas, meses. Momentos, vivências e experiências. E isso deixa-me louca! Não sei lutar contra o poder das horas e do calendário, ultrapassa as minhas capacidades e aprendizagens. Volta e meia dou por mim a lamentar que o dia não seja mais longo. Sempre consigo cumprir os objetivos por mim traçados para cada dia, mas fica sempre muito por realizar, tantas e tão variadas são as coisas que aprecio e preciso fazer. Assim, sentindo uma necessidade e uma pressão por mim impostas de aproveitar cada segundo, acabo por ter dificuldade em "desligar". O relógio torna-se meu aliado e meu inimigo.

O que ainda me ajuda a esquecer que o tempo voa e deixa tanto para depois são os momentos em que me cerco pela natureza ou quando posso desfrutar, despreocupada e feliz, da companhia dos que me são mais chegados. O tempo e a sua vontade própria, a sua determinação... mas hoje não.

Não hoje! Hoje obriguei-me a parar de pensar nas horas, nos afazeres, em tudo. Faço-o através de um hábito muito meu: um banho de imersão fora de horas. Toca "Harvest Moon" do Neil Young, a tarde vai a meio, está calor, porque não? É das coisas que mais me relaxa! Adoro estar na penumbra, sentir na pele o toque fresco e íntimo da água e da espuma leve, ouvindo através da janela aberta os sons das aves e das vozes das pessoas que descansam na praceta e que chegam a mim como ecos. Fico assim muito tempo, olhos fechados, sem pensar em nada, os sentidos rendidos ao desfrutar do momento, aos sons distantes da rua ou à ondulação da água na banheira. Nem dou pelo tempo passar. Por agora, ganhei esta luta contra os ponteiros do relógio.

Mas a vitória foi de curta duração. Enquanto me visto, indignada com as horas que o telemóvel me mostra, a roupa leve e fina a colar-se ao corpo ainda húmido do banho e do vapor de água, já a minha mente cria uma lista do que tenho a fazer até ir para a cama. Eu própria sinto essa necessidade, tenho de me mexer, fazer algo, trabalhar. Até aproveito para listar os meus afazeres para quando regressar ao trabalho após as minhas folgas! Nada mudou: as obrigações, os afazeres, as rotinas, a própria passagem do tempo. Mas ao menos a energia é outra, sinto-me renovada. E a esperança também se renova: um dia, talvez eu consiga mesmo percorrer a EN2! Nada é impossível até prova em contrário. Já me sinto outra!

ANJOS

17.08.20 | Sandra

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Dizem que os anjos, formas divinas de energia que nos acompanham desde o nosso nascimento, comunicam constantemente connosco. Essa comunicação, apenas pressentida por alguns nós, faz-se indiretamente através de pressentimentos, intuição, breves visões, sonhos, instinto, mudanças de decisões feitas à última hora e sem explicação possível, coincidências, situações ou algo que se repete constantemente. Também agem quando somos salvos de algo menos bom e, incrédulos, só conseguimos dizer: "Que sorte que eu tive, ainda nem acredito!".

Existem também os outros anjos, os que assumem formas humanas. Esses, não sendo propriamente anjos, assumem essa denominação por outros motivos: são seres extremamente humildes, sempre gratos e que, apesar dos seus próprios problemas e dificuldades, vivem incansáveis para ajudar o próximo, sem olhar a quem. Outros tipos de "anjos-humanos" são os que dão tudo por tudo por uma causa nobre, por um bem maior, e envolvem-se com o sofrimento do outro, vão ao limite extremo, e quebrando barreiras, sem nunca duvidar, conseguem o que ninguém acreditaria ser possível.

Há também aqueles outros anjos, os de quatro patas, felpudos blocos vivos de amor, lealdade, devoção e companheirismo, verdadeira terapia e lição de vida para os seus humanos.

E tantos anjos mais existirão aqui e ali, cada um de vós saberá melhor que ninguém quem na vossa vida merecerá esse título.
Houve um tempo em que os anjos falavam. Agora apenas tocam-nos de leve ou murmuram sussurros que, quer tenhamos ou não essa noção, influenciam quem somos, como agimos e como comunicamos. Seres de luz.

CAFÉ

16.08.20 | Sandra

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É noite. Está calor. Na rua, no quarto. O meu receio a bicharocos impede-me de abrir a janela para refrescar o ambiente, mas sei que lá fora a noite, mais do que quente, está linda, estrelas num céu aveludado sem nuvens e as folhas das árvores sem se moverem. Oiço alguns miúdos a conversar sentados nos bancos de cimento e sei, sem precisar de ver, que os seus cães estão deitados a seu lado na relva fresca. Oiço também cigarras ao desafio; um ou outro melro junta-se à cantoria.

As noites quentes têm um cheiro próprio a campo, a terra remexida, a madeira seca, a relva pisada. A emoções. Penso agora na imensidão da noite, do mundo, do universo. E na enormidade de disparates que tenho feito vida fora, na infinidade de sonhos que serão sempre só fantasias. Para evitar uma possível neura, bebo animada um café.

Eu e o café fomos apresentados um ao outro, estava eu a trabalhar numa loja de rua, ainda no tempo do escudo. Lembro-me de estar de pé ao balcão de uma pastelaria pequena, quente, barulhenta, cheia de clientes. Uma empregada muito apressada perguntou-me o que eu desejava, e eu, com ar de idiota (ia beber o meu primeiro café) lá fiz o meu pedido.

O café chega e a minha idiotice revela-se em todo o seu esplendor! Primeiro, desconfiada, olho para dentro da chávena pousada no balcão e não vejo nada! Ponho-me em bicos de pés, olho melhor, a minha cara espantada quase dentro da chávena; e sim, lá está ele, o famoso café, lá bem no fundo da chávena, pequenino e tímido, meio escondido de mim.

- É só isto? - Penso.

Pego a chávena e dou o meu primeiro sorvo. Não um golinho! Quase um shot, ininterrupto. Eu mais parecia um camelo alucinado a beber água após uma longa travessia no deserto! Resultado, aqui a idiota, não sabendo que a bebida era tão quente, queimou-se a ponto de ficar com os olhos a lacrimejar. Fiquei mesmo aflita! Depois, já conseguindo respirar mais calmamente, e com a língua feita cortiça ou esferovite, lá paguei o café muito desiludida. Lembro-me de ter achado muito dinheiro para tão pouco produto. Conclusão: no trabalho, passei a manhã toda a mirar-me ao espelho para ter a certeza que a minha língua não tinha criado bolhas.

Este palavreado todo para dizer que hoje em dia não passo sem o café! Adoro, somos amigos íntimos, inseparáveis, nos bons e menos bons momentos do dia. Ou de uma noite escura como esta, cálida, com as luzes lá ao longe a piscarem, as traças a voarem perto dos candeeiros de rua, os miúdos ainda a conversarem, os seus cães por perto, e eu, tranquila no meu quarto quente. Já fiz as minhas orações pela proteção da minha família, já bebi o meu café e já me mentalizei que estou bem assim, eu e eu, fazendo companhia a mim mesma, sozinha na noite abafada, mas com a alma carregada de fé e o coração pleno de sonhos. Bem mais cheio que a chávena de café naquele dia já tão longe...

CHUVA DE ESTRELAS

14.08.20 | Sandra

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Muito se tem falado em chuva de meteoritos, mas nunca tive o (enorme) privilégio de presenciar um momento assim. O que me obriga a ter que imaginar como será algo tão intenso e a sentir alguma frustração ao pensar que, talvez, jamais passarei disso mesmo - do uso da imaginação para ver o tal fenómeno astronómico de que toda a gente fala.

E é à noite, quando na minha cama fecho os olhos, e fujo ao dia que passou, que a minha mente, ainda desperta, dá largas à imaginação e sonha...
E sonho acordada com a chuva de meteoritos! E imagino que essas faíscas brilhantes que, abruptamente cortam o céu, são vislumbradas aqui na Terra por nós - tu e eu.

Claro, não existe um "nós", apenas um "eu", opção à muito tempo escolhida por mim como a que me concede mais paz e que é para manter. Mas, às vezes, apetece um "nós" e no mundo da imaginação tudo é possível, principalmente na imaginação de uma mulher. E tu estás lá!

Gostava de assistir a uma chuva de meteoritos contigo a meu lado. Fosses tu quem fosses, pois no mundo da imaginação serias sempre a pessoa certa. Nada iria mudar, eu sei: o céu continuaria escuro, as estrelas manter-se-iam brilhantes, possivelmente a lua andaria escondida algures; os sons da noite seriam os mesmos, a brisa tocaria os nossos rostos, suave e quente. E os meteoritos continuariam a rasgar, de forma abrupta, a atmosfera terrestre.
Mas tu, tu! Tu estarias sentado em silêncio ao meu lado, aquecendo a minha alma, iluminando o meu coração, aconchegando o meu corpo e incendiando a minha imaginação. Fazendo-me desejar a tua mão na minha. Um beijo, talvez...

Não te conheço, não sei se já passaste por mim no tempo, na forma de algum amor falhado, impossível ou não-assumido… ou se surgirás algures num amanhã, em alguma esquina do destino. Contudo, é contigo que me deslumbro a olhar as estrelas cadentes...

ECOS TEUS

14.08.20 | Sandra

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As nuvens passam rápido, arrastadas por um vento furioso, que parece rugir por entre as árvores. Não me atrevo a abrir a janela, pois sei que lá fora está frio e eu acabei de sair do banho. Olho, sem ver, a rua. Toca aquela música que tanto gosto e faz-me lembrar de ti. Imagino-te no conforto tranquilo do teu lar, nesse Guincho tão intenso como tu, cheio de histórias e memórias, que é todo só teu. Deves estar neste momento vagueando pelo teu iPhone, entre cigarrilhas e o teu gin, indiferente ao vento frio lá fora. Sei que o calor que és tu a ti te basta. E hoje é o teu aniversário... 14 de Agosto.
Eu queria calor. Não era preciso ser da luz do sol nem da minha manta de lã aos quadrados. Queria aquecer-me na tua alma, nas tuas divagações, observações mordazes e interrogações. A tua alma tão humanamente linda e irónica. Enfim, as coisas são como têm que ser e, não o podendo fazer de outra forma, aqueço-me com um café. Toca agora uma música que nunca ouvi antes. Não é má de todo e deixo-me embalar pela sua cadência. Podia dançá-la contigo. Um dia...

A música acaba e entro naquele estado de "não me apetece fazer mais nada hoje". Espreito à janela onde duas mulheres, carregando um monte de sacos, estão a falar há horas imunes ao vento forte. Dizem que quando o vento sopra com tamanha força é sinal de muito calor nos dias seguintes. Vou começar a estar mais atenta para ver se é verdade!
As senhoras faladoras olham na direção da minha janela exatamente no momento em que deslizo as cortinas. Vou deitar-me no sofá. Ligo a televisão para assistir ao programa de entretenimento da tarde, tapo-me com a manta e espero serena pelo sono. Pode ser que assim não pense tanto em ti e não fique tanto tempo a lembrar o que foi. Faz falta mais humanidade, compreensão, dar a mão em vez de apontar o dedo, ajudar em vez de criticar. O benefício da dúvida.Tu nunca te achaste o dono da verdade, nunca tiveste essa arrogância. O programa da tarde continua. O sono chega. Hora da sesta.

 

TEMPO

12.08.20 | Sandra

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Hoje estive de folga. Como tenho trabalhado cerca de doze horas diárias, semana após semana, e aproveitado as folgas unicamente para limpezas ou compras de mercearias, decidi, nesta folga, nada fazer.

Assim sendo, após um duche demorado de água bem quente (o calor no banho relaxa-me), vesti uma roupa confortável, bebi o meu café (outro dos meus vícios) e entreguei-me ao tal não fazer nada.

A intenção para hoje era mesmo a de relaxar, e já que estava a cometer o pecado da preguiça, decidi (porque não?), cometer também o da gula. Assim, de corpo fresco, roupa leve e trança no cabelo, fiz uma mousse de chocolate que devorei com bolachas (já falei em vícios?). Espero que a balança não se importe muito porque, o que preciso neste momento, é mesmo... não me importar.

E relaxar. Desfrutar o silêncio, o sol da janela, as cortinas finas que balançam devagar, a minha própria companhia, ignorar o relógio e sonhar. Sim, sonhar, sonho muito, sou romântica, sou sonhadora! O que não me prejudica por aí além, pois tenho um bom-senso considerável e o sonhar acordada é apenas uma outra forma de relaxar.

Enfim, entre pecados, comando da televisão na mão, escapadelas à janela para, de olhos fechados, deixar o sol quente acariciar-me a pele, o vento suave roçar-me o pescoço e o cabelo, como um desejado beijo, o dia passou.

"- Então foi bom!" - dirão vocês!
"- Nem por isso " - digo eu.

Passou rápido. Queria mais: mais sol e vento suave na minha pele, mais café, mais sofá, mais tempo. Mas lá diz a canção: o tempo não espera.

E cá estou eu, noite escura lá fora, a (tentar) escrever uma espécie de blogue, entre lençóis frescos, com a televisão desligada e a recordar-me que não posso esquecer de ligar o despertador para amanhã. Parece que ainda há muito pouco acordei, e agora já me deitei. O que é bom passa depressa. Nada de novo, mas é algo a que ainda não me habituei lá muito bem.

Lá fora, a escuridão. Há nuvens. Por trás das nuvens, estrelas, constelações, planetas, todo um universo sedutor e agressivo. Intenso. Apetece-me ir à janela e apreciar a noite, sentir o ar fresco e limpo, olhar os candeeiros da rua e o céu. Mas amanhã é dia de trabalho (e muito agradeço a Deus por isso) e deixo-me ficar entre os meus lençóis frescos. Vou sonhar.

FILHO MEU

11.08.20 | Sandra

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Hoje, enquanto olhava da minha janela as árvores da rua, apercebi-me do quanto sinto falta de assistir a um pôr-do-sol. Daqueles que acontecem num dia quente como o de hoje e que dão a tudo um tom entre o vermelho e o laranja. Um crepúsculo que faz o horizonte parecer imenso. Que evidencia o tom da terra meio seca, o verde das folhas, a relva que cresce selvagem, que projeta sombras longas no chão e até parece ter perfume próprio. Loucura, eu sei, creio ser o resultado de eu estar a precisar imenso de saborear um delicioso, fumegante e inocente café.

Ao fim do dia, também o meu Filho ficou demoradamente à janela, contemplativo, perdido nos seus próprios pensamentos. E olho-o, enquanto aquele lindo ser vê a rua, sem ele se aperceber da minha presença. Até à sua chegada eu não sabia nada sobre amor. Nada! Como o amo! Tanto, dói...

Ele tem os seus problemas e eu, cheia de um imenso amor por ele, muito crente em Deus, rezo, rezo muito para que Deus o ajude sempre. Dava tudo, tudo, para que fosse possível fechar negócio com Deus, algo do género:

"- Meu Deus, retire tudo o que de menos bom estiver reservado para o meu Filho e coloque isso sobre mim e apenas sobre mim, para que ele viva sempre em paz e com paz em todas as áreas da sua vida! Em troca, eu...".

Depois, um aperto de mão entre ambas as partes e acordo selado. Contudo, na verdade, já é isso mesmo que eu peço nas minhas orações silenciosas. Que o meu Filho unicamente tenha desafios menores na sua vida, daqueles que fazem parte da vida de tanta gente e que são passageiros, pontes que levam ao crescimento pessoal. Só!

O meu Filho é crescido, alto, mais do que eu, porém, ao vê-lo naquela janela, contemplativo, senti-o tão pequenino, só quis correr para ele e apertá-lo, abraçá-lo, mimá-lo, protegê-lo, dar-lhe colinho!

Aproximei-me dele, todavia, não quis interromper o seu estado pensativo, abstraído. Em vez disso fiquei ali a seu lado. Ficámos os dois à janela, em silêncio cúmplice, a ver a praceta, as árvores, as colinas relvadas, os baloiços coloridos, os cães risonhos a brincar. O sol a dourar tudo na sua luz pacifica, nostálgica, no calor de fim de tarde. Não foram precisas palavras.

Sinto a falta de assistir a um ocaso. Porém, aqueles doces minutos ao lado do mais maravilhoso ser que recebi na minha vida, valeram mil sóis a desaparecer despreocupados no horizonte. A minha vida, o meu coração, tudo o que sou, tudo o que tenho, tudo o que faço, eu por inteira, tudo entrego em oração pelo meu Filho. A um Deus que amo e questiono. A esse Deus, a quem peço a proteção do meu Filho. Com uma tremenda fé.

O meu filho, algo muito, mas muito acima de mim, a soma de todas as coisas mais belas alguma vez vislumbradas pelo Homem e daquelas que ainda estão por descobrir. Naquele doce ser reconheço a beleza das ondas do mar revolto, da águia que voa no alto das montanhas, da força das águas da catarata que caiem a uma velocidade vertiginosa, da baleia que deslumbra ao saltar fora de água, das maiores migrações animais ao cimo da Terra, dos milagres das monções.

É exagero? Não, é apenas um Filho, o meu filho, que, por tudo aquilo que é, merece todo o amor desta sua Mãe.