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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

DE MIM, A TI

10.08.20 | Sandra

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Tens em ti todas as ondas do teu mar. Na praia deserta e fria que desde o primeiro minuto se estende aos teus pés, és todas essas árvores frondosas, embriagadas, troncos caídos ao abandono das dunas, pegadas na areia gravadas a cada compasso do teu respirar.

Inalas o perfume da maresia quando a gaivota se refugia no alto das rochas e o vento solta as tuas amarras. Tens os olhos húmidos e a alma à espera, descrente, enfunada como velas duma embarcação fantasma.

Sentas-te no aconchego daquele teu velho banco na praia e entregas-te ao tempo em que tudo o que era grandioso era brindado ao sabor da brisa que és tu também. Sopraste-me e eu senti-te. 

Quando rendida, baixa a maré, a estrada atrás de ti confessa-se deserta na hora do descanso. Folhas secas rasgam-se aos teus pés. Também tu estás cansado. Mas o brilho da lua cheia ainda te olha no meu olhar. Conseguiste.

HOJE

09.08.20 | Sandra

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A minha folga chega ao fim. Na penumbra do quarto, sentido os lençóis frios, enquanto assisto a um programa de televisão, saboreio uma água com gás - leve, simples, humilde. Desta vez a televisão não consegue seduzir-me. Seduz-me sim, a tua imagem, viva, real, insistente no meu pensamento. E não procuro afastar essa visão.

Seria hoje. Se possível, seria hoje. Estaríamos sentados muito próximos um do outro, abraçados na meia-luz. Embalados na música tranquila, discreta, que suspira baixo. A conversa entre nós, fluída, simples, fácil, descontraída, seria apenas interrompida por silêncios intensos, plenos de significado, sem constrangimentos, preconceitos ou culpas. Nesses silêncios, os nossos olhares cruzar-se-iam demoradamente, abandonados um ao outro, confessando sentimentos, quereres, desejos, sem inibições.

O teu olhar! Não sei lutar (e nem quero!) contra o poder que tem sobre mim! Não sei se alguma vez foi criada pela humanidade uma palavra que resuma tudo o que o teu olhar, tu, por inteiro, me fazes sentir! É como se algo viesse, silencioso, mas poderoso, de muito, muito longe, de lugares desconhecidos e jamais alcançados pelo Homem, de tempos primordiais, já esquecidos, imutável, até hoje, até ao aqui e ao agora. E apenas com este fim: usar-te a ti, ao teu olhar, para eu esquecer-me a mim mesma, abstrair-me dos meus sentidos, inundar-me de algo muito maior que eu!

Quando revejo a tua imagem parece que o tempo quase pára, dentro de mim, em meu redor, e fica só a entrega, o sentimento, a vontade. O sonho… e tu. Houve uma altura. Estivemos perto. O tempo passa, opera grandes mudanças. Mas o teu olhar é igual. 

Seria hoje! Dançaríamos, cúmplices, em paz com nós mesmos e com o mundo, aquela canção. E, embriagados por aquela cadência, o que tanta vez imaginei, aconteceria...
Mas não. O que imaginei, continuarei a imaginar. Tal como a tua imagem continua a insinuar-se no meu pensamento. Não é amor. Poderia vir a ser, um dia, não sei, mas neste momento é algo diferente, algo ainda mais. Não tão puro como o verdadeiro amor, mas igualmente poderoso. E anseio-te mais que nunca.

A noite avança. As constelações giram num céu escuro, alheias ao que se passa aqui em baixo, na Terra, e o universo é grande, tremendo, misterioso.
As horas avançam e o meu bom senso diz-me que o melhor a fazer é ler, escolher um livro cativante e esquecer nele este meu desalento. Contudo, a mente humana é poderosa e prega partidas. Sei que entre cada sílaba, frase, parágrafo que sentir, estarei a ver-te a ti, quase de forma inconsciente. E sei que ao virar de cada página, irei rever-te, imaginar-te. São estados de alma que escapam ao meu controlo. E não me importo por aí além... ciente do que irei, ou não, alguma vez alcançar, ao menos, nos meus pensamentos tudo posso, tudo consigo.

SIMPLICIDADES

09.08.20 | Sandra

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Considero-me uma pessoa simples embora não propriamente fácil. Mas isso não me impede de desejar, procurar e, sempre que possível, vivenciar, as coisas descomplicadas da vida. São muitas, são tantas, e nada ganharia em enumerá-las todas aqui. Posso, sim, tentar resumir a isto: Quem, ao observar distraído, as ervas do campo a dançarem ao sabor do vento, e, nesse instante, se alhear completamente do tempo, do espaço e de si próprio, compreender-me-á certamente.
E este será apenas um exemplo entre tantos que poderia dar. O poder das coisas simples será só suplantado talvez pelo poder do amor na sua forma mais verdadeira...

Cheguei há pouco tempo a este espaço sem saber bem ao que vinha, questionando-me como partilhar algo, o que partilhar, e como interagir convosco. Não vim com o intuito de escrever (no sentido superior, perfeito e puro, do verbo ESCREVER) pois não o sei fazer, mas com a intenção de largar aqui alguns rabiscos, rascunhos, notas, e ver no que dava. Terapia? Sílabas à solta. Um pouco como ter uma mala cheia de objetos e despejá-la abruptamente em cima da cama, deixando o seu conteúdo acumulado num monte disforme e sem sentido aparente.
Mas ao ler os vossos blogues fiquei maravilhada, senti-me em casa. E comecei a considerar que estar aqui convosco, deixar aqui um pouco de mim, faz agora também parte da minha lista das coisas simples da vida. Como as cartas que antigamente se escreviam, com o coração na ponta da caneta, para quem estava longe.

SOU

07.08.20 | Sandra

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Eu sou. Sou pensamentos, sentimentos! Sou dona de amores, como amo! Sou desejos e quereres. Sou sonhos e realidades, sou ambiguidade e certezas. Sou fantasia e imaginação. Sou trabalho e ponderação. Sou subtileza e intensidade, sou pessoa de Fé, sonhos, receios, preces, pecados e penitências! Sou mulher, sou força e fragilidade, sou amor, sou filha, sou mãe! Sou crente, sou riso, sou silêncios e lágrimas! Sou coração aberto, sou coração apertado, sou olhar suplicante, sou murmúrio grato. Sou mistério, sou sozinha e mundo cheio. Sou ser menor, súbdita de algo maior. Sou de Deus e a Deus me escrevo e reescrevo de coração pleno. De tudo, e que tão pouco é...

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