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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

SOLTA-ME

19.09.20 | Sandra

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As horas envolvem-me em abraços sem escrúpulos. Não consigo arrancar-me aos minutos e segundos que me prendem os sentidos. Cada avançar de ponteiros marca-me sem questionar a minha vontade. E tudo o que resta é amar as horas que caminham ao meu colo, alheias aos passos que dou.

E há horas que correm junto com cães rua abaixo, levando com elas sonhos que não guardei. Deslizam pelo alcatrão quente do sol apregoando o sentido do dever, do ter de fazer, pisando desejos meus.

Mas há ainda aquelas horas, essas outras...

São sentido de um todo, passeiam-se sem tempo por este meu coração de menina-mulher que ainda se deslumbra com a vida e o mundo. Pois o sentimento e a razão passeiam-se cúmplices de mão dada pelas esquinas da noite, acolhedora dos meus segredos. E é nessas horas noturnas que a alma se despe, boémia, solta, sem a pressa das badaladas. Nessas horas o Tempo é doce amante que escuta sem pressa palavras minhas que balançam ao embalo do vento do mundo.

RENDO-ME

18.09.20 | Sandra

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Guardo para mim todas as belas palavras do mundo. Deslizo como cetim mudo entre as entrelinhas do não dito. A sombra de sentimentos ocultos em lua nova já me despe de maiúsculas seduções. Silêncio...

Sou forma nua na penumbra do papel em branco suspenso à minha frente, onde te irei rascunhar.

Em escuridão, o teu toque feito silabas à solta. Respiração acelerada. Esqueço sinais de pontuação pois já tudo são impercetíveis murmúrios. Movimentos bruscos caídos como parágrafos sem sentido. Vagueio no teu corpo, deslizo por ti figuras de estilo. Mão na mão, que a alma já se reconhece. Géneros literários sem forma num último rascunho.

De novo, o silêncio, a quebra. Reticências. Coração sem rimas, corpo extasiado. Palavras eruditas em louco amor sem título.

CELEBRAÇÃO

17.09.20 | Sandra

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Hoje apenas celebro contigo. Celebro a certeza. Porque é preciso haverem certezas: da nossa essência e do passado que nos trouxe a quem hoje somos, no aqui e agora. É precisa a certeza da nossa evolução, receios, sonhos, fraquezas, limites e conquistas. Certezas do que, na medida do possível, queremos para nós. E do que, definitivamente, não queremos. Certezas sim, não dúvidas.

Celebro contigo a fé. O que seria de nós sem acreditar? É precisa a fé em nós mesmos, naqueles que nos são importantes, nas nossas escolhas e nas nossas ações. É preciso fé nos nossos sentimentos e desejos, nas mãos que se estendem a nós, nos nossos silêncios e no sol que nasce. E aquela fé em algo ou alguém maior que nós, que parece estar sempre connosco quando mais é preciso. A fé nas possibilidades.

Celebro por fim, contigo, o amor. Sob todas as suas formas. O amor que se tem por um familiar, por alguém com quem queremos passar os nossos dias ou por aquela tão sincera amizade. O amor que se tem por um animal de estimação, por uma música, um passatempo ou uma tarefa. O amor por livros, obras de arte, um desporto ou viajar. O amor a nós próprios, aos outros, à natureza, ao mundo. O amor a mim, a ti. O amor, que torna tudo viável.

Hoje, celebrei contigo apenas isto: a certeza, a fé e o amor. Serão muitas todas as outras coisas dignas de serem celebradas. Talvez a maior de todas, o princípio que tudo em si encerra, seja a própria vida. Celebremos então, eu e tu, também a vida. Porque como diz o ditado, enquanto há vida, há esperança. Mesmo em dias menos fáceis, quando, ao menos, ainda existe a Poesia que és tu, feita celebração.

NÃO ME ESQUEÇAS NUNCA

16.09.20 | Sandra

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Não te esqueças de me lembrar.
Não te esqueças de te lembrar que o mesmo céu nos abraça, que o teu sol entrega-se em mim, e que na noite partilhamos estrelas.

O mundo avança e nele avançamos juntos. Neste momento, civilizações crescem. Filhos dão os primeiros passos. Namorados dão o primeiro beijo. Olhares trocam-se entre desconhecidos num comboio que segue a alta velocidade. Algures, um médico salva uma vida e um pedreiro sonha em regressar a casa, enquanto contempla cansado o muro terminado de construir.

Em algum ponto do mundo uma vela é acesa, um pinheiro cresce, um leão caça a sua presa. Num segundo, alguém abraça alguém e um locutor narra uma notícia importante. Uma ave migratória choca os seus ovos. Um violinista toca a sua pauta. Um candeeiro de rua apaga-se. Uma mariposa repousa. A brisa sopra. Uma mota atravessa a marginal. Um pavão exibe-se, enquanto no lado oposto do planeta fogo-de-artifício rebenta.

Algures, um grupo de velhotes joga às cartas e um menino aprende a andar de bicicleta.
O mundo não para e não permite que me detenha. Não te esqueças de me lembrar que tenho direito a interromper-me. Lembra-me que hoje posso ser melhor que ontem, e amanhã melhor que hoje. Lembra-me que tenho direito a sonhar, a errar, a fracassar, a reerguer-me e cair de novo, se preciso.

Não te esqueças de me lembrar que tenho direito a ser frágil, a ser mulher, a querer, a ousar, a fazer (de novo) as pazes com Deus e a esquecer. Não esqueças de me lembrar que tenho direito a ter direito e a pedir, a receber algo bom. A agradecer.

Algures, carros cruzam a estrada a alta velocidade. Uma folha cai de uma árvore. Aves migram. Num lugar, o Sol nasce. Noutro, a Lua brilha num céu estrelado. Em algum ponto do mundo, crianças ouvem a sua professora e idosos trocam, ainda tímidos, um beijo. Noutro ponto do globo, o mar rebenta contra as rochas. E, num deserto qualquer, camelos seguem em fila, carregando mercadorias pelo calor tórrido. Em alguma esquina, alguém envia a partir do telemóvel uma mensagem importante. Um grupo de monges budistas entoam os seus cânticos. Dois presidentes selam um acordo com um aperto de mão. Uma bailarina treina. E, algures, uma orca alimenta-se num vasto oceano. Num sítio, a monção chega arrebatadora. Noutro, um satélite é lançado ao espaço. Os embondeiros crescem. Uma gaivota pousa numa embarcação e, para lá do horizonte, uma cidade brilha à noite.

E tu, entre tudo!

Lembra-te de me lembrares que eu também sou do mundo, com tudo o que tenho de bom e de menos bom. Recorda-me, sem esqueceres, que tenho direito a olhar aquela nuvem, a esconder aquela lágrima, a pisar aquele relvado, a ouvir aquela música, a saborear aquele olhar. A ser de Deus. Tua, talvez.

Não te esqueças de me lembrar que nem tudo está perdido. Que ainda posso ser simples, humilde. Que continuo a possuir a minha Fé e o meu Deus. Que ainda tudo pode ser melhor.

Não te esqueças de me lembrar. Não me esqueças. Eu… nunca!...

PROCURA-ME

15.09.20 | Sandra

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Pressentimentos levaram-me a ti. Em passos indecisos chego ao teu nome. Tímida como brisa na tarde, deixo-te as minhas primeiras palavras. Sempre tu. Não sei outro caminho que não este. Não quero outro que não tu. Curiosa confesso-me, descobre-me tu.

Pressente-me, curioso também, escuta sons meus não ditos em palavras pintadas como rascunhos. Procura-me, lê-me nas evidências escondidas. Sou as entrelinhas que te mostro. Derramo sentimentos como prosa discreta. E aves falam de ti, com a meiguice que adivinhas em mim...

Confia. Fala comigo outra vez, de novo, pois estou aqui, no silêncio que é teu.

Quero afagar um pouco de alma tua feita livro que folheio. Sinto-me ser puxada a ti num abraço entre a tua escrita de pedras soltas. Escreve-me tu, quando o sol deslumbra a poesia. Mostra que me ouves quando nenhum som dos meus lábios é emitido senão o de estrofes que caiem como roupas no chão.

Chama-me como já o fizeste. Um apelo teu feito ecos de flor que me envias. Guardarei cada pétala caída de palavras cheias que me deres...

 

ONDE HÁ?

13.09.20 | Sandra

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Não quero um amor qualquer
Quero amor real
Sentido
Sem floreados, assumido
Entre nós, declarado
Deslumbrado
Quero um amor assim!
Sincero
Demonstrado
Ofertado
Recebido
Rasgado
Sem alinhavos
Ou ponteados...

Todos vós falam-me de amor
A todos vós que mo declaram,
Será?

Quero amor de sorrisos
Murmúrios
Sonhos
Embalos
Mistérios
Amor real
Leal à nossa vontade
Cruzar de almas
Cruzar de corpos
Verdadeiro entre nós
Isso só me bastaria.
Mas teria que ter sentido...

Quero um amor simples!

Humildade
Cumplicidade
Sentimento
Entrega
Poesia, porque não!
Onde há amor assim?

ESCOLHER PALAVRAS

12.09.20 | Sandra

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Libertaste-me!
Sou leve, enfim,
feliz, sem remorsos!
Penas, jogos,
esquemas...
sou livre, de novo!
As palavras certas
Disseste-as tu!
Na porta fechada
abriste-me janelas
ao mundo, agora eu!
Alegria!
Solto-me na manhã!
Hoje já tudo lá vai,
onde tu vais também!
E já nada será mudado,
Nada novo entre nós...
Sorrio, estou leve!
Não tens como retroceder:
Pelas vezes que perdi
hoje, ganho eu!
Já não tenho que escolher palavras
pesar sentidos
medir significados!
Libertaste-me de ti
sob o que tu não queres!
Sentimentos meus de fumo
que se esfumam no ar!
Há tanto mais para eu amar...

 

CAPITAL

11.09.20 | Sandra

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Na tarde avançada o calor aperta cada vez mais. A cidade pulsa de vida sob aquela chuva lenta e persistente que teima em cair. Os prédios e as torres mais altas, coroados por nuvens pesadas e cinzentas, têm um semblante monótono, indiferente. Transeuntes caminham apressados pelos passeios molhados e escorregadios, mãos enterradas nos bolsos e cabeça baixa, uns indiferentes ao meio; outros, impacientes e fartos daquelas ruas cheias de gente. É impossível circular sem alguém se esbarrar contra outro alguém. E ainda ter que lidar com guarda-chuvas?

Pessoas ao monte aglomeram-se ao lado do semáforo que parece determinado em não autorizar a travessia da passadeira. O grande relógio digital da torre principal mostra, entre o bloco noticioso, horas que ninguém vê. Os carros, iguais uns aos outros, avançam em marcha lenta, salpicando quem circula do lado de fora do passeio, faróis ligados e limpa para-brisas no seu movimento hipnotizante.

A chuva continua a molhar a cidade que pulsa. O semáforo muda a sua cor para verde e o aglomerado de pessoas desperta da sua letargia para atravessar finalmente a rua.
Os lojistas estão excessivamente animados e atarefados. Os cafés estão lotados. Confusão, barrulho, encontrões, gargalhadas, cheiros de comida que se cruzam com cheiros de perfumes. E o dia avança, picado por aquela chuva interminável e pelo calor sufocante de um verão mais quente que o normal.

Com alguma dificuldade em chegar à porta, consigo finalmente sair do café para a rua. Anseio o regresso ao sossego e frescura do lar. Caminho pelo passeio apinhado de gente. Hora de ponta. Pessoas de todos os tipos, géneros, idades, status. Faço um jogo: tento imaginar os nomes de quem me acompanha ao longo dessa caminhada e o que estão ali a fazer naquela hora confusa. Estranhos para estranhos.

Sou acordada desses pensamentos quando alguém que caminha em sentido contrário choca contra mim, ombro contra ombro, prosseguindo em passo apressado a sua caminhada. Num gesto instintivo olhei para trás. Também tu te viraste para trás para pedir desculpa pelo embate. E a cidade desapareceu. Houve um reconhecimento. Em menos de nada, passamos do espanto à curiosidade, do reconhecer às perguntas que tinham que ser feitas. Alguém amado, cujas mudanças provocadas pela passagem do tempo foi afastado de mim. Relação que parou algures. E ali, à chuva, estávamos nós, estáticos, incrédulos, mudos, olhos nos olhos. A cidade meteu-se entre nós e deixei de te ver. Nessa quente e cinzenta tarde, reescreveu-se a história.

 

PICUINHO

10.09.20 | Sandra

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Quase que não sei descrever-te. Por mais que tente, ficarei sempre aquém de tudo o que de bom, mágico e belo és! Quem conseguir vislumbrar a beleza das enormes constelações na primeira hora do mundo, quando seres alados brilhavam nos céus, terá, ainda assim, só uma pequena noção de ti.

Toda a luz da criação brilha no teu rosto quando se abrem céus azuis de primavera, densas florestas douradas onde o veado se deslumbra e desertos sem fim onde é possível observar estrelas primordiais em noites cálidas. A tua alma é a soma de todos os oceanos mansos que brilham sob o sol da hora alta e nem a aragem quente da noite leve de imenso verão se assemelha ao teu coração. Chamei-te "Picuinho" e amei-te tanto como a nem eu. A ti, que és bom, tão bom, tão pequenino, meu pequenino... muito melhor do que eu.

Está na hora do universo cerrar lutas e se redimir. Esta é a altura de Deus se emocionar nas tuas entrelinhas e me aceitar por ti. Eu sou a oferenda, o preço, a recompensa. Eu.

A felicidade aqui na Terra a ti, finalmente! Que tu sejas enfim, nesta vida já, o sol livre em madrugada alegre e despreocupada, a lua adormecida em segura paz como música de embalar. E que celebres então agora, já, de hoje em diante, para sempre, o recomeço da tua vida em festa enfeitada de noites vivas das cidades que brilham na noite universal. Livre, em paz, feliz, aqui na Terra, enfim.

Deus contigo.

 

QUEM NUNCA

09.09.20 | Sandra

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Sonho-te. Acordada, bem desperta! Quem nunca? No silêncio da liberdade que o fim do dia oferece é mais fácil pensar-te.

Estás em todo o lado. Estás aqui. Tão perto. De olhos fechados, esqueço já quem sou. Já não preciso de me lembrar. O tempo fica suspenso como uma plateia à espera de um desfecho. O que te diria eu se as minhas palavras, cruzando a distância da noite, chegassem a ti na respiração das estrelas? E que palavras minhas ouvirias tu, quando a lua nova brilhasse no céu insondável como uma aguçada foice prateada sobre o negrume do teu abismo feito Guincho?

Penso-te, sonho-te. No mistério de algo acima do real, sei que já não haveria um Tu e um Eu. Nem um nós, sequer! Apenas esse algo, feito um único momento na história do universo, trazido num feitiço há muito tecido, sentimento alheio agora só nosso. Mãos que se prendem, se agarram em deslumbre, um embalo imparável, instintos primitivos vindos do início dos tempos, um impulso ultrapassando tudo, alucinando os sentidos, fazendo os ponteiros do relógio universal retrocederem a sua marcha. Um vislumbre do que foi e do que será.

E tudo isto poderia ser só um beijo. Poderia ser até um abraço, apenas e nada mais que um abraço. Tão suficiente como o abraço que trocamos, tão poderoso como a fusão nuclear que ocorre no interior das estrelas e transforma o hidrogénio em hélio.

No fim? O derradeiro sentido. A justificação de um sentimento até aí injustificável. A resposta final, a compreensão de tudo. Tu, entre o mar e a serra. No fim, a razão embutida no coração.