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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

SIM!

08.09.20 | Sandra

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Chego ansiosa. Vejo-te ao longe, parado na quietude do teu jardim, à minha espera. Cabelo despenteado pelo vento como nuvem de algodão. Caminho por aquele carreiro entre velhas árvores, o vestido comprido, solto, a esvoaçar.

Tu olhas-me. Olhar vivo, brilhante, jovem, apesar da já não o seres. O nosso reencontro quando pinceladas de luz inundam de cor o horizonte. De tudo o que quero, és mais, és melhor. Recebes feliz as minhas mãos nas tuas, que são como vida, sombras frescas, antigas promessas, sílabas envolventes.

E eu? Apenas gente entre gentes...

Finjo estar serena. Com as minhas mãos entre as tuas, acalmo-me no tom verde, sombrio e fresco do arvoredo que faz parte da tua propriedade entre o mar e a serra. Abraças-me. Abraço-te. O  nosso silêncio de feliz reconhecimento. As aves falam em segredo sobre o universo e estranhas naves que sem medo exploram outros mundos.

Troca profunda de olhares entre nós. Pensamentos soltos, livres. De um ao outro. Felizes. Solícito no teu humilde desejo de me ver feliz, todo o teu cuidado é-me dado. Como te amo então! Naquele teu recanto de jardim sinto-me desaparecer face à tua humildade e atenção. Pelo menos, de mim para mim. 

Conduzes-me para dentro de casa. O meu sorriso envergonhado. As aves calam-se; já não falam sobre naves e mundos por descobrir. A nossa alegria inocente ressoa por outros mundos. Não há inicio nem fim naquela tarde de perdões e juras. Quando o tempo se faz nosso cúmplice.

E o finalmente acontece: embrenhados na tua sala cheia das tuas viagens mundo fora, dou-te o "Sim" que querias e que confirma sentimentos. E com o teu gin, brindamos ao nosso reencontro, com olhos húmidos e coração cheio de entrega.

ECOS

07.09.20 | Sandra

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Mexo pensativa o café à minha frente. Sinto sono, ainda é muito cedo. Silêncio solene e adormecido à minha volta. Na rua, sons ainda baixos e discretos: os pássaros que se cumprimentam, as primeiras pessoas que, focadas, se dirigem para os seus trabalhos, cães que farejam o mundo curiosos e alegres, um ou outro carro que segue na estrada longínqua e ainda deserta. É tão cedo!

A jovem madrugada veste-se de leves mas cerradas nuvens cinzentas que escondem todo o céu, nostálgicas, cheias de uma forte e brilhante luz prateada que me faz arder os olhos. Está já muito calor apesar da hora jovem. Ouve-se um avião a cruzar o céu, o som grave do motor a arrastar por cima da camada espessa de nuvens.

Lembro-me de ti. Bem vindo, tão bem vindo meu amor! A tua alma parece ecoar também, não só sobre um céu nublado mas em tudo aquilo que me cerca, dentro e fora de casa. Mas sei que não é assim. Sei que essa tua alma deliciosamente refinada apenas ecoa dentro de mim e para mim; sou eu quem, dona da tua verdade, projeta esses ecos em cada recanto da parte real da minha vida. Resignada, aceito-o. Eu sei, tu sabes que eu não sou alguém resignado, conformado. Quando a ação se torna urgente e necessária, com uma força sem explicação ou adversários, arregaço aa mangas e deito mãos à obra de tal forma que o mundo sacode-se, levanta-se e recomeça a sua marcha. E ai de quem! Afinal sou de Deus e tenho a minha fé...

Encontraste-me como ninguém. Conheceste-me como ninguém. Nem só de sonhos vive o Homem mas fizeste-me sonhar e conhecer novas esferas, outras belas e mais calmas possibilidades. Como só tu o poderias ter feito, sem haver nunca uma questão deste-me tudo o que de ti podias dar. Quanta honra, a minha! Nas profundezas mais secretas de quem sou gravaste o âmago do teu ser. As tuas palavras e os teus gestos hão-de perdurar sempre, em cada recanto de mim, eu por inteira: perdida em ti, achada em ti. 

O café ainda está quente. Bebo-o deliciada e comovida, como naquele dia, um dia, bebi deliciada as tuas palavras frágeis e imensas feitas confissão de amor, ao sabor de um café numa tarde de vento outonal.

EM UNIVERSO PEREGRINO

05.09.20 | Sandra

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Não é difícil encontrar-te. Quando a lua trocar um olhar com as ondas cristalinas na zona de rebentação, tu estarás lá, no alto do mundo. E eu, em porte altivo e frágil, olhar-te-ei. Crê, ser meu de luz, quando a noite se desnudar em universo peregrino, estaremos enfim face a face.

Pois chamaste-me e eu ouvi-te. Tua voz é somente o murmúrio leve da brisa esquecida na noite, quando ecoa o piar da coruja no alto das árvores antigas. Ouvi o teu apelo. Senti-o ansiosa no arrepio da pele nua beijada pelo calor.

Recebes-me. De novo, nós. A água lisa e cheia dos reflexos prateados de luar acaricia, como cálido cetim, as nossas almas salgadas. Só tu falas enquanto te pertenço, em sussuros de fino nevoeiro que contam histórias de velhos mundos onde foste rei. São histórias que entorpecem os sentidos e devoram a alma. Nelas, entre as tuas mãos como algas ao sabor da maré, renasço uma e outra vez como chama na noite. Não sei se respiro. Só vejo o céu acima de nós, no seu movimento vivo, lento, intenso de estrelas e cânticos xamânicos perdidos na passagem dos séculos. Deslumbro-me siderada em ti que és praia, mar, oceano. Toda eu sou matéria tua, brilhante fotão de luz, acolhedora de ecos teus que te escapam, ventre despido onde veleiro repousas.

A noite avança por galáxias distantes, perigosas, imensas. Mas na cálida praia onde me acolhes, ainda é serena a nossa maresia. Já sou mais tu e menos eu, entorpecida entrega na infinidade das horas que não existem e no Tempo que há-de ser. Na dança de ténues horizontes esquecidos, é a ti que leve me elevo, vapor de água de dormente, noturno mar de lua. Ao longe, um tambor ressoa no princípio do mundo enquanto no areal a fogueira ainda arde.



PRIMEIRO ENCONTRO

04.09.20 | Sandra

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A ti, que vieste do norte ao centro tropeçando na minha vida por amor à escrita e fotografia.

2008. Ligaste-me a avisar que estavas perto do meu local de trabalho e que ias buscar-me para tomarmos um café. Esse aviso-convite feito em cima da hora foi para eu não ter oportunidade de recusar, não foi? Não sabia o que esperar de ti nesse nosso primeiro encontro. Olhava ansiosa as horas (e o espelho) ciente de que a qualquer altura irias ligar para o meu telemóvel a avisar que já tinhas chegado ao estacionamento. E eu, com a minha calma aparente, sentar-me-ia no assento confortável do teu fabuloso carro para irmos a alta velocidade até aquela tasca tão acolhedora, diariamente frequentada por mim.

Tal e qual. O empregado, meu amigo, serviu-nos prontamente e com uma atenção genuína. Ainda não tínhamos terminado o café, já tu sacavas do teu iPhone pedindo de forma delicada se podias tirar-me uma foto. Perguntei-te se não tinhas amor à vida, mas dei permissão. Como ser capaz de te dizer um "Não"? O tempo para nós foi pouco, eu estava em horário de trabalho. Chegou para o café. Mas não para tudo o que queríamos conversar. Chegou para me fixares, entre o atrapalhado e o fascinado. Não para eu te dizer o quanto eu já gostava de ti.

Dizem que os olhos azuis são frios, dificilmente capazes de demonstrar afeto. Mesmo quando o sentem. Desde esse nosso primeiro encontro, passei a discordar com maior convicção dessa afirmação tão sem fundamento. O teu olhar, lindo como ele só, como tu, o homem mais lindo e charmoso que eu alguma vez viria a conhecer, mudou tudo a partir daí e até hoje. Deixei de me conhecer e, ao mesmo tempo, comecei enfim a conhecer-me. 

Na hora seguinte a teres ido embora, e após eu ter regressado ao meu local de trabalho, quando tudo me parecia ainda irreal, recebo um mail teu. De ti: o amigo, o amor, o viajante do mundo. De ti, palavras de rasgados elogios, de alma exposta, simpáticas declarações. Perguntavas no final quando podíamos estar juntos de novo e terminavas com o teu habitual: "1 Bj. GRANDE!"

Os meus receios quanto ao que terias pensado de mim nesse nosso primeiro encontro desvaneceram-se enfim. A verdade é que nunca por nunca tive que me esforçar por ser mais, para ser melhor, para que tu, homem, gostasses de mim, mulher.

A partir daquele dia algo mudou. Eu, a simples mulher, e tu, o homem charmoso, belo, de cabelo amoroso, olhos azuis perspicazes e ternos, que me tratava com um respeito, uma educação e uma meiguice que se tornavam comoventes. Todo tu tens em ti essas capacidades: humilde, ser capaz de pedir desculpa e ser, para comigo, muito cavalheiro! Entre tudo o que entre nós nasceu, destacava-se sempre como pano de fundo a cumplicidade inquestionável firmada entre nós. Foi o que ficou quando, após muitos e bons anos, tudo o resto foi. Antigo amor. Amor antigo, de outros tempos, outros loucos prazeres, ingénuos risos, feito agora amizade, respeito, admiração. E cumplicidade. 

A tua existência na minha vida mudou tudo. Mudou a minha visão sobre o dia cinzento, sobre o vento frio que soprava ou sobre as folhas secas caídas no chão, sobre o cansaço de um dia difícil. Esse é o poder do amor, daquele que começou em ti e espalhou-se em mim. E eu já não quis saber se um dia seria de novo inverno.

CICATRIZ

03.09.20 | Sandra

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Uma criança muito suja atira pedras a um cão.
O cão não foge.
Esquiva-se
E vem até junto da criança
Para lhe lamber o rosto.
Há, depois,
Um abraço apertado,
De compreensão
E de amizade.
E lado a lado,
Com a mãozinha muito suja no pescoço felpudo,
Lá vão, pela rua estreita,
Em direção ao sol.
(António Salvado, in "Cicatriz”)

 

Nota: Fica a simbologia do conto. Entre seres humanos passa-se o mesmo. Não certamente com pedras mas palavras ou atitudes face àqueles que jamais desistem de nós. A criança, essa, na sua revolta ou luta interior, não queria sinceramente afastar o cão. O cão, na sua sabedoria e força, pressentiu-o. E lutou contra a vã tentativa da criança em mantê-lo longe. Porque essa tentativa de afastamento era, no fundo, um apelo que murmurava um "Fica !". No fim, o amor vence. 

CHUVA

02.09.20 | Sandra

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Na tarde segurei a chávena de chá.

O céu escureceu.

Mexi distraída o açúcar.

Nuvens pesadas, cinzentas, encheram o firmamento.

Pensei em ti.

Um vento quente, agreste, soprou com força.

Tive saudades tuas.

O céu pareceu carregado de eletricidade.

Tinha que te ver, senti.

Um relâmpago ecoou com forte estrondo parecendo explodir o céu em mil pedaços.

Quis-te.

As nuvens rasgaram-se.

Fechei os olhos, abri os braços: e a chuva foi música no meu íntimo. Molhada por aquele aguaceiro que caiu com toda a intensidade, roupa colada ao corpo, descobri o que despertaras em mim: amor.

 

 

 

 

BRINDE

01.09.20 | Sandra

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À janela aproveito o ar fresco que o fim de tarde traz consigo. O céu apresenta-se com nuances aveludadas que vão do azul pálido ao roxo, passando pelo magenta e cor de laranja. Torna-se difícil perceber onde começa e acaba cada camada de cor que pinta o amplo horizonte. Aproxima-se o anoitecer gentilmente, cheio de sussurros. Mesmo por baixo da minha janela os pardais chiam, cada um escolhendo para si o melhor lugar para passar a noite. Aos poucos ficam mais silenciosos, mais sossegados.

Também eu estou mais sossegada nesta altura do dia. O silêncio, que se cola ao meu corpo como o perfume do banho que acabei de tomar, é apenas quebrado pelos sons dos melros e de uma ópera que vem de uma janela distante. Sento-me perto da janela aberta à praceta, com uma bebida fresca e um chocolate por companhia. Relembro, despreocupada e grata, o dia que foi. Há assuntos a resolver, preocupações que acompanham os vários momentos do dia, incertezas quanto ao amanhã. Não se podem esquecer nem relegar para segundo plano as responsabilidades.

Mas agora é altura de me dar a mim, de me olhar, ouvir, mimar. É o meu momento. Faz falta reconhecer as coisas boas que ainda existem, apesar dos "apesares". É preciso saber identificá-las, agradecer, entregar-se à beleza do que ainda possa existir. À nossa volta, dentro de nós. Respirar fundo, relaxar. Ergo o copo em direção ao céu bondoso de fim de dia, e brindo feliz: À vida, à fé, a nós! Tchim-tchim!

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