Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

31
Out20

LUZ LOIRA

Sandra

2667461_S.jpg

Renovo-me ao caminhar por extensos campos. Neles, sou todos os sonhos possíveis. E bebo, deliciada, a liberdade do ser e do estar - como se tudo o que menos bom há, não tivesse lugar em toda aquela vastidão.

Em tardes douradas de sol quente, no céu alto voam as aves. Rasgam o azul infinito, sem nuvens nem pressa. Na terra seca, pálida, ervas e flores selvagens libertam aromas próprios, que pairam intensos no ar à minha volta. Caminho por caminhos não traçados na hora adormecida do calor e perco-me para encontrar-me de novo. Em tempos idos, passeava já assim pelos campos, de alma leve e imensa, do tamanho da imensa extensão que me rodeava. A paz de outrora resistiu a estações e ciclos, e ainda hoje pressente-se nos campos, ao ondular das ervas secas numa dança acesa e sincronizada sob o beijo do vento que sopra.

No descanso das horas intermináveis, a poesia faz-se desejo, que se eleva à cadência dos sons do campo presentes em todo o lado e ao mesmo tempo: a secura das plantas, o chiar das aves, o zumbir dos insetos, o avião que rasga o firmamento alto deixando um traço branco, fino, cortante. E é envolta pelos sons, cheiros, tons do campo, que busco o que de ti tanto quero, ali, na luz loira.

30
Out20

AMOR NA MANHÃ

Sandra

3178759_S.jpg

 

Despe-se, a poesia,
em palavras de cálida luz,
pausada em livre manhã.
É cetim escorregadio,
macio,
doce o poema,
que desliza do corpo solto,
encantado,
aberto em rimas.
Sentimentos translúcidos
deitam-se na claridade
que embala vontades,
e afetos esfumam-se
em desígnios perdidos de sol.
No tranquilo conforto
da luz que cede certezas,
suspira a paz,
a certa segurança,
que esboça estrofes
de nobres sentimentos.

A luxúria pousa em delicado leito
criado numa folha de papel
virgem, imaculada,
intocada de letras, ideias.
Mimoso é o tempo
que no aconchego do amor pleno manda parar, ávido, 
segundos,
minutos,
horas.
E na serenidade imensa
que despeja desejos,
a liberdade entrega-se
a versos embriagados.
Soltam-se sílabas, diz que sim.

29
Out20

QUEIMAR HORAS

Sandra

 

candle-2038736_640.jpg

Dá-me a mão
enquanto a vela
nos abarca em poesia.
No silêncio da chama
que brilha, serena, 
olha-me nos olhos...
Diz baixinho,
o meu nome,
e fica ao meu lado
mesmo que só
por um instante!

Se puderes,
deixa as horas queimarem no fogo
e fica ainda, mais um pouco...

Desfia-me histórias,
aventuras, sonhos.
Leva-me pela mão
até ao lugar encantado
por onde andaste
para lá das altas montanhas
onde o gélido vento sopra
e onde as negras aves
gritam em bando no escuro céu
da noite imensa.
Mostra-me mundos, 
teus só, peregrino coração... 
Deixa-me ficar ao teu lado:
vamos criar um momento
que seja nosso, só nosso,
que nos aqueça
quando o sol hibernar
e a neve endurecer
o chão do caminho.
Deixa-me guardar
o teu sorrir
o teu toque, o teu beijo;
E depois, ama-me,
dá-me a mão
e fica.

27
Out20

DANÇA-ME

Sandra

2079964_S.jpg

Leva-me devagar a ti. A música começa agora, aproxima-me ao que és. Mão com mão, corpo com corpo, num silêncio solene, leve. A dança. Notas pautadas que nos movem quando já estamos subtraídos de pensamentos. Só sentimos. O nosso exterior evapora-se. Nem uma palavra, nem um gesto desnecessário. Apenas o embalo da música, a cadência dos movimentos, a presença íntima do outro, o calor dos corpos e da alma. Passos que não se fazem notar, deslizamos juntos mas ausentes do nosso redor. Só a música e a vontade que conosco desliza também. E o desejo...

Dança-me. Envolve-me mais. Mãos mais unidas, corpos mais perdidos um ao outro, rostos mais próximos. A música mantem-nos em movimento. Dança-me a alma, os sentidos, o mistério e as certezas. A música toca dentro de nós e já não sei se ainda dançamos. Sinto-te síncrone e só quero um beijo teu, completo, que faz a dança imortal. Beija-me.

26
Out20

DE NOVO

Sandra

4340042_M.jpg

Anos passaram. Invernos, verões, dias, noites. Agora, inesperadamente tu, de novo, chegado no embalo do dia fresco e do vento gentil. Secretamente desejo-o há muito, o teu retorno. Sou uma mulher de pressentimentos e raramente estes me enganam. Na chegada da manhã do meu aniversário pressenti esse teu regresso aos meus dias, passados tantos anos. Não um leve pressentir, como de outras vezes. Desta feita, foi um pressentimento forte, certo, intenso, surgido como uma imagem viva, uma certeza marcante. Cumpriu-se, exatamente no dia e da forma que eu tinha intuído uns momentos antes.

Outono em todo o seu esplendor e, sem cartas nas mangas, após tantos anos, cá estamos nós, de novo. Sem constrangimentos, sem entrelinhas. De novo, o teu mistério, a tua força, a tua alegria, a tua vida, a tua amizade. E a tua voz, que me cativa e solta. De novo, o bater forte do coração, o nervoso miudinho, o querer-te. O ver-te feliz enquanto soltas o teu bom humor e energia.

Sem o saberes, tens estado presente em tantas palavras minhas, tantas sílabas à solta! Nas entrelinhas, mantenho-te por perto ao longo de todo este tempo que passou por nós. Sempre defendi que as palavras têm um poder muito forte. Hoje, as palavras como que ganharam vida própria, transformando as suas meras letras em realidade inegavelmente sólida. Um evento surreal, inimaginável, longe de todas as probabilidades: ao fim de tantos e imensos anos, tu, de novo. Obrigada por nunca teres desistido de mim e por teres tentado.

25
Out20

FEMININA

Sandra

1510707_S.jpg

Flor, feminina minha... não haveria eu de reparar em ti, se no teu feminino esplendor, exibiste-te, sem receio, a mim? E eu vejo-te: encantadora, sobressais única entre flores outras que te rodeiam. Escolheste-me como sou. Aceito-te.

Seduz-me flor, que quero minha, provoca-me! Evoco-te bela nas minhas mãos que tanto te anseiam possuir. Quase provo em mim o teu exótico aroma, a tua atraente suavidade que procuro sentir. Como te desejo! Se fosse eu raio de sol, acariciava com meiguice demorada cada pétala tua. Se eu fosse vento, envolvia-te com o meu sopro num doce abraço de amor. Se eu fosse chuva, deslizava deliciada nesse teu corpo florido. Resta-me etéreo prazer comandado pela força do Tempo e do sol que desce na tarde que desmaia. 

Pudesse eu levar-te comigo feminina flor... pudesse eu ter-te sempre minha, flor, como a água escura e fria que te envolve! Mas és da vida, da natureza, do lago, do mundo. Feminina minha. Contemplar-te em desejo é o meu limite, nada agora mais além disso posso, depois de témula teres quase desfalecido em prazer nas mãos dos meus sentidos. Do lago és. Se pudesses dar-te a mim, se pudesses tu, flor, minha flor, ser de novo em mim, receber-te-ia em júbilo, flor de estórias. 

24
Out20

REGRESSO

Sandra

690233_S.jpg

A manhã desperta cálida, envolta numa luz frágil, branca e silenciosa. Tudo parece opaco nessa luz: o céu, o sol, as nuvens, a minha vontade. Está frio, enrolo ainda mais o meu corpo na manta quente que o cobre. Ao longe, forma-se subitamente uma camada de nevoeiro que acorda o farol, poderoso. Ouve-se o seu gemido num tom grave, intenso, arrastado e demorado, que ecoa por toda a costa. Sinto a tua falta, também ecoas em mim. Sei onde estás. Nessa praia que se tornou um pedaço teu, ouvindo o desabafo do farol unir-se ao nostálgico lamento das gaivotas arrepiadas na areia gélida. Tu, as tuas cigarrilhas e esse teu semblante disfarçando um espírito imparável, irónico, perpicaz, mordaz e incrivelmente humano. Como me apetece tanto abraçar-te! Sei que te acalma olhar o mar quando ele está liso, sem a mínima vibração. Hoje o mar dá-se assim a ti: maré suspensa, onde um barco de pesca isolado boia não muito longe. Folhas, gaivotas, um pedaço de madeira, boiam também na superfície hipnotizante da água parada. E hipnotizas-me tu, que chegas até à minha mente no inesperado do nevoeiro, trazendo memórias. Ainda falta algo entre nós e esse algo há-de chegar, o fim de um ciclo que será o começo de outro. Eu sei que me levarás a essa praia que é como tua. E será, nesses instantes, nossa.

23
Out20

ANIVERSÁRIO

Sandra

1117932_S_1603285673688.jpg

 

Hoje brindo. Brindo à vida, ao estar aqui, ao ter o que tenho e, que sendo tão pouco, é tanto ainda. Brindo a quem sou, com noção de quem fui e de quem poderei vir a ser: hoje, melhor que ontem; e amanhã, melhor que hoje. Brindo às minhas vivências que sempre me trouxeram aprendizagens. Brindo aos meus passos dados, falhas e cansaços, risos e conquistas que me mostram que é preciso seguir sempre. Brindo ao conhecimento adquirido e a todas as grandiosas descobertas que ainda esperam por mim. Brindo aos sons do mundo e aos silêncios do universo, este fascinante e enigmático lugar que me apaixona sempre! Brindo aos bons sentimentos, à esperança, à fé no meu Deus, ao perdão e à gratidão, ao deslumbre! Faz falta o deslumbrar-se com as maravilhas que ainda possam existir, por mais simples que sejam afinal. Brindo a todas as pessoas que têm feito parte da minha caminhada, e às que tiveram, ou têm, o papel mais importante ao longo dos meus 45 anos de vida, que celebro exatamente hoje: o papel de serem a minha fundação, o meu pilar e a minha essência. E brindo a ti, que agora, também, fazes parte de mim, da minha vida: estás lá! Tchim-tchim!

22
Out20

DE TODOS

Sandra

 

3755884_S.jpg

Não é meu, o caminho. É de gentes, ruas, casas, memórias. Mas nele demoro os meus passos. Na calma contemplação, ladeada pela cal brilhante dos muros, respiro a fé que pelo caminho passeia-se comigo. Piso as pedras do chão que, com o tempo do seu lado, ecoam crenças e rezas que chegam de todas as esquinas. Não me apresso; sigo leve, passo a passo, confiando orações dispersas. Árvores, gatos, pessoas, pardais. De todos é o caminho que verga paisagens, sons, ideais, superstições. As pedras, donas de pensamentos alheios deixados cair dos bolsos dos sonhos, são como procura de um regresso constante à inocência. À sua maneira, entendem-se em gratidão com a chuva mansa ou adormecem felizes sob um sol enamorado. É o caminho, um caminho solto em auroras ou crepúsculos, um caminho não meu mas de todos.

21
Out20

HORA DO REPOUSO

Sandra

lights-1283073_1920.jpg

 

A tarde vai avançada, tempo de abrandar. Sento-me nas horas do descanso que embalam a imaginação desperta em mim. Chove. A chuva também me molha pensamentos, abstrações, sentimentos e rascunhos. Brotam desejos da alma e asas voam de sonhos meus como pautas ao vento. Mas é tempo de repouso agora. Antigas vozes de profetas soltam notas de poemas amestrados feitos a música que ouço: são gentis memórias que sobem na chuva incansável que desce. Os minutos prosseguem a sua jornada como uma sincronizada dança de salão. Está mais escuro, o céu. Mais claros, os meus sentidos. Deito-me serena no antecipado crepúsculo feito de sorrisos amados que adoçam neblinas do dia que passou. Devagar, a noite cai; cai também ainda a chuva de brandos céus. Tantas pegadas de nada que ficam em silhuetas que se derramam à minha volta! São árvores, são gentes, são gestos e envolvências. Tudo se torna discreto, quase ausente, na penumbra envolvente. O vento já não sopra. Noite escura, enfim. Somos nós, agora, tu e eu. A chuva deixou marcas: vontades, quereres, desejos, sonhos. Elevo-me ao espaço que nos separa mas que nos aproxima também e já te absorvo em mim: penso-te, imagino-te, pensamentos tão só meus. E nesses mesmos secretos pensamentos, trago-te a mim. Ficas comigo?

 

Pág. 1/3

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D