Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Sílabas à Solta

Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria | Fotos retiradas da internet

Sílabas à Solta

Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria | Fotos retiradas da internet

LUZ DOURADA

31.10.20 | Sandra

px-downloadg1031efb7e1f7a1d415b48945b40403710085f0

Renovo-me ao caminhar por extensos campos. Neles, sou todos os sonhos possíveis. E bebo, deliciada, a liberdade do ser e do estar - como se tudo o que menos bom há, não tivesse lugar em toda aquela vastidão.

Em tardes douradas de sol quente, no céu alto voam as aves. Rasgam o azul infinito, sem nuvens nem pressa. Na terra seca, pálida, ervas e flores selvagens libertam aromas próprios, que pairam intensos no ar à minha volta. Caminho por caminhos não traçados na hora adormecida do calor e perco-me para encontrar-me de novo. Em tempos idos, passeava já assim pelos campos, de alma leve e imensa, do tamanho da imensa extensão que me rodeava. A paz de outrora resistiu a estações e ciclos, e ainda hoje pressente-se nos campos, ao ondular das ervas secas numa dança acesa e sincronizada sob o beijo do vento que sopra.

No descanso das horas intermináveis, a poesia faz-se desejo, que se eleva à cadência dos sons do campo presentes em todo o lado e ao mesmo tempo: a secura das plantas, o chiar das aves, o zumbir dos insetos, o avião que rasga o firmamento alto deixando um traço branco, fino, cortante. E é envolta pelos sons, cheiros, tons do campo, que busco o que de ti tanto quero, ali, na luz loira.

AMOR NA MANHÃ

30.10.20 | Sandra

3178759_S.jpg

Despe-se, a poesia,
em palavras de cálida luz,
pausada em livre manhã.
É cetim escorregadio,
macio,
doce o poema,
que desliza do corpo solto,
encantado,
aberto em rimas.
Sentimentos translúcidos
deitam-se na claridade
que embala vontades,
e afetos esfumam-se
em desígnios perdidos de sol.
No tranquilo conforto
da luz que cede certezas,
suspira a paz,
a certa segurança,
que esboça estrofes
de nobres sentimentos.

A luxúria pousa em delicado leito
criado numa folha de papel
virgem, imaculada,
intocada de letras, ideias.
Mimoso é o tempo
que no aconchego do amor pleno manda parar, ávido, 
segundos,
minutos,
horas.
E na serenidade imensa
que despeja desejos,
a liberdade entrega-se
a versos embriagados.
Soltam-se sílabas: diz que sim!

QUEIMAR HORAS

29.10.20 | Sandra

 

candle-2038736_640.jpg

Dá-me a mão
enquanto a vela
nos abarca em poesia.
No silêncio da chama
que brilha, serena, 
olha-me nos olhos...
Diz baixinho,
o meu nome,
e fica ao meu lado
mesmo que só
por um instante!

Se puderes,
deixa as horas queimarem no fogo
e fica ainda, mais um pouco...

Desfia-me histórias,
aventuras, sonhos.
Leva-me pela mão
até ao lugar encantado
por onde andaste
para lá das altas montanhas
onde o gélido vento sopra
e onde as negras aves
gritam em bando no escuro céu
da noite imensa.
Mostra-me mundos, 
teus só, peregrino coração... 
Deixa-me ficar ao teu lado:
vamos criar um momento
que seja nosso, só nosso,
que nos aqueça
quando o sol hibernar
e a neve endurecer
o chão do caminho.
Deixa-me guardar
o teu sorrir
o teu toque, o teu beijo;
E depois, ama-me,
dá-me a mão
e fica, vagabundo em mim.

DANÇA-ME

27.10.20 | Sandra

2079964_S.jpg

Leva-me devagar a ti. A música começa agora, aproxima-me ao que és. Mão com mão, corpo com corpo, num silêncio solene, leve. A dança. Notas pautadas que nos movem quando já estamos subtraídos de pensamentos. Só sentimos. O nosso exterior evapora-se. Nem uma palavra, nem um gesto desnecessário. Apenas o embalo da música, a cadência dos movimentos, a presença íntima do outro, o calor dos corpos e da alma que vibra. Passos que não se fazem notar, deslizamos juntos mas ausentes do nosso redor. Só a música e a vontade que connosco desliza também. E o desejo...

Dança-me. Envolve-me mais. Mãos mais unidas, corpos mais perdidos um ao outro, rostos mais próximos. A música mantem-nos em movimento. Dança-me a alma, os sentidos, o mistério e as certezas. A música toca dentro de nós e já não sei se ainda dançamos. Sinto-te síncrono e só quero um beijo teu, completo, que faz a dança imortal. Beija-me.

FEMININA FLOR

25.10.20 | Sandra

1510707_S.jpg

Exibe-se a flor, feminina, intensa, bela, poderosa. Mística. Entre todas as outras que a rodeiam, escolheu ser nenúfar e mostra-se ainda mais à lagoa, às outras flores que a cercam, faz-se notar na sua luxúria que sobressai. A todos seduz, provoca, numa sensualidade exótica de cor macia, que apetece tocar. Evoca as carícias do sol em cada pétala sua, anseia o abraço que o vento lhe há-de dar nas horas quentes da tarde, prova delicada o deslizar da chuva no seu corpo florido, à espera.

Nenúfar. Da lagoa és, mas quantos desejaram já arrancar-te à frescura das águas que te acolhem, tocar-te, feminina flor, acariciar as tuas pétalas perfeitas. Definharias, certamente! Feminina flor, aceito-te como és, e deixo-te aos vagares do tempo e das libélulas que te cercam. Elas também te amam.

REGRESSO

24.10.20 | Sandra

690233_S.jpg

A manhã desperta cálida, envolta numa luz frágil, branca e silenciosa. Tudo parece opaco nessa luz: o céu, o sol, as nuvens, a minha vontade. Está frio, enrolo ainda mais o meu corpo na manta quente que o cobre. Ao longe, forma-se subitamente uma camada de nevoeiro que acorda o farol, poderoso. Ouve-se o seu gemido num tom grave, intenso, arrastado e demorado, que ecoa por toda a costa. Sinto a tua falta, também ecoas em mim. Sei onde estás. Nessa praia que se tornou um pedaço teu, ouvindo o desabafo do farol unir-se ao nostálgico lamento das gaivotas arrepiadas na areia gélida. Tu, e esse teu semblante disfarçando um espírito imparável, irónico, perspicaz, mordaz e incrivelmente humano. Como me apetece tanto abraçar-te! Sei que te acalma olhar o mar quando ele está liso, sem a mínima vibração. Hoje o mar dá-se assim a ti: maré suspensa, onde um barco de pesca isolado boia não muito longe. Folhas, gaivotas, um pedaço de madeira, boiam também na superfície hipnotizante da água parada. E hipnotizas-me tu, que chegas até à minha mente no inesperado do nevoeiro, trazendo memórias. Ainda falta algo entre nós e esse algo há-de chegar, o fim de um ciclo que será o começo de outro. Eu sei que me levarás a essa praia que é como tua. E será, nesses instantes, nossa.

ANIVERSÁRIO

23.10.20 | Sandra

1117932_S_1603285673688.jpg

Hoje brindo. Brindo à vida, ao estar aqui, ao ter o que tenho e, que sendo tão pouco, é tanto ainda. Brindo a quem sou, com noção de quem fui e de quem poderei vir a ser: hoje, melhor que ontem; e amanhã, melhor que hoje. Brindo às minhas vivências que sempre me trouxeram alguma aprendizagem. Brindo aos meus passos dados, falhas e cansaços, risos e conquistas que me mostram que é preciso seguir sempre. Brindo ao conhecimento adquirido e a todas as grandiosas descobertas que ainda esperam por mim. Brindo aos sons do mundo e aos silêncios do universo, este fascinante e enigmático lugar que me apaixona tanto! Brindo aos bons sentimentos, à esperança, à fé no meu Deus, à minha família, ao perdão e à gratidão, ao espanto, ao deslumbre! Faz falta o deslumbrar-se com as maravilhas que ainda possam existir, por mais simples que sejam. Brindo a todas as pessoas que têm feito parte da minha caminhada, e às que tiveram, ou têm, o papel mais importante ao longo dos meus 45 anos de vida, que celebro exatamente hoje: o papel de serem a minha fundação, o meu pilar e a minha essência; o papel difícil de me aturarem e serem fortes, curando os seus corações gigantes e, ao mesmo tempo, pequeninos. Se eu tiver direito a uma prenda especial, peço a Deus que seja o bem estar, a todos os níveis, do meu pai, da minha mãe e do meu filho (pode ser, meu Deus? Vá lá, por favor!).

E brindo a ti, que agora, também, fazes parte de mim, da minha vida: estás lá! E agora... festa! Tchim-tchim!

DE TODOS

22.10.20 | Sandra

 

3755884_S.jpg

Não é meu, o caminho. É de gentes, ruas, casas, memórias. Mas nele demoro os meus passos. Na calma contemplação, ladeada pela cal brilhante dos muros, respiro a fé que pelo caminho passeia-se comigo. Piso as pedras do chão que, com o tempo do seu lado, ecoam crenças e rezas que chegam de todas as esquinas. Não me apresso; sigo leve, passo a passo, confiando orações dispersas. Árvores, gatos, pessoas, pardais. De todos é o caminho que verga paisagens, sons, ideais, superstições. As pedras, donas de pensamentos alheios deixados cair dos bolsos dos sonhos, são como uma constante procura de um regresso à inocência. À sua maneira, entendem-se em gratidão com a chuva mansa ou adormecem felizes sob um sol enamorado. É o caminho, um caminho solto em auroras ou crepúsculos, um caminho não meu mas de todos.

HORA DO REPOUSO

21.10.20 | Sandra

lights-1283073_1920.jpg

A tarde vai avançada, tempo de abrandar. Sento-me nas horas do descanso que embalam a imaginação desperta em mim. Chove. A chuva também me molha pensamentos, abstrações, sentimentos e rascunhos. Brotam desejos da alma e asas voam de sonhos meus como pautas ao vento. Mas é tempo de repouso agora. Antigas vozes de profetas soltam notas de poemas amestrados feitos a música que ouço: são gentis memórias que sobem na chuva incansável que desce. Os minutos prosseguem a sua jornada como uma sincronizada dança de salão. Está mais escuro, o céu. Mais claros, os meus sentidos. Deito-me serena no antecipado crepúsculo feito de sorrisos amados que adoçam neblinas do dia que passou. Devagar, a noite cai; cai também ainda a chuva de brandos céus. Tantas pegadas de nada que ficam em silhuetas que se derramam à minha volta! São árvores, são gentes, são gestos e envolvências. Tudo se torna discreto, quase ausente, na penumbra envolvente. O vento já não sopra. Noite escura, enfim. Somos nós, agora, tu e eu. A chuva deixou marcas: vontades, quereres, desejos, sonhos. Elevo-me ao espaço que nos separa mas que nos aproxima também, e já te absorvo em mim: penso-te, imagino-te, pensamentos tão só meus. E nesses mesmos secretos pensamentos, trago-te a mim. Ficas comigo?

 

MÃO À NOITE

20.10.20 | Sandra

20200921_183214_1603059409966.jpg

Dá-me a tua mão. Deixa-me levar-te lá fora onde a noite se mostra. No horizonte, uma lua cheia sobe magnífica no céu de seda. Uma brisa morna sopra alto para lá dos cumes das serras embaladas na imensidão, onde as aves dormem das horas passadas. As águas do riacho repousam frescas e brilhantes sob um luar imenso que ilumina o silêncio escuro dos cantos, campos, casas, ruas, pontes. Há tanto que queria dizer-te... deixa-me falar-te baixinho de tudo e de nada.

Lua cheia. O Tempo mistura-se insondável. Ontem e hoje, como dois amantes deitados em praias adormecidas onde o relógio do Mundo parou. Esta é a hora plena em que barreiras tombam e a condição humana cede. Somos da natureza, tu e eu, arrastando sentimentos vindos de tempos primordiais até este exato momento. E a vida pulsa lá fora, para lá de nós dois, onde novos mundos são criados e os deuses nunca dormem.

Na noite, a lua reflete antigas, misteriosas civilizações, enquanto pressente novas eras que ainda não chegaram pois pertencem a futuros longínquos dominados pela ciência e tecnologia. E tu, último dos últimos!

Chega-te um pouco mais perto. Se me pudesses abraçar! Escuta, há tantos sons na noite, e a todos eles a lua brinda! O mocho escondido nos ramos altos do pinheiro fala-nos de um universo por descobrir e eu olho-te impávida, serena, segura, certa das minhas certezas e incertezas que guardo no escuro. A noite apodera-se de tudo e no segredo das sombras que se alongam pelas horas que avançam, só te peço: dá-me a mão. 

Pág. 1/3