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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

SEM NEXO

10.10.20 | Sandra

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És um vago sentido, um mergulho sem nexo. És tudo aquilo que negava mas quero. Que até hoje afastava de mim, mas anseio. Não estás perto nem longe. Somente estás e eu sinto. Essa é a lógica: ausente, presente. E quem sem nexo mergulha, sou eu. Mergulho no que és, caminhos inquestionáveis que busco sempre sem ter como querer escapar, o meu cabelo em desalinho preso em dedos ávidos teus. Mergulho em devaneios onde não mando nos teus desejos, onde não questiono a tua boca, onde não conduzo as tuas mãos desenfreadas na busca de quem sou, que sou afinal para ti. Mergulho na ânsia das nossas palavras soltas à pressa e deixadas cair sem ordem no chão do tempo que permanece nosso. Apenas mergulho, sempre sem nexo, nesse teu vago sentido que sozinha arrasto a mim na hora em que o meu desejo cede. A imaginação é abstrata e sempre teima em unir-nos quando primitivas forças imperam em cumes longínquos onde a poesia ascende. Em todos os termos, era como se fossemos um só. Este mergulho é sem nexo, e por tanto, por tudo, já vale a pena.

DESEJO-TE

09.10.20 | Sandra

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A cor é tua. A nostalgia, minha. Esta é a altura certa. Aquela em que nos dias mais curtos a saudade passeia-se nos parques pintados de sol morno. Quando a pálida luz da tarde é aconchego quente nos ombros, e nos bancos frios sentam-se interrogações que evaporam-se dos sonhos teus. Pela relva arrepiada, onde os pombos pisam afazeres, tu passeias um sentimento novo que ainda não desfiaste. O céu pálido provoca-te peso nas dúvidas que vestes. E não tens a certeza se sim, se não. Junto ao lago, atiras pedaços de memórias à água e círculos divergem devagar na superfície parecendo-te sussurrar o intemporal. E no parque, entre os dourados de esperanças e os prateados dos passos que os dias dão, estás tu, luxuosas cores de outono que me seduzem em fogo até ao âmago das minhas certezas. Desejo-te.

CONTEMPLATIVO

08.10.20 | Sandra

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Adivinho-te nessa chuva miudinha caída do nevoeiro que te trespassa. Ao olhar para ti, o rio pergunta-se o porquê de ali permaneceres há tanto tempo. As gaivotas roucas já partiram, o farol já se calou, os barcos são agora apenas formas fantasmagóricas. Olhas para lá da linha do intransponível. Não ouves os poucos pássaros que nos ramos se esquecem do frio e rasgam distâncias a piar chamando por ti. Também não ouves o tinir da ondulação quase inexistente contra a pedra molhada do pontão. O teu pensamento vai mais longe que a distância percorrida pelo Homem neste universo que nos acolhe. Todo o teu foco já arrancou raízes, chicoteou ramos no ar e fez folhas voarem em todas as direções. E tu nem te mexeste. As horas surgem atrás de ti, encostam-se às tuas vestes molhadas e pousam a mão no teu ombro. Nem dás por elas. À tua volta, tudo parece suspenso, estático, e tu és parte síncrona desse meio. Na tua longa introspeção a névoa dissipa-se, a chuva miudinha deixa de cair, as pedras secam, as aves rodopiam e o rio, isento de ti, canta. Também tu despertas desse estado contemplativo pois a primavera abraça-te pela cintura e amas outra vez com todo o calor do verão. 

ARMADILHA AO TEMPO

07.10.20 | Sandra

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Eu sei que és fera
que há muito me ronda!
Círculos cerrados
que se fecham devagar,
no silêncio escondido
em escuro recanto.
Pressinto-te perto...
Passos cautelosos,
respiração pausada,
olhar focado em mim.
Sem distrações ou desvelos,
sem movimentos em falso,
sem gestos desnecessários.
Rondas-me sempre,
pé ante pé,
em circulos perfeitos
à espera da hora!
És perigo certo,
discreto,
entre a tua lua cúmplice
(que te encobre os gestos)
e eu fraca, desamparada.
Sinto-te, sem te ver
Escuto-te, sem te encontrar
Cheiro-te, sem te vislumbrar
E eu desarmada...
O meu corpo gira rápido
perscrutando sombras
que me parecem suspeitas.
O medo, meu dono...
Eu ali sozinha,
indefesa,
respiração ofegante,
sem ter como escapar,
sem me poder esconder...

Porque não posso? Porque eu não quero!

Ingenuidade a tua...
Pobre de ti, perigosa fera,
descuido tão grande o teu!
Tanto zelo para nada!
Estás perdido
desde o primeiro início!
O jogo não é esse...
a tua caçada falhou!
Porque a presa és só tu
e sou eu quem te caça.
Caíste na armadilha!

DESAFIO

06.10.20 | Sandra

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Estende-me aberta, a mão,
entrega-me de ti palavras
que escorrem finas
de dedos esguios, esses teus!
Apanho-as ávida de letras,
sorvo-lhes o sentimento
que me inunda a alma!
Quero palavras!

Como trovão que rasga céus
no macio escuro da noite
rendo-me em escrita crua de mim,
essência despida de entrelinhas!
Sou Mulher, afinal...
onde prosa e poesia
são eternos amantes em
madrugadas longínquas.
Como chuva das monções
deixo cair de mim
Sílabas à Solta:
o rugir dos sentidos
espalhados em papel
que o vento do sul
há-de levar adiante.
Se houver quem capture
papel cru, esse, 
feito palavras despidas de mim,
que sejas tu,
que me rasgues toda a alma,
afagues palavras sentidas,
proves letras caídas,
despojos de guerras
travadas em velhos mundos.
Quero palavras,
sílabas tuas que, como fera, devoro,
casa tua, como minha,
jogo de espelhos onde te procuro,
frases em tempestuosas ondas
que na borda do papel morrem.
Palavras em rodopio no ar:
apanho-as todas de ti,
dessas tuas mãos que me prendem:
escondo-as em mim, palavras tuas.
Entrelaça esses dedos teus
nos meus
e leva-me por letras tuas
às Artimanhas do Diabo
que resgatam almas perdidas...

 

(Nota: resposta a um desafio)

 

VIAJANTE DO MUNDO

04.10.20 | Sandra

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Ao viajante do mundo.

Em braços teus de luz
onde chuva fina dança
entorno-te tórrida a alma
de horas transparentes.
Descobre-me
em dedos peregrinos
ousadia esquiva
sentimentos de renda e cetim
da noite que chega jovem.
Molham-me a alma
cânticos de aves noturnas
que nos seguem pegadas
por notívagas esquinas vazias.
Candeeiros de rua mandam calar
passeios, estradas, telhados:
chuva etérea vai desfilar,
leva no peito o peso
de palavras fecundas não ditas.
Passa o tempo também!
Sobra a noite exilada,
reflexos distorcidos
na poça ondulante.
Tombada de ténue céu
a madrugada vagabunda chega:
Apago a luz.
Partes tu, fico eu...

 

 

COISAS DE GATO

03.10.20 | Sandra

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O dia há muito que findou. A casa está adormecida na noite alta. Na hora tardia, o gato persegue silencioso ideias vagabundas por corredores longos e mal iluminados. O felpudo dos tapetes abafa qualquer som que as suas patinhas possam fazer. É um gato comum, não é famoso nem vaidoso. Já acumulou vasta dose de vivências e histórias, tem agora idade para roupão, cigarrilha e gin. O gato para, olha a parede, estático. Sentido de alerta. Tranquiliza-se dos seus pressentimentos e entra na grande e escura divisão de soalho velho de madeira envernizada.
Seguindo o habitual, senta-se fofo no parapeito de madeira cheio de marcas e desenhos gravados ali por algum canivete. Permanece nesse recanto até acolher a manhã nos seus bigodes altivos. Está onde quer, deitado na janela devassa - e naquela janela critica quem passa. Mas hoje o gato tem um olhar diferente. Não liga a carros nem a gente, nem aos pardais farfalhudos que saltitam entre a erva orvalhada.
O gato medita! Sabe que a política vai mal, como tudo aliás. De olhar cerrado arma-se em doutor: Faz da janela, assembleia, finge um semblante sinistro, e na sua triste ideia, é ministro que defende medidas e orçamentos! Acalmado do seu longo debate a um só miar, deita-se cansado e pesado no parapeito quente, a torrar com o sol da tarde que entra pelo vidro da janela. Medita de novo, o gato felpudo! Avalia dores e amores, penhora receitas, elabora teorias da conspiração e critica literatura, tece duros julgamentos à sociedade: "Nada vale! Nada presta! Nada serve! Diabólico mundo, este!"
Está louco, o gato!

Mas inevitavelmente a noite vem! O gato cansa-se enfim da janela. Folha de jornal debaixo do braço, troca a loucura da vida pela sua condição de patudo, e recolhe-se à sua manta velha, sensata e querida. Aconchega-se, e a ronronar pieguices adormece feliz!

O RENDER DA ALMA

02.10.20 | Sandra

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Em fugitiva tarde no discreto frio da estação, chamas crepitantes tingem com reflexos dourados o gentil calor que nos abraça. No rosto meu a tua mão entregue sem tempo, como fagulhas clandestinas que dançam soltas no ar. Palavras caladas, intuídas, fluem leves nos teus dedos que sem pressa navegam pelas ondas vagas que o meu cabelo oferece. O brinde cúmplice aguarda impaciente que todo um nosso abraço se aparte enfim, satisfeito, quase mudo no desejo que despe aquelas nossas confissões ainda lacradas. Fogo e vinho são formas abstratas do primeiro, imenso beijo, que os nossos lábios selam. Desvanece-se, louco, o brinde; desfalecem as douradas chamas. A celebração é agora toda em nós quando os nossos corpos peregrinos são já pertença das nossas mãos ternas e ávidas, que pela nossa pele circulam despejando mimos sem rumo na noite feita, já chegada.

 

QUERO-TE EM VERSO

01.10.20 | Sandra

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Se lua cheia te adivinho
em ténue, agreste noite
de estrelas despida,
acolho no colo quente
luz prateada que derramas
e que atira ao chão
versos sem tempo,
poesia calada.

Recebo-te em silêncio fechado,
luz pálida de calor macho
que do vento siroco sopra
palavras duras em rimas
sobre pele crua embriagante.
És todas as fases da lua...

Feitiço que percorre caminhos
em universos, corpo meu.
Rasga palavras de marés vivas 
em noite escura, derrapante...
Sobe no céu a lua acesa
Desce em mim sombra deserta
folha virgem de papel sem cor...
Noite altiva como furioso mar,
quero-te em verso vagabundo.

São Artimanhas do Diabo, que Deus é grande!

(Nota: é dada uma continuidade a este poema em Artimanhas do Diabo, de Etan Cohen).

 

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