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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

SER MAIS

29.12.20 | Sandra

5637622_S.jpgNada me encanta mais do que aquilo que eu sinto quando após o cinzento dos dias brilha a luz do sol. Algo maior que eu, que todos nós, lembra-me que ainda é possível acreditar, que o sonhar nem sempre é em vão e que temos direito a sermos nós mesmos, com tudo o que de bom e menos bom nos caracteriza enquanto espécie humana. Há dias assim, em que a força sai para fora de nós e eleva-nos a outros patamares. Em que algo no nosso íntimo sussurra que vale a pena rir, fazer mais, ser mais. Viver mais. Ver mais longe e ter fé em que tudo vai correr bem. Nesses dias de sol quero ser maior que o bem que há por aí, mais luz, mais calor, mais abraço.

Um dia destes, numa tarde de sol, sentei-me no banco do jardim, aquele onde sempre vou. O vento arrepiou-me. Cheguei-me ao sol, e ao vislumbrar, distraída, as folhas leves dos plátanos, decidi que era tempo. Tempo de eu ser o meu próprio tempo. Tempo de deixar de andar atrás de algo que não é retribuído, tempo de deixar de ser eu a ter a iniciativa e esforçar-me sozinha, tempo de voltar a saltitar leve entre as minhas convicções. Atirei tudo ao alto e deixei-me ficar ali, conquistada pelo sol risonho nas folhas dos plátanos. Afinal já tinha quase tudo o que precisava, e o que faltava, era comigo e com Deus.

NOITE SÓBRIA

26.12.20 | Sandra

 

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Chamaste-me na noite sóbria quando a brisa calava mundos dentro de nós. O Universo aproximou-se silencioso, deitou-se luminoso em nosso redor, cedendo-nos clarões de imensas estrelas que seriam nossas. No nada, gerou-se tudo, quando sentados no espaço sem caos respiramos as águas macias que nos murmuravam salgados reflexos.

Sentados rendidos à maciez do luar sem idade, a tua mão quente envolveu a minha e, no Universo em silêncio, tudo entre nós foi dito. E o mundo brilhou! Acolheste-me ao teu intemporal abraço. Com o brilho da luz da noite afagaste-me tristezas e sorrisos. Murmuraste "Amor meu" e falaste-me de sonhos distantes, palavras colossais, do mistério que és tu. Amei-te muito, amei-te então ainda mais! Nos beijos que como confissões demos, a noite recebeu-nos nos seus quentes silêncios negros, que vêm de distâncias abissais e se colam, pois fomos, tu e eu, de novo, noite também.

CAPRICHOSOS VEIOS

23.12.20 | Sandra

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Brinco contigo
em jogos de luz-sombra,
contraluz absortos.
Demoro-te
a minha atenção, crua, agora,
como que ávida, perdida, desejosa
da tua complexa transparência...
No básico que tu és
vejo toda a subtileza
de um requinte dos Deuses,
uma perene essência...

... que me rapta vontades!
E só quero olhar-te, tocar-te...
Atrai-me a delicadeza
em leve desejo
da tua intensidade feita cor,
visão translúcida,
mistura de sabor,
perfume, contemplação!
Vejo-te como luxo:
um verão que frutifica
em caprichosos veios.
Provo-te.

ABERTO MISTÉRIO

21.12.20 | Sandra

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Em cruas noites, naquele antigo clube de boémias gentes e velhos hábitos, o tempo faz-se sempre novo e eu sou cada vez mais eu, alma pura a descoberto! Em mesas cheias, pousam os fumos, cheiros, gargalhadas, olhares indiscretos! À fraca luz, és o som que pousa na minha pele, em subtilezas que me provocam. Foi sempre assim...

Sorrio-te, sentada à mesa... sorriso discreto, maroto, na direção de promessas ditadas vindas de acordes esses, os teus! Tocas-me de longe, dono do palco, olhos fixos na certeza de que a música é só o nosso princípio... e o de tantos clientes assíduos que ali esquecem horas. Cedo aos caprichos teus, embalo lentamente o corpo na cadência da música que me devolves como beijos que se trocam!

E quando o ar se adensa sob o colorido das luzes, na loucura das notas que caem no frenesim, já o desejo consome, já o jazz tudo arrebata. Nada de novo, para aquelas velhas paredes. O desfecho é já por demais conhecido: o tempo irá vadiar pelas esquinas perdidas, o café ficará vazio de tanto e de tudo, as portas fechar-se-ão. E lá fora, os plátanos continuarão o seu doce dormir no nevoeiro que os veste, alheios ao amor que se cumpre em portas fechadas, quando a noite é ainda aberto mistério.

ENIGMA CALADO

19.12.20 | Sandra

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E finalmente,
de novo tu, manhã!
Cálida, silenciosa,
imensa,
toda tu, inteira... 
beija-me, fresca,
minha amante luz!
Do outro lado da noite
o enigma calado,
a incerteza que é o sono,
um nada que tudo abate,
mas agora tu, manhã plena! 
Afaga-me em doces nuvens,
secretos meus, em ti.
E até o orvalho ousa
pulsar no supremo aroma
de abraços vincados 
que ao vento flutuam... 

E o sorriso entrega-se, descuidado e sem pudores, todo ele, ao Sol, no meu corpo que se oferece...

Guardo no desejo  
pontos de interrogação
que nascem de abismos,
e dispo a alma minha
solto-a nua, a ti que chegas,
que tu vesti-la-ás
de saudade feita amor
que me preenche
desde o início dos inícios.

A DOIS PASSOS lll

18.12.20 | Sandra

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 Trabalho em co-autoria com O Eremita. Texto anterior em:

https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/a-dois-passos-parte-l-continuacao-65003?tc=58297679734

 

Começou. Limpou todo o terreno, já com a ajuda do filho mais velho. Lixo, mais lixo, tudo fora. Aquele terreno estava sem ser mexido desde o último dia em que a sua mulher lá trabalhou. As coisas que ela tinha estavam arrumadas no mesmo local que ele sempre conhecera e por lá se iriam manter após o trabalho. Um santuário era o que era, a dois passos da mulher. Assim pretendia continuar, a tratar da terra, do santuário. Meteu as mãos calejadas pela vida do mar no cabo da enxada e a primeira machada foi como uma libertação, uma fusão de raiva e contentamento: tinha encontrado a sua alma a dois passos de tudo.
O filho, a seu lado, ajudava-o. Rapaz forte, trabalhador e lutador, como o pai sempre o foi e a mãe o cultivou.
Os dois sozinhos, assim, na terra, sentiam-se bem desbravando aquelas entranhas que a mãe tinha deixado secar com a sua ausência deste mundo.
Era uma pessoa conhecida, popular, nascida e criada no meio agrícola, filha da Pederneira, que sempre resistiu às tentações de uma praia cheia de gente, como se corresse ouro pela areia. Manteve-se ali, junto à sua terra até ao último dia em que as forças a deixaram cravar uma enxada na terra dura.
Ele pescava, ajudava ao fim do dia em casa. Eram as conversas dos outros, e deles, que animavam o serão à volta dos pratos colocados no chão.
E assim se passaram duas dezenas de anos de convivência, assim se escreveu uma história, assim se fez uma família. Um dia, de volta a casa, a mulher queixou-se de uma dor nas costas, coisa pouca mas que a apoquentava. Não ligou e disse-lhe que era do trabalho, que eram muitas horas sempre agachada e a cavar. Acreditou, era possível, porque não? Mas a dor, dia após dia, piorava e não a deixava ter força, quebrando-lhe os movimentos. Não durou dois meses e morreu. Com ela morreu uma casa, a casa que ela habitava, e ficavam agora três vidas por viver.
A morte de um ente querido deixa estas marcas, sempre sentidas embora diferentes na forma de sentir; mas a dor, essa não se esvai.
A contranatura da morte custa, mas a morte de uma pessoa jovem com uma família para criar, também tem a sua conta de dor. A morte, se pudéssemos escolher, não deveria de existir. Mas aquela existiu e continuou a sentir-se no seio daquela família. Após a hora da morte da mãe, foi o filho mais velho que pegou no irmão e o levou para casa do vizinho. O pai, avisado quando estava a trabalhar na praia, não soube como chegou à Pederneira. Nada que não se estivesse a preparar. Via a sua mulher a definhar, dia após dia, mas a morte! A morte, não. Como se lida com a morte, não se sabe, só quem passou por momentos destes é que sabe como se lida com a morte de alguém jovem, querido e um pilar de uma família.
Chegou, várias pessoas estavam à porta, de cabeça baixa. Ainda assim o olhavam pelo lado superior dos olhos, sem mexer a cabeça. Nem uma palavra, apenas suspiros, ais, silêncio, nada mais. Passou-se tudo naquele momento, o choro, as lembranças a impossibilidade de ser Ela, tudo se passou, mesmo a razão de estar ali. Mas não. Era tudo verdade, era Ela que estava ali deitada, coberta por uma colcha branca, colcha que o tinha aconchegado a ele e a ela nessa mesma noite, antes de ir para a praia trabalhar, naquela cama, onde trouxeram ao mundo os seus filhos. Tudo, mas tudo, era agora um espaço diferente um pouco mais escuro, sem brilho, sem importância, sem história. Aproximou-se da sua mulher, olhou-a fixamente, (não nos olhos que esses estavam cerrados), mas na face e percorreu todo o seu corpo, oculto pela coberta branca, como se lhe estivesse a tirar as medidas, como o fez na primeira vez que a viu. Mas agora era diferente, a despedida daquele corpo, daquela voz, daqueles olhos, dela, era agora uma realidade. Isso, ele não poderia mudar.


Não era esta a altura de parar, o tempo não espera, isso sabia ele muito bem! Tinha de avançar: por ele mesmo, por aquele filho ali ao seu lado, que o seguira até ao santuário sem o questionar, e pelo outro filho, que a essa hora estava na escola atento à sua professora, ou a cumprir papel de qualquer criança: o de brincar e crescer. Se bem que, na prática, ambos os filhos eram muito crescidos para as idades que tinham. À sua maneira foram felizes, sim, mas sempre tiveram consciência da dureza da vida, do trabalho que cansa e que tão pouco retribui, da dificuldade que é conseguir ter algo para enganar a fome e pior, do que é não ter o beijo de boa noite da sua mãe.
O filho mais novo já há muito que deixara de fazer perguntas, e ainda não tinha completa noção do que é uma vida de lutas, mas pressentia já que o pai e o irmão tinham uma grande fé nele. Todos os dias lhe diziam, enquanto lhe ajeitavam o cabelo desgrenhado, para estar atento à professora, para aprender as letras e os números, para se portar bem na escola, com a promessa de que um dia seria um senhor de dinheiro!
Mas não era para já, ainda não, pensou o pai relembrando essas rotinas, enquanto olhava a enxada, tantas vezes manuseada pelas mãos trabalhadoras da sua companheira. Sentiria ela orgulho da decisão por ele tomada, e que o afastava, a ele e ao filho mais velho, do mar e das redes? Ele tinha de tentar. Tinha de mostrar à vida e aos filhos que existem outros caminhos, que o Homem ainda tem o poder de escolha, e que escolher é preciso. Escolher é avançar, não é como aquele movimento sempre constante das ondas, mas que não passa disso, de um avanço e recuo permanente que não segue em direção a algo novo, diferente, novas perspetivas. O pescador avança; a onda não, fica-se por ali.
Sentiu nele o olhar fixo e interrogativo do filho. Decidiu nessa noite ter uma conversa com ambos os filhos, após aconchegarem os seus estômagos, para colocá-los a par da sua decisão e prepará-los para o que daí poderia, ou não, resultar. Pediu, em silêncio, à alma da sua companheira para que o ajudasse mais logo nessa importante conversa e continuou com a sua missão de preparar o terreno para o que iria fazer com ele. Sentia-se agora mais confiante. Sim, esse era o caminho.

Levantou-se da mesa, foi até à porta, enrolou um cigarro e fixou o olhar na rua escura, apenas iluminada por um pequeno candeeiro a petróleo. Respirou fundo, compôs o barrete e voltou para a mesa:

- Filhos. Não vale a pena continuarmos a chorar a morte da mãe. Ela está bem, esteja onde estiver, e nós temos de lhe dar motivos de orgulho, temos de ser fortes, corajosos. Era isso que ela quereria, é isso que ela quer.
O filho mais novo olhou para o pai assim como quem não percebia o que ele queria dizer. Já o mais velho parecia adivinhar o que iria ser anunciado. Mal sabia ele que nunca esteve tão errado. Continua o pai:

- Tenho de continuar a obra da vossa mãe e tu – dirigindo-se ao mais pequeno – tens de continuar a ir à escola porque, pelo que me disse a professora, não te safas mal. Por isso aplica-te e faz de todos nós, em particular da mãe, orgulhosos do teu caminho. Não tens de passar por esta miséria de vida.
Tu – dirigindo-se ao mais velho – és forte, tens ganas, o sangue na guelra, e por isso falei com o Ti Zé Bombas e ele tem um lugar no candil. Por isso vais andar ao mar.

- Vou andar ao mar, pai?! Perguntou, incrédulo o mais velho, tão incrédulo como a surpresa que aquela decisão lhe causou. Sempre pensou que iria para a terra, acompanhar e ajudar o pai. Agora o mar! Mas ele queria lá saber do mar, esse cão.

- Sim. Temo de nos dividir. Cada qual para o seu lado. Eu trato da horta, tu vais andar na companha do Ti Zé Bombas e o teu irmão estuda. Tás a perceber?

- Que remédio! Disse o mais velho, aceitando a decisão do pai.
O mais novo nem piava, nem imaginava a responsabilidade que lhe estava destinada.

- Portanto, é isto que vamos fazer. Dividir tarefas. Não vá faltar o pão na horta e depois nada temos. Assim, se faltar num lado há-de vir de outro e aqui o pequenote vai à escola. Havemos de ter dinheiro para comer e para pagar os cadernos e os livros para ele estudar, portanto, aplica-te na escola que agente vamos trabalhar, ouviste, ó taranta?

Ninguém saiu daquela mesa satisfeito. O pai porque acha que foi duro com os filhos, o mais velho com a ideia de ter sido empurrado para o mar, e o mais novo a pensar em mil e quinhentas coisas, uma delas, a ânsia de encontrar os amigos da escola já no dia seguinte, e logo pela manhã.
Era um novo capítulo na vida desta família amputada que se iria iniciar.

 

A DOIS PASSOS ll

16.12.20 | Sandra

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Trabalho em co-autoria com O Eremita. Texto anterior em:

https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/a-dois-passos-parte-l-62664?tc=58108845454

Agarrou o filho pelo braço e, sem nada dizer, inverteu o seu destino arrastando com ele o destino do filho, o destino de três vidas. Um homem tem de tomar decisões e a única força que ainda lhe restava estava virada para terra e não para o mar. Desse estava cansado, nem o podia ouvir murmurar ao longe, mesmo quando estava em casa.
Subiram novamente a ladeira e chegaram à Pederneira, o filho não sabia ao que ia, mas não perguntou. Deixou-se ir como se de uma sentença se tratasse e nem pestanejou perante a força, estranha, do pai.

Parecia que tinha sido possuído por uma vontade estranha, por um chamamento, mas não, apenas seguia o seu instinto, levado pela proximidade e pela vontade de não mais pisar aquele areal. Queria outras areias, mais duras, mais castanhas, mais perto. Dois passos chegavam, desde que o levassem onde jazia a sua mulher. Era a dois passos que tinha um pequeno talhão de terra, era a dois passos que iria reconstruir a sua vida e dar aos filhos, aquilo que mais desejavam, um pai.

Parou, olhou em volta apreciando a paz, a calma e o trabalho que o esperava até ter aquela terra pronta para a sementeira. Olhou para o filho e como se lhe dissesse com as palavras todas do mundo aquilo que lhe ia no coração, apertou-lhe a mão e chorou de alegria, de orgulho, e deu graças a Deus por ter o seu filho com ele, aquele homem a formar-se.
Cedo iria chegar a hora de almoço, o irmão mais novo estava na escola, mas era perto, a dois passos.

Almoçaram aquilo que havia para almoçar, pouca coisa, já estavam habituados a pouca fartura, mas a alma alimenta-se com a fé, dizem os que a professam, e eles acreditavam e isso era o suficiente.

Não esperou muito, disse para o mais velho para ir ter com ele à terra, ali a dois passos. Meteu-se ao caminho, curto, ao passar pela matriz e pela Misericórdia, benzeu-se, apenas, sem palavras interiores agradeceu a luz que se tinha feito na sua vida, ou talvez, quem sabe, a ilusão que estava a viver. Não se incomodou, por enquanto, com o facto de a terra ser diferente do mar, sempre tinha o mercado e um homem não come só peixe, batatas também são precisas.

Os outros estavam já nas suas tarefas, semeando as suas terras, mas eram-lhe estranhos, embora os conhecesse a vida inteira, mas o estranho era ele, por ali àquela hora, com uma enxada às costas?
Perguntavam-se os que o viam passar, em silêncio, faziam todas as perguntas, mas nada lhe dizia, sabiam aquilo que lhe ia no peito, e não diziam, não falavam, mas respeitavam as suas condições, a sua condição. Tanta memória que a mulher lhe trazia, era nessa memória que se ia apoiar para ferir a terra, para a fazer sangrar o pão para comer, era essa terra, a dois passos, que reavivava a mulher, afinal era o que ela fazia durante o tempo em que andou no mundo dos vivos.

(Continua)

 

 

 

 

CARTA DOS ACERTOS

15.12.20 | Sandra

5759755_S.pngAceitando o desafio da querida mariasilva segue aqui o meu contributo:

 

Pai-natal:
Alguma vez teria que te escrever uma carta. Foi hoje. Quero agradecer, antes de mais, por todos os anos em que viveste no meu mundo imaginário. Durante esses inocentes anos sempre pensei em ti como um alguém feito de algodão e risos, de uma bondade extrema e genuína humildade! Entregavas os nossos presentes, nada recebias em troca e ainda saías de cena com sinceras gargalhadas e a mão a acenar num doce e alegre Adeus!  Se ajudar, quero que saibas que, em tua honra, sempre fiz questão de provar cada doce e frito que havia na mesa.

Hoje já sou crescida, sabes o que penso em relação à época natalícia (desculpa) e também já sei quem não és, mas só por representares tanto, para tantos, nesta altura do ano, e por teres enriquecido esse meu mundo próprio da infância, continuo a incluir-te nos meus natais.

Obrigada pelas prendas que me deste quando, nas minhas crenças de então, eu tinha a certeza que eras tu quem as escolhia, comprava e entregava. Quase sempre acertaste no que eu desejava! E obrigada por depois, quando saíste da minha realidade e foste morar no mundo da fantasia, teres dado aos meus pais o amor, o enorme esforço e a capacidade de continuar com a tarefa que até aí eu atribuía só a ti. Ah! E obrigada por todas as coisas boas que tenho tido ao longo da vida e que tenho no meu dia a dia, as quais nem sempre sei devidamente agradecer!

Hoje vou tirar-te do mundo da imaginação e trazer-te a este mundo incerto que ainda precisa de um pouco de ilusão: quero, portanto, fazer-te mais um pedido (sabes que continuo a fazê-los, não é?):

Se tudo sabes, sabes que eu ando cansada. Queres ajudar-me? Então o que te peço é que o ano que vai em breve começar, o enigmático 2021, seja um ano de vitórias, alegrias, paz e prosperidade para aqueles que me são mais importantes. Essa prenda que te peço irá atenuar este meu cansaço e ficar-te-ei muito grata!

Se achares que me portei bem e que mereço dois presentes, peço-te que ajudes também aqueles que mais sofrem e que fazem parte do grupo dos mais frágeis, dos mais indefesos, por não terem como fugir desse sofrimento, seja ele qual for.

E se der, se achares que desta vez até mereço mais um mimo, achas que podias dar-me menos cabelos brancos? As boas tintas colorantes são muito caras e não queria ficar como tu, pelo menos nos próximos anos...

Ah! Só mais um pedido, prometo, é o último! Pode ser? Há pessoas que dão muito de si, na medida das suas possibilidades, para ajudar o outro. Podes recompensá-las, trazendo-lhes alguma grande alegria? Obrigada!

Agradecendo por tudo, e prometendo TENTAR portar-me bem no próximo ano, deixo-te um enorme beijo mas ao longe, o distanciamento social ainda é para cumprir! Espero que recebas esta carta e que envies cumprimentos meus às tuas renas, aos gnomos e aos elfos, todos teus aliados na missão de fazer nascer sorrisos nos rostos das crianças e nos corações dos adultos que ainda precisam de um pouco de magia nas suas vidas. 

Obrigada!

ESTRELA TU

14.12.20 | Sandra

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Podia ser a queda de uma estrela, essa que és tu, afinal. Mas não é assim que te assumo. Continuas a brilhar alto, uma imensa estrela no meio de tantas outras, talvez a mais colorida, que dorme enroscada ao firmamento de veludo. Sei que deixaste expetativas soltas no Tempo, palavras penduradas em árvores despidas, sonhos em rochedos onde só as gaivotas vão ao encontro das ondas do seu mar. Pedaços da tua alma permanecem flutuando nos anos que passaram e nos lugares por onde andaste, que te conheceram e amaram.

Sei que ainda esticas o braço na direção do céu, tentando alcançar recordações tombadas nas nuvens de madrugadas distantes; e que ainda olhas para lá da noite onde o Universo te observa e interroga, no seu silêncio solene. Sei que procuras o reencontro de ti mesmo, demanda em dias que te abraçam entre neblinas, aves á deriva na respiração da Serra e nas saudades que, como dunas, te vestem o sono. E os ponteiros do relógio nem olham para ti...

Mas és estrela ainda, sempre! Ainda aquela tua luz, fotões em rodopio, ofusca a minha adocicada alma. Aquele brilho emanado dos teus receios ainda me consome vontades. E ainda aquele sublime requinte de estrela, que não deixas de ser, desperta prazeres e amores. Ainda tens esse teu secreto mundo onde brisas tocam as estações do ano e o sol estende-te a compreensão da essência de tudo. Ainda és tu, poderoso, livre, capaz. Estrela viva, amante de chuvas e loureiros que embalam possibilidades. Ainda ocupas firme o teu lugar, quando mergulhões olham o céu e a lua reflete-se nas águas cristalinas do rio. Nada te poderá demover, as estrelas são tão poderosas... e ainda és tu uma delas, a mais colorida, regras quebradas e essência que se renova em mim num reencontro.

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