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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

A DOIS PASSOS l

13.12.20 | Sandra

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Trabalho em co-autoria com O Eremita.

 

Acordara cansado, talvez pelo dia de ontem, não sabe, mas sentia-se cansado sem vontade de nada fazer, apenas ficar em casa. Olhou em volta e no meio daquela pequena divisão ainda dormiam os seus dois filhos, serenos, como que santificados e alheados das dificuldades da vida dura que lhes levava o pão à boca.

A sua companheira já tinha partido, fazia pelos Passos dois anos, e nunca mais conseguiu ser o mesmo. Os filhos notavam, embora pequenos, a quebra daquela força que sempre acompanhou e impulsionou o pai. Mas tinha de reagir, afinal não era isso que sempre o motivou a sair de casa, descer a ladeira e trabalhar na praia junto dos colegas que tinha, embora nem todos fossem seus amigos? Para que é que um homem quer amigos quando não tem a sua companheira, quando vê a sua vida desmoronar-se de um momento para o outro?

Mas, naquela manhã, as coisas eram diferentes, a sua força parece que o tinha abandonado definitivamente, sentia que mais nada nem ninguém o podia ajudar, nem mesmo o amor que sentia pelos filhos e, no extremo, Nossa Senhora da Conceição, a quem pedia todos os dias pelos filhos, pelo pão que havia de vir desse maldito mar.

O filho mais velho acordou, com 14 anos já percebia o que se passava, e bastou olhar para o pai para perceber que mais um dia de escuridão se tinha abatido na sua alma. Nada lhe disse, apenas o olhou, de frente, e sentiram os dois aqueles sentimentos de saudade, de falta, mas que podiam fazer contra a determinação de Deus?

Alguns minutos mais tarde acordou o mais novo, 6 anos, quatro deles com a mãe, os mais memoráveis, aqueles que se recordava como se estivessem envoltos numa penumbra, apenas a fotografia numa moldura em cima da cómoda do quarto o fazia lembrar de pequenas coisas. Em silêncio continuaram a fazer a sua rotina matinal, um pouco de pão e leite da vizinha, que tinha duas vacas na sua horta e dava de leite à maior parte da população, pouco, mas lá se ia aviando, a vizinha e os clientes.

Naquela altura a pequena aldeia era uma terra deserta, sem almas nas ruas, mas com muitas no cemitério, sempre esse caminho, o caminho que percorriam todos os dias sem falta, para visitar o chão onde se encontrava a mãe. A escola era já ao cimo da rua e o mais velho, que já a tinha abandonado para ajudar nas despesas da casa, levava o irmão, esperança da família para que o futuro lhes fosse mais risonho.
Depois voltava e juntava-se ao pai na caminhada para a praia onde iriam passar o dia até voltarem, mais tarde, para a sua casa. Não havia distracções apenas o trabalho e a casa.

O pai esperou que o filho chegasse de levar o irmão à escola para o arrastar para baixo. A muito custo, porque a alma prendia-lhe os movimentos, lá foi. A necessidade falou mais alto no início de mais um dia que não estaria destinado a ser, assim ele se pudesse dar ao luxo de ficar na porta da sua casa a olhar, bem de frente para a torre da igreja matriz e esperar que as horas passassem às badaladas do sino.
O caminho foi feito em silêncio, nem uma palavra, apenas pensamentos que assaltavam os dois. Um pelos motivos da perca, por não perceber porque Deus lhe tinha tirado a sua companheira, outro, a pensar porque tinha um pai distante e uma mãe que não sobrevivera a uma doença sem cura, apesar do médico da terra ter feito de tudo, e sem saber, eles terem recorrido às práticas tradicionais para afastar aquela terrível doença que consumiu o outrora vivo corpo da mãe. Que haviam de fazer?

No areal, já labutavam as pessoas, elas, eles, as redes, os barcos, os bois, tudo era movimento, tudo era barulho, nem o barulho do mar se conseguia ouvir com o barulho da areia pisada e repisada por tantos seres. Não. Aquilo não era vida para ele, tinha de tomar uma decisão, tinha de estar perto da sua mulher, pensou. Quanto mais o pensou mais depressa o fez.

(Continua)

 

DEIXA-TE FICAR

11.12.20 | Sandra

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Deixa-te ficar neste embalo cadenciado da chuva que cai. Deixa-te estar, amor, ao meu lado, enquanto gotas brilhantes sorriem ao cair tontas de alegria de um apaixonado céu. Posso aconchegar-me a ti, no calor selvagem que do teu corpo se liberta? Escuta! Ainda cantam, alegres, os melros e as rolas! Fazem coro com o som das gotas transparentes que embatem em sonhos espalhados por aí. O mundo está lavado, fresco, brilhante, desperto. Há toda uma sonoridade diferente: pequenos riachos que se formam, pingos que tombam, frágeis e belos, de goteiras e telhados escorridos, o barulho dos pardais que se banham nas poças de água fresca. E tu, que me despertas palavras feitas dessa água que molha o universo? Conta-me histórias. Fala-me de ti, agora que a chuva é doce e ama o seu redor. Canta para mim, recita-me um verso ou faz-me tu poesia, e deixa a tua mão pousar amante no meu cabelo, enquanto a chuva abranda a sua voz e  tudo repousa, sublime, em requintada luz e vida, algo renovado a nós. Deixa-te ficar, esta chuva é para nós e pede amor...

SAÍDO DO NEVOEIRO

09.12.20 | Sandra

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Há momentos capazes de mudar toda uma existência. Quando esses momentos acontecem, passado, presente e futuro fundem-se num tempo só. Porque esses momentos são raros pela magia e intensidade que libertam.

São momentos de reencontro. Trazem consigo o cheiro da terra molhada pela primeira chuva que cai. Seduzem como as luzes de uma cidade à noite, vistas de um ponto muito alto. Serenam como o som do sino da igreja a tocar lá ao longe na aldeia. Deslumbram como constelações de estrelas imensas, com nomes de deuses. 

Há momentos que, pelo seu raro encanto, são capazes de num único e mesmo segundo fazer alguém sentir-se simultaneamente grande e pequenino, forte e frágil, poderoso e fraco. Quando o universo parece abrandar e a roda da vida permanece imóvel no céu.

Momentos únicos que fazem o princípio e o fim confundirem-se. Formas abstratas. É como chegar a um lugar ao qual nunca se foi antes e sentir estar a regressar finalmente a casa.

É como olhar um rosto pela primeira vez; e adorá-lo, ainda antes de todos os Porquês! É como amar um filho, filho meu...

Há momentos assim, em que somos tudo e nada. Esses momentos podem andar por uma rua qualquer, podem passear-se por um jardim bem cuidado, podem até estar à varanda olhando enamorados um barco que ao longe, no rio, parece tão pequenino e desamparado.

São momentos bons e só nossos, feitos daquilo que nos faz sorrir, sonhar, acreditar, agradecer aos outros, a Deus. São momentos que despem devagar a alma, como se fossem a lembrança de um rosto quase místico, que parece saído do nevoeiro.

 

 

GRANDIOSIDADE

08.12.20 | Sandra

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Abre-se a tarde em luz. Um sol tímido espreita, finalmente, entre nuvens que ainda marcam presença num céu frio e impiedoso. Do lugar alto onde estás, ficas completamente absorto nessa paisagem sem fronteiras. Misturas-te com os montes e a vegetação, as pedras e os horizontes, as cores e a grandiosidade que te cerca, e que faz de ti tanto de quem és. Tens em ti tanto da natureza que faz parte dos teus dias: o mar, as dunas, a serra, o monte, os arvoredos e as sombras, a lua e o sol aberto no horizonte distante. Tudo se mistura a esse teu inconfundível jeito de ser e que me fascina tanto. O teu espírito é imenso, acolhedor de mundos, outras vidas, histórias, limites atravessados em extremo, provas superadas. E em tudo, ressalta esse teu lado tão humano, essa tua transparência, que tudo abarca, tudo envolve, e a tudo se dá em sinceridade plena, de coração aberto ao mundo.

Ali vejo-te tornado pequenino pela vastidão que o teu olhar abarca, tu, uma simples criatura, que faz parte de algo muito maior, mais poderoso, que nenhum ser humano seria alguma vez capaz de recriar e que desperta sentimentos que as palavras ainda não conseguem exprimir no seu todo.

Como te defines tu, face a toda essa imensidão que se estende à tua frente? Creio teres a mesma grandiosidade, a mesma plenitude, os mesmos vastos horizontes. Creio seres capaz de sentir e transmitir a mesma sensação de liberdade, de leveza, de espanto e deslumbre.

Não perdemos o momento, afinal não é todos os dias que podemos dizer: "Agora compreendo!". Ficamos ambos em silêncio cúmplice, eu e tu, rendidos ao entendimento de algo imensurável, que escapa à nossa limitada condição humana, que nos mostra o que realmente importa...

Há momentos que nos colocam no nosso devido lugar, que ensinam quem somos nós, afinal; que nos provam o quanto de belo e único deixamos escapar por entre os dedos, o quanto estamos constantemente a perder por olhar na direção errada. Momentos que enaltecem os encantos que este Mundo tem, apesar dos desafios inerentes à espécie humana. Há momentos que nos aproximam mais à nossa própria origem, à nossa essência natural, quando é fácil deixar escapar o menos bom dos nossos dias e sermos nós próprios, sem ter que provar nada a ninguém. Momentos assim tornam-se inconfundíveis, inesquecíveis. É quando mais apetece o amor, o teu amor. Não é isso que a tudo enriquece, que a tudo complementa? Ama-me então!

RELAXAR

07.12.20 | Sandra

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É noite. Vinda do trabalho, estaciono o carro (não tão perto de casa como gostaria) e, desta vez, deixo-me estar ali uns instantes, permito-me o tempo suficiente para relaxar.

Olho a noite. O dia esteve quente e o ar noturno ainda está muito agradável. Algumas árvores e arbustos abanam ao sabor do vento fraco. Olho o céu, as estrelas. Uma, mais brilhante, parece-me ser Vénus (supostamente visível a olho nu, nestes dias). Mas não tenho a certeza. Nestes tempos pareço não ter muitas certezas e considero cada vez mais difícil agir como gostaria ou deveria. Atribuo isso às preocupações, ao cansaço físico e psicológico. Amanhã tentarei ser melhor, fazer melhor. Amanhã…

Para já, prefiro saborear a noite. Lembra-me as longas noites de verões antigos, após um dia carregado de sol, calor, aroma a areia, sal e mar. Recorda-me as férias de outros tempos, as viagens, as festas e o amor, que ia e vinha igualmente depressa. A escuridão relaxa-me e sinto que, ao ficar aquele instante no carro, antes de ir para casa, consigo cortar mais facilmente com as horas que passaram.

Amanhã, outro dia. Diferentes oportunidades, quem sabe, mais coragem e renovadas forças. Renascida fé e o retomar as minhas conversas com Deus. Por hoje, chega. Lá fora, a noite parece pequena e, ao mesmo tempo, colossal. E, dentro de mim, o sono, a oração, a lembrança de algum pormenor do dia que já lá vai, e o desejo de alguma grande bênção. Tão grande como a noite, o mundo e o céu por cima de mim. Tão grande como o que sinto por ti e que é belo, poderoso e frágil. 

DEITADA SOBRE TI

05.12.20 | Sandra

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Aos vastos campos a perder de vista, quando neles a erva ondula no dourado da tarde e, no céu alto, enquanto árvores dormem na preguiça da tarde, aves peregrinas voam:

Nunca cedes, erva do campo! Nada te derruba, como se fosses pedra em muralhas de lendários castelos!

O sol? Entregas-lhe alegre as tuas folhas despidas, ansiosas de se perderem no seu calor com prazeres de seda.

A chuva? Como a desejas, erva do campo! É doce, intimo banho, em que gotas de água deslizam sem pressa até à tua raiz.

O frio? Apenas serve de pretexto para, mimosa, te insinuares ao sol a pedir demorado abraço. Na tua sedução, mil promessas...

A geada? Queres lá saber, erva do campo! São longos beijos dados em eternas madrugadas, quando o amor se quer e a bruma é cúmplice.

O vento... recebes deliciada cada sopro seu que faz o desejo tremer nas tuas folhas; e quando chega a hora, deixas o vento partir como um amante que voltará na altura certa.

Erva do campo! De dia, senhora envolta nos seus desígnios, dona da sua vontade e das suas certezas; à noite, menina rendida, submissa às estrelas, partilhando sonhos, histórias, orações, fazendo (sem pudores) amor com a lua.

É por isso erva do campo que gosto de deitar-me sobre ti, sentir-te viva em meu redor, enquanto nuvens conversam no descampado do céu azul. Porque tu compreendes.

 

MANHÃ NA PRAIA

04.12.20 | Sandra

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Ainda é cedo nas estou já desperta. Uma vez que não consigo dormir mais, aproveito para ir dar um passeio perto do mar, algo que raramente faço a esta hora. Já algumas pessoas estão espalhadas pelo areal, animadas. A areia está molhada até junto ao paredão, resultado da última maré cheia. Por todo o lado, pegadas de gaivotas e ramos partidos. Mais à frente, dois cães perseguem aos saltos um pombo que anda solitário ali pelo areal, e que parece divertir-se com a situação, provocando-os e fugindo às suas investidas. Mais um cão junta-se à perseguição e o pombo afasta-se de vez para longe. Está muito frio, muito mais do que tem estado nestes dias, mas eu estou preparada. Grossas e imensas nuvens cobrem o céu com o seu tom cinzento, dando à praia gelada um ar ainda mais desolado, nostálgico. O vento sopra muito forte e no lado das rochas um grupo de adolescentes solta os seus papagaios ao alto, afastados entre si, para os barbantes não se prenderem uns nos outros. Conversam num tom de voz muito elevado, não só por causa do vento mas também por causa do imenso rugido do mar, que abafa todos os outros sons à sua volta. Ondas enormes começam a formar-se longe e não param de ganhar altura até muito perto da zona de rebentação. Aí desfazem-se com um enorme estrondo, umas após as outras, sem nunca parar, deixando a pairar no ar como que uma chuva lenta, e na areia uma espuma grossa, branca, que demora a desaparecer. Às vezes o sol lá consegue espreitar por entre alguma nuvem mas logo volta a ficar tapado num céu escuro que anuncia temporal. Na zona do pontão, uns pescadores arrumam à pressa as suas canas, baldes e outros apetrechos, lutando com força contra o vento que os empurra uns contra os outros. O farol parece tudo comandar, as ondas, o vento, as nuvens, pedindo-lhes para mostrarem todo o seu poder. E bandos imensos de gaivotas brancas e cinzentas aconchegam-se umas contra as outras, na areia atrás das pedras, afastadas da água. Começa a chover, grossas gotas de água, geladas, vindas de todas as direções ao mesmo tempo. Eu e outros conseguimos abrigo sob os toldos da esplanada do único café aberto aquela hora. Olho à minha volta, agora cheia de calor. Imagino como seria descobrir-te ali, por acaso, entre aquelas pessoas, num golpe de sorte que tornaria o nosso encontro mais fácil. Reconhecer-te-ia? Sim, mil vezes sim. Mas tu não estás lá e tudo parece subitamente mais vazio, mais sem sentido, apenas porque desejei algo que não aconteceu. Mas a chuva parou e já que tenho tempo, deixo-me ficar ali, na esplanada, a apreciar aquele revolto mar e céu agreste, a ver os cães em correrias loucas à volta de nada, e as pessoas já espalhadas de novo pela areia dura e gelada. Sinto tanto a tua falta, era ali, naquele momento, naquele lugar, que gostaria de te encontrar, enfim.

CAMINHO

03.12.20 | Sandra

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É este o caminho certo que me leva a ti. É por aqui que, ávida da tua presença, sigo em direção à alegria de te reencontrar. Os meus passos jamais se cansam nesse caminhar que se faz leve, onde o chão deixa de ser duro e transforma-se em apelos teus, doces, ansiosos, felizes. Respiro cada raio de sol que parece indicar-me por onde devo seguir, e das altas folhagens tomba aquela sombra plena de respostas, que pousa gentil nas minhas convicções. Acompanha-me sempre um perfume indefinido, espalhado por todo o lado em meu redor, que mais tarde será lembrado quando eu me encontrar ao teu lado e reencontrar esse perfume tão teu, um pouco esquecido já. É este o caminho que sempre me aproxima a ti, tu, que já me aguardas, pronto a receber-me em júbilo, em tudo o que és e que faz de ti parte de mim. Já as aves invisíveis andaram cá e lá, entre nós, saltitando na expetativa, medindo distâncias que se encurtam, contando os minutos que faltam até ao nosso reencontro, sabendo que também tu já olhaste vezes sem conta os ponteiros do relógio e reviste tudo em teu redor, vislumbrando esse caminho que me entregará, feliz, a ti. Por isso, como não amar este chão, estas árvores com as suas generosas sombras, este sol que ri cúmplice dos pássaros que nos espiam? Se este é o caminho que é teu, que me conduz a ti, que será sempre como nosso, parte de quem somos e de um certo mundo, esse nosso só também?

MADRUGADA

01.12.20 | Sandra

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Há dias assim, em que a madrugada queda-se num silêncio sem forma e a infinidade de tudo parece nada abarcar. São horas paradas, leves e mal definidas, as da madrugada. Sonhos, dos que ainda no seu leito descansam, misturam-se às neblinas frias e silenciosas que sobem do mar e envolvem tudo à sua passagem, nesse momento indefinido. Ondas desfazem o areal, embatem nos rochedos, alheias às gaivotas que, já despertas, acompanham traineiras. Nos vastos campos, ervas orvalhadas, geladas, conversam na luz pálida e frágil que já se adivinha no horizonte. Os jardins tremem ainda da friagem da noite e, nas fontes, só algumas folhas mortas dançam melancólicas nas gélidas águas. As aves começam já os seus movimentos nas horas jovens, ainda acanhadas, como se apanhadas de surpresa pela partida da noite. Becos escuros e ruelas vazias, com os seus vasos adormecidos nas varandas esquivas, aguardam já os raios de sol que lhes hão de dar vida, novamente. Por ora, em tudo paira essa ausência de movimento, cor, forma, como se a madrugada tivesse capturado tudo para entregar, como uma espécie de oferenda ou holocausto, ao dia que sabe estar para chegar. E o dia chega finalmente, sóbrio, sobre as pedras nuas da calçada. Recebe das mãos da madrugada sonhos, esperanças, pedidos e orações, devaneios e amores. E envolve tudo com o sol que cai ofuscante e quente em cada canto e recanto, em cada telhado frio, em cada muro coberto de hera, em cada esquina tímida. Musgos brilham aos primeiros raios de luz, as folhas das árvores sacodem de si a preguiça das horas esbatidas, os caminhos cumprimentam os primeiros movimentos do dia. E a vida recomeça: misturam-se o sol, o calor, as ruas e as suas gentes, os ruídos, os cheiros, a azáfama das horas que não esperam. Já a madrugada está longe, já dorme, serena, esquecida de tudo, aninhada nos braços quentes da noite que a aguardava ansiosa. Haverá de voltar, a madrugada, afinal é esse o infinito ciclo do Tempo que acompanha, orienta, a nossa condição humana.

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