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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Em Mim

11.01.21 | Sandra

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Repousa em mim, luz que o sol liberta ao dia. Recebo-te em júbilo, que desce sempre feito mistério, manhã após manhã. Pousa suavemente nesta minha pele que, sem entraves, te espera desde o clarear dos céus. Aquece-me suavemente como beijos que se dão, e acaricia-me como a aurora acaricia os campos nus em orvalho puro. Abraça-me numa claridade leve, sol nascente, enquanto na cama os lençóis ainda estão quentes; e nesse calor, abraço-te eu também, luz que quero minha! Como me delicio nessa tua demora em mim! Não sei se és seda ou cetim, mas quero que fiques, que o tempo é teu, e afinal este corpo meu entrego-te em doces vagares... amanhã, e depois, e no dia a seguir, ainda! Sei que em algumas manhãs nuvens te esconderão de mim, mas ai, como eu sei que acima desses gigantes flocos de algodão, estarás certa da minha espera por ti. Porque sim, tens razão luz, aceito-te e recebo-te promíscua em mim num misto de aconchego e tremenda Fé. 

Telhados Não Brilham ao Sol

07.01.21 | Sandra

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Por ora, apenas relvados tão ocos quanto os dias, bancos de cimento sem quem neles se queira sentar, passeios escorregadios, o vazio e a ausência. Ruas caladas e húmidas esquinas. Poças de água gelada, imóvel na espera de um sol que demora. Árvores paradas no tempo atiçam os seus ramos nus em direção ao céu na busca de algo, mas de lá só vem um silêncio absoluto, absurdo. Nem uma só ave, elas estão longe, tal como todas as palavras não ditas entre nós, ou o calor das tuas mãos que não dormem pousadas em mim.

São assim os dias de inverno, horas vagas, pagãs, orvalhadas, ausentes de tudo, mordazes reflexos do nada, gélidas palavras sem passados.

Sim, refletem-se ao céu aberto palavras jamais ditas ou deixadas por dizer. E telhados não brilham ao sol...

Certezas Frias

05.01.21 | Sandra

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São noites gélidas, estas. Pressentem-se pensamentos singulares que o frio sempre me traz, sentimentos chegados do passado longínquo, ao agora. É isso mesmo que acabará por acontecer, conforme a lua for subindo no céu que por ela se deixa, sem esforço e com agrado, dominar. Tenho a sensação de que se eu falasse com a noite, ela me responderia. Está um frio duro, cortante, que pica, belisca. Nada se move no jardim e nos campos à minha frente. Nem uma folha, nem uma erva. E nem um fragmento de nuvem desfeita no céu. Hoje não se ouvem as aves notívagas nem os insetos que sempre marcam presença nas outras noites. O silêncio é quase demolidor e, ao mesmo tempo, reconfortante. Tu, ao longe, também estás acordado, eu sei. Alma impetuosa, arrebatadora, cheia do conhecimento do mundo mas tão vazia de tanto mais. E eu lembro-me de ti. Olhando o céu gelado e fofo por cima de mim, lembro-me de ti por inteiro, entre o teu mar e a tua serra. E sinto-me perdida. Já não sei o que deva pensar, o que deva sentir. Quase que pergunto às nuvens: "Será melhor eu desistir? Deixar ficar para trás?".

Que hipóteses tenho eu, perante tudo o que faz parte de ti? É uma luta desigual e injusta, para mim. Não vale a pena o esforço, o empenho, os "E se?" cegos e vagos. Decido que é tempo de focar-me em tudo o resto que faz parte da minha vida, do meu dia a dia. Isso sim, é o que realmente conta. Não passados, que afinal ainda são presentes, e que nada me trazem a não ser a certeza do não concretizável. E eu sou mais do que tudo isso!

A noite congela tudo o que a ela está exposto, e só consigo sentir sincera tristeza por aqueles que não têm como escapar a um frio assim, que pica como agulhas. Não há vento, nem geada ou humidade. É um frio seco, orgulhoso. Hora de ir descansar e conseguir algo que me distraia a mente. Não quero pensar em ti. É tarde. Mas agora, é tarde para ti também. 

Se Tua

04.01.21 | Sandra

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Se sou tua, tua sou então! Pega nessas palavras, as que desenhas na folha de papel que se abre a ti, e deixa-as cair das tuas ansiosas mãos ao longo de mim!
Esperei-te desde o inicio do sempre:
ama-me então, que te quero, que já anseio ouvir os murmúrios teus que hão-de rasgar silêncios selvagens, enquanto poemas teus são espalhados neste meu corpo submisso às tuas rimas.
Em letras garridas no cetim repouso agora e ainda, sonhando, esperando, por ti, em ti...

Areal

03.01.21 | Sandra

1337565_M.jpgAo areal de todas as praias do mundo.

És feito de infinitude, incontáveis grãos de areia que trazem consigo algo do espaço primordial, onde as primeiras estrelas se formaram e cedo explodiram.
Compreendeste muito antes de nós os segredos das nebulosas, a formação da nossa galáxia, e os mistérios do Universo que se move imenso por cima de ti - de tudo e todos.

Conheceste as várias idades da Terra, os grandes eventos que a moldaram, e as mudanças que ocorrem desde que a vida chegou para ficar.
Testemunhaste a evolução dos grandes mamíferos, e os passos dos primeiros Homens que percorreram planícies geladas na luta pela sobrevivência da espécie. Foste surpreendido por enormes cometas e poderosos relâmpagos, e dormiste sob as fortes chuvas que escureceram céus, caindo dias e dias seguidos sem nunca parar. Sabes que mundos existem para lá do que a Humanidade descobriu ou jamais há-de descobrir. Sim, sabes muito mais do que nós.

Hoje és areal. No fim de tudo, o que mais te arrebata é um pôr-do-sol aceso, a lua cheia banhada na quietude do mar, o lamento do farol em dias de nevoeiro cerrado, a roda da vida que gira imparável no céu, teu amante fiel.

Enquanto isso, para lá da tua praia o mundo apenas aprende a crescer...

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