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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

TRAÇOS DE FLOR

30.03.21 | Sandra

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Descubro-te, flor, na manhã dócil
que se abre ao dia que chega.
Rendes-te à luz envolvente, silenciosa,
de brilho gentil,
que te sacia as ávidas pétalas. 
São perfeitas,
as tuas doces formas
que me espantam em cor
e textura ousada,
que se cola à pele nua da alma.
A doçura da manhã que avança
espalha palavras silenciosas,
transparentes,
por aqui e por ali,
onde ficamos só eu e tu.

Flor definida, bela,
que exulta a poesia virgem,
sem pudor...

Aproximo-me mais de ti.
São traços de flor,
os teus,
despidos agora, 
fundidos no beijo prolongado
da manhã divina, opaca e quente.     
E envolvo-me nessa luz...
Sem pressa,
sondo-te cada detalhe
como num banho demorado, 
onde se provam
formas, cheiros,
a entrega.
Faço-te flor minha:
Pétalas e folhas,
recortes e recantos,
a luz sumptuosa e macia.
E és sempre flor, entre estações!
Olho-te, uma última vez.
Revejo nas tonalidades várias,
instintos primitivos, secretos, íntimos,
que te trouxeram de longe, até aqui.
E a primavera continua assim,
em traços de flor, que és tu.

ANDORINHA

25.03.21 | Sandra

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Vens já perto, vens de longe, de terras de sorrisos quentes e sonhos frescos. Atravessaste charnecas onde dourados cobrem campos, e vales de sombras azuis que acolhem. Acompanhaste, a partir da imensidão dos céus, o curso dos riachos que descem as montanhas; e a tua sombra projetou-se vezes sem conta em trilhos e encruzilhadas que riscam a terra fértil, onde gentes do campo cantam e animais dormem.

Deixaste para trás distâncias abissais, e com o teu bando, persegues as temperaturas amenas da vida, dos dias que se fazem longos, do perfume que a primavera liberta das suas raízes. Terás as manhãs solarengas e risonhas, pousadas em beirais que já te aguardam como crianças ansiosas pelo calor, para brincarem sem tempo na relva quente, impaciente.

Estás perto, chegarás tu, andorinha, outras tantas contigo, vestidas de preto, azul escuro e branco; e outras mais ainda, atrás de ti! E em breve, farás voos rasantes à minha janela aberta ao mundo, onde eu estarei, só para te ver e dividir contigo a promessa dos belos dias.

QUE SEJA POEMA

21.03.21 | Sandra

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E que tal um poema?
Não um poema qualquer!
Tem que ter luz...
Sílabas em som, porque não?
Ser poesia escancarada,
ter todas as cores do mundo.
Tem que cair das madrugadas,
divagar em longas tardes de estio
e amar muito, à noite,
devagarinho!
Que tal um poema?
Tem que ter alma,
(alma não pode faltar!),
entrelinhas cruzadas,
sentidos sem sentido,
interrogações sem resposta;
pode ter estrofes de campo ao sol,
versos onde ondas do mar se quebrem,
e ramos feitos de rimas,
para as aves canoras pousarem!
Que tal um poema?
Pode correr livre, como a métrica!
Saltar, como o cão atrás da bola,
rir, qual criança ao sol,
ou perder-se, como dois amantes
sob a chuva de verão!
Pode ser floresta, montanha,
pradaria, cachoeira.
Pode ter sentimentos revoltos de vento suão,
ou mágoas,
desertos imensos a perder de vista!
E que tal um poema?
Que seja coração,
realidade ou criação,
em papel, para um sarau, 
ou íntimo segredo, para a alma;
mas que seja meu, teu,
de tantos, de todos!
E acima de tudo:
que seja tudo,
que seja Poema!

 

 

*****

Notas:

- Grata, equipa da SAPO, pelo destaque dado a este meu contributo para assinalar o Dia mundial da poesia! Obrigada!

https://destaques.blogs.sapo.pt/que-seja-poema-silabas-a-solta-6761788

 

- Grata, Marta Spínola, pelas palavras tão gentis sobre este blog, em Delito de Opinião! Muito obrigada!

https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/blogue-da-semana-12477486

 

NOS LIVROS QUE LEIO

18.03.21 | Sandra

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Leio-te nos livros que leio!
Andas por lá
entre linhas,
impasses,
ideias,
cautelas.
Um pouco de ti,
tu todo, por inteiro...
Em livros grandes,
pequenos,
velhos
ou novos em folha!
Leio-te nos livros que leio...
E de lá,
desses livros,
lês-me tu também,
enquanto te seguro,
folheio,
exploro
absorvo!
Leio-te nos livros que leio
E de lá escapas
aos poucos
ao virar da página
para no meu pensamento,
indiscreto, ficares.
É a história de sempre...

LEVE, A SOMBRA

16.03.21 | Sandra

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Vem comigo,
deixa-te ficar, apenas,
nas horas sem tempo
que pairam
na preguiça da tarde imóvel.
Um sol quente faz-nos companhia,
senta-se conosco, também;
se o calor for demais,
temos leve, a sombra.
Sentamos-se onde?
Escolhe tu,
que a tarde é soalheiro silêncio.
Na areia morna da praia,
onde todo um mar brilhante
nos atinge de frescura e reflexos?
Na relva cheirosa do parque,
onde patos descansam na lagoa
e miúdos voam, cheios de riso,
nos balouços que vão ao espaço?
No velho banco de madeira,
à sombra dos plátanos seculares,
abrigo de pardais sem idade?
Tanto faz!
Mas vens comigo?
O sol brilha, a brisa é quente, aproveitemos então!
E falemos de nós,
de estações e relações,
de antigas histórias 
e modernos poemas,
de amores e amizade,
de lugares e afazeres.
E um sol quente,
sempre o sol, connosco,
na tarde que queima,
abrindo-nos expetativas,
risos,
silêncios sem vento.
E já sabes,
se o calor for demais,
temos leve, a sombra.

IRREAL

13.03.21 | Sandra

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Às vezes parece-me tudo irreal, ou como um sonho estranho: tu, a tua existência, que aos poucos imprimiste em mim, as palavras que outrora trocamos. Lembro-me de, na altura, pensar que realmente poderias ter vindo de outros mundos longínquos, outras eras, tempos distantes, como tu costumavas dizer, aparecendo nas noites para falar de ti. E foi numa noite que chegaste a mim, através de insondáveis palavras que me escreveste. (Ah, o mundo que a palavra encerra em si...!). Desde aí, um novo sentimento por ti obrigou-me a um incessante questionar de tanto: as minhas convicções, caminhos, ações, sentimentos. Comecei a gostar de ti.

Hoje a noite está linda, o ar está fresco e leve, limpo. Não há vento, e no céu com uma claridade peculiar, as estrelas parecem luzir mais ainda. Cheira a terra seca, a relva acabada de cortar, e dois cães perseguem, atrapalhados, uma bola. Ao longe, vejo o pisca-pisca disciplinado do farol, e luzes a tremeluzir nas colinas silenciosas da outra margem. É uma noite boa para apareceres, através das palavras que são parte de ti e que se dissolvem em mim. Mas és humano, claro. Receios ou orgulhos, a tua arrogância subtil ou cansaço, algo mantém uma distância firme, diluída entre nós e deixa, mais longe ainda, a possibilidade. Talvez seja bom assim mesmo: noites sem respostas, o silêncio marcado entre nós. Também existe um silêncio tremendo na noite. Estradas, parque, a enorme ponte, o parque bem cuidado, o universo e as suas galáxias com estrelas e planetas. E contudo, apesar desse silêncio, a noite continua a ser bela. Assim, e apesar da distância que se acentua, e do silêncio que marca o tempo, o sentimento continua também a ser belo.

Talvez estejas perto, passeando por algum caminho mais reservado, sentado nalgum pacato banco de jardim, ou no significado de algum poema teu. Não te escrevo poemas, não quero. Mas posso oferecer-te uma noite assim, como esta, fluída, para nela navegares nas tuas longas horas despertas. Sim, na noite também se viaja, navegando nas horas paradas onde o sentimento é perspicaz e as dúvidas desfazem-se. Ainda assim, por esta altura, pareces-me irreal. E está tudo bem. Não é nada de novo.

O VOO

11.03.21 | Sandra

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Ele tinha sonhos. Todos os dias questionava as suas forças e fragilidades, sabendo que delas partiriam todos os caminhos, todas as suas vontades, os seus cansaços, as suas alegrias e celebrações. Ao fim do dia, desde sempre, ele sentava-se em frente ao crepitar da fogueira. Nas fagulhas que estalavam desordenadas no ar, ele via todas as estrelas do firmamento, todos os ventos que varrem a Terra, todas as grandes montanhas onde o ser humano jamais chegaria. E no dourado quente que crepitava ante os seus olhos, ele orava, sentia o coração fortalecer-se, a alma a pedir mais do que aquelas noites. Sussurros nas sombras que dançavam pelas paredes nuas em seu redor, diziam-lhe que havia algo maior, que na noite lá fora adensavam-se aromas libertados por eucaliptos e pinheiros ponteados de resina, que aves tímidas mostravam-se enfim, belas, que o vento era agora brisa cálida e que rios cantavam. Quando os sons da madeira a queimar se desvaneciam no ar, ele deitava-se, permanecendo acordado na cama acolhedora e coberta de interrogações. A manhã chegava e ele, o homem, abandonava-se ao lugar que lhe pertencia, sem dele se afastar mais do que um dia de caminhada. Aquele era o seu mundo. Ou pelo menos, assim pensava ele, na altura. Certa vez, com o sol ainda a elevar-se acima do pomar, passou à sua porta uma caravana, como aquelas antigas caravanas de comerciantes que cruzavam continentes. Ele trancou a porta e partiu com eles, feirantes, pareceu-lhe. Sim, ele viu que havia muito mais, mais que o lugar onde tantas vezes se perdera e reencontrara, sem nunca de lá sair; mais do que quem ele tinha sido até aí. Sentiu-se feliz, quase comovido com a grandeza de tudo, e com o libertar de tanto que deixava para trás. A meio do caminho, despediu-se dos companheiros de viagem, agradeceu-lhes, e caminhou para o sul, onde estavam as grandes extensões de areia, antes do grande rio. Olhou o azul do céu, as aves ao longe, o horizonte. Ali sim, era o seu lugar! Finalmente, chegava a si mesmo! Com um enorme sorriso, deixou cair a sua sacola no chão, arregaçou as mangas da camisola e começou a correr... correu pelas dunas, abriu os braços e sacudiu-os, para cima e para baixo, como duas asas. Correu com mais força, braços alados ao vento. Correu com mais força ainda!

Então o homem transformou-se em pássaro e voou!

TROVOADA

09.03.21 | Sandra

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Está calor, um calor repentino que cai de um céu cada vez mais escuro. O ar torna-se pesado, estagnado: nem uma só folha se move nas árvores adormecidas, nem uma só erva a abanar no jardim bem cuidado. E o silêncio sente-se como matéria, cresce, à espera de um desfecho inevitável. Não sei de ti, há algum tempo que não tenho notícias tuas. Tão perto e tão longe. Não te procuro, pois a busca tem que ser mútua, e na verdade, nem sei bem como chegar a ti, como alcançar o teu lado que me conquistou no início dos inícios. É como se uma parte de ti tivesse partido para longe, para lá da esfera do espaço e do tempo, para regressar a esses mundos de onde vieste. E a parte que ficou, é-me estranha, um outro "tu". Contudo, talvez ainda penses em mim, com amizade talvez. Nostalgia, quem sabe. Quem sabe...

Um trovão ecoa lá longe, demoradamente, e, em rápidos segundos, arrasta-se pelo céu todo, em todo o lado ao mesmo tempo, chega perto, um ruído ensurdecedor, como se o firmamento fosse cair por inteiro com um enorme estrondo cá na terra. Depois, o silêncio. Às vezes, penso em tentar saber de ti. Em tempos, ao início, houve como um reconhecimento entre nós, como um reencontro de almas que outrora haviam-se cruzado. Depois, uma ausência, um regresso, um eterno silêncio teu face às minhas palavras. Por fim, um afastamento meu, o cansaço inevitável face a uma espera demorada por respostas tuas.

Ouve-se agora a eletricidade a correr pelas nuvens negras, um som arranhado e baixo, lembrando o som que se ouve quando paramos junto aos enormes postes de alta tensão. E em menos de uma respiração, um relâmpago ilumina tudo à sua volta, um tremendo clarão, uma explosão de luz que ofusca e obriga a desviar do céu o olhar! Seguem-se mais relâmpagos, colados uns aos outros. Não sei o que estarás a fazer neste momento, nem sei sequer se estás bem. Mas quero crer que continuas feliz, como sempre foste, indomável entre desafios e escritas, entre os teus cigarros e divagações em noites despertas. Gosto-te, à minha maneira. Isso basta-me, o gostar.

Os relâmpagos pararam. Quando parece que a trovoada abrandou, cai subitamente o raio, feroz, rasgando as nuvens ao meio como uma longa espada de fogo, queimando o ar denso à sua passagem. E abrem-se finalmente os céus, deixando cair toda a chuva contida nas nuvens que se desfazem em gotas de água enormes, pesadas, que envolvem a terra dura e seca, lançando ao ar o aroma peculiar de terra molhada! Enquanto a trovoada se afasta, já satisfeita, a chuva acalma-se, deixa-se agora desfalecer lenta e leve, doce, macia, mostrando uma natureza brilhante, renovada. Saio à rua. Ouço um último trovão que se despede lá ao longe, o céu tranquilo. Como queria tanto um abraço teu! Imaginei-o muitas vezes, e agora não sei se consigo. Algo mudou quando partiste e eu esperei. Mas algo ficou. Fica sempre, não é? E os pássaros cantam outra vez, num mundo lavado e fresco, como aquele que fica após uma trovoada súbita passar.

RECEBE-ME

06.03.21 | Sandra

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Recebe-me no teu coração, inocente eu, no infinito silêncio das horas intermináveis. Deixa que o meu olhar se envolva em absoluto no teu e todas as palavras não ditas voem em nosso redor. Poderemos então trilhar um desconhecido abraço, daqueles que desbravam caminhos ainda não percorridos e que levam ao sentimento que paira solene no tempo. Solta o teu beijo impaciente em mim, que seja campo selvagem entregue ao impulso do sol da tarde, enquanto andorinhas voam alto. E toca-me, esta minha pele que te conjuga, que te chama em murmúrios perdidos, indefinidos. Se ainda não chegar, se ainda não for suficiente, abraça-me então de novo e, qual surfista do tempo, faz os ponteiros do relógio andarem para trás. Para quê? Para assim me receberes uma vez mais, tu que chegaste há pouco, que o tempo, esse, não se importa com o amor que se cumpre. No fim, de novo nós.

CÃO

04.03.21 | Sandra

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Ao cair da manhã no jardim,
retirada a trela,
esquece alegre a idade,
é cachorro outra vez.
Qual dono de tudo,
atira-se à vida, saltitando feliz:
persegue a sua velha bola,
o ramo atirado para longe,
a frágil borboleta esvoaçante,
a sombra da nuvem que passa!
Fareja amigos e rói brincadeiras!
E quando brilha de novo o sol,
com força por entre o vento,
lá vai ele de novo, língua de fora,
super-herói a salvar o mundo!
Corre louco, desenfreado,
rosna, coração a mil,
sem mapa, rumo ou destino:
pelo ao vento, orelhas a abanar,
e no focinho reguila,
um ar risonho, jovial!
Com um olhar brilhante de alegria,
a latir ferozes aventuras,
voa doido sobre relvados,
derrapa nas pedras da calçada,
patas felpudas que esmagam
trevos, malmequeres, túlipas.
E aves assustadas voam para longe!
Corre, pula, desaparece de vista,
e volta de novo, a arfar gargalhadas,
ladrando traquinices!
Mas no silêncio da noite,
é todo ele um coração que se dá;
sossega a doçura da idade
deitado na sua almofada
quieto, calado, despreocupado.
Rende-se às festinhas no pelo
enche os ternos olhos húmidos
de todo um amor sem fim,
e preenche ao humano a alma,
de certezas e risos!

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