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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

DISSIPAS-ME

30.05.21 | Sandra

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É cedo. O mundo dorme ainda. Passeio no silêncio do jardim calado, adormecido, nas horas novas da madrugada que se despede vagarosamente. Está frio. Pássaros e árvores dormem no brilho molhado das geadas que cristalizam delicadas formas que quero muito tocar. Não resisto a pousar a mão nas folhas de arbustos alheios à noite que já partiu no calar do tempo. Atrai-me a sua cor forte, em repouso na pálida luz. É uma claridade baça, opalina, uma humidade que faz realçar o colorido do jardim e liberta densos perfumes. Esqueço as horas que deambulam ao meu lado pelos caminhos recortados entre a relva molhada, parada. Só a manhã que chega mansa me arrebata, só aquele jardim silencioso e vibrante no gelo frágil me prende os sentidos, me conduz a mim mesma. Na água escura e parada do lago reflete-se a primeira claridade dourada do sol que sobe devagar, imponente. Sento-me no banco de cimento trabalhado em formas sóbrias. À minha frente despertam cantares das aves, flores, insetos, arvoredos, trepadeiras. E a luz esbranquiçada dilui-se no ar, cristais da geada criada durante a noite impiedosa quebram-se aos poucos, derretem, escorrem devagar por ramos e folhas, pingam para o chão. O frio dissipa-se enquanto o jardim se reinventa nas suas cores alegres e sons que preenchem o ar. Fazes-me falta ali. Também me preenches, também me arrebatas. Também me dissipas na cor forte que és tu, na luz dócil que te abraça e que quero em mim. Também sou geada quebrada na claridade baça, opalina.

SÍLABAS À SOLTA

25.05.21 | Sandra

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O café acabado de fazer espalha o seu aroma forte no ar. Lá fora sopra um vento gelado que verga as copas das árvores e arrasta folhas pelas pedras da calçada. Aconchego-me no casaco de malha que vesti após um banho quente e demorado, que encheu todo o espaço de um vapor insinuante, luxuriante.

Hoje é um dia sem compromissos e o café sabe-me ainda melhor. Decido escrever algo, sem ter ainda definida uma linha de pensamento. Gosto de escrever, leva-me a outros espaços, lugares íntimos, secretos, muito meus. Todas as pessoas têm o seu jardim secreto. Outros tempos, outras vidas, outros mundos. Mas nem esse mistério, o enigma ou o indecifrável passam para a escrita. No papel fica apenas o sóbrio, o concreto, o aceitável, o real e o lógico. Tudo isso é de quem me ler. O resto, é meu.

Gosto de escrever sobre algo que esteja ligado à nossa condição primitiva enquanto seres humanos. Gosto de escrever sobre a grandiosidade de tudo: a complexidade do nosso mundo, o universo, a noite que fala alto, numa voz clara, aos mares e aos desertos, onde as estrelas e a lua são tremendas e colocam-nos no nosso devido lugar, em harmonia com elas. As manhãs inebriantes e o sol alto do meio-dia que abre esperanças, os lugares que surpreendem e as suas gentes, cada pessoa com a sua própria história. A emoção das estações do ano envoltas nos seus ciclos, e os crepúsculos, aqueles crepúsculos, quando o vento se cala e tudo parece suspenso à espera de alguma palavra superior a todos nós.

E gosto de ti... como gosto de ti!  É algo que também faz parte desse meu mistério, o gostar de ti, o querer-te deste jeito que só eu sei.

Poderia escrever sobre tanto, sobre tudo e sobre o nada, cadernos inteiros cheios de letras, ou somente uma única palavra no centro de uma folha crua, em branco. Poderia escrever sobre tanto, existiria sempre o principal, aquilo que me derruba ou eleva: o sentimento. É sempre o sentimento que fica a planar entre as minhas linhas, no dito e no não dito, quando sílabas à solta se unem para criar todas as palavras do mundo.

Termino de beber o café e abro um pouco a janela, sentindo na minha pele quente o ar frio que vem da rua e entra pela malha larga do casaco. Tenho muito tempo hoje. Decido escrever. Sim, algo ficará no papel, com a minha letra desordenada e quase impercetível, livre. Também os sentimentos são, muitas vezes, impercetíveis, livres, misteriosos. Subtis, sublimes, transformadores, reveladores. É por isso que gosto tanto desse verbo: SENTIR. Uso-o para me dar à escrita, a ti e a mim, a Deus, aos que me são importantes, a este mundo que ainda hoje, apesar de tudo o que me revolta ou indigna, ainda me espanta! Sentir é afinal, ser. E somos humanos, afinal. Escrevo então. Esta sou eu, mulher-menina. Esta sou eu, Sílabas à Solta. 

ATÉ SERES VINHO

20.05.21 | Sandra

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Conheceste intimamente o solo que em silêncio te acolheu, ainda eras tu um pequeno enxerto de videira. Nele, as tuas raízes entregaram-se solenes e firmaram-se, apenas assim, confiando, aguardando. Discreto, o solo recebeu-te nele, aceitando com igual paciência a secura que endurece a terra, e a chuva que amolece e irriga os sulcos cheios de nutrientes.

No vagar dos anos que se apresentaram diante de ti, cresceste, tronco e ramos estendidos ao sol aberto no céu, às sombras frias de nuvens paradas, aos ventos que arracam folhas e cachos, e ao peso das geadas que chegam caladas. Na escuridão das longas noites que te acompanharam (quando insetos mordem e pragas atacam) agradeceste as mãos incansáveis que cuidaram de ti, ajudando-te a seres melhor videira.

E por fim, numa noite em que a lua brilhou enorme num céu maior ainda, sentindo o vigor da seiva que desliza dentro de ti, pressentindo o açucarado dos teus cachos, pálidos ao luar, compreendeste:

Um dia alguém iria brindar com o néctar produzido pelas tuas uvas, celebrando um final feliz, um promissor começo ou talvez, simplesmente, uma excelente safra que originara um excelente vinho!

Ansiaste então o momento da vindima, que sabias estar perto. O teu ciclo estava completo, finalmente. 

FORMAS

15.05.21 | Sandra

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Tudo o mais fica sem sentido. O  crepúsculo ainda pousa para lá da janela aberta, feito cetim que sustenta nos braços o cantar macio das aves que regressam às copas das árvores. O ar de fim de tarde faz-se leve, fresco, como uma manta onde se sentam os risos das crianças que brincam na praceta. Cães farejam o relvado e melros voam soltando recados à noite que está para chegar. Nada se move neste crepúsculo que parece cantarolar, a não ser pensamentos sobre ti.

É estranha esta visão do anoitecer, é como se te apresentasses a mim nos ecos das luzes que se vão acendendo um pouco por todo o lado, no perfume próprio do jardim que se recolhe à quietude do sono, nas vozes das pessoas sentadas nos bancos lisos do parque. Alguém liga um rádio e deixa a tocar uma música antiga, enquanto acende uma fogueira. No fumo que sobe alto para lá dos sentidos, revejo formas abstratas, sem forma. Conseguirias tu imaginar-me nesse fumo que se solta na friagem parada da noite, se estivesses perto? Verias tu, nesse ondular desperto, formas minhas? Mas nem sei onde estás, ou se vale a pena pensar nisso: são somente pensamentos que tombam sem sentido, em mim, enquanto se adensa no ar o cheiro da madeira que arde na fogueira crepitante.

A noite chegou agora em toda a sua magnitude. É hora de fechar a janela ao mundo e chegar a mim mesma, à hora do silêncio e do descanso. Quem sabe, talvez mais logo volte a pensar em ti, desta vez sem interrogações?

DIREITO

13.05.21 | Sandra

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Seguirás o teu caminho, pois a busca por algo maior é inevitável: sempre há sonhos que se fazem nascer, esperanças que se refazem em cada novo dia. E o Homem precisa de sonhar, ainda que por vezes deixe os sonhos adormecidos nas horas infalíveis da madrugada.

Mas ainda que sonhos fiquem guardados algures entre a noite e o dia, o caminho estende-se a ti, aguardando pacientemente os teus passos. E algures nesse caminho que é teu, o teu sonho chamar-te-á com uma voz que não serás capaz de ignorar.

Todos precisam de encontrar algo que dê sentido, que reconstrua partes, que complete, que traga novos significados às horas indecifráveis. Estamos cá para algo, certo? Dá os teus passos então, pois o tempo passa e precisas de chegar a ti para te reencontrares finalmente.

Contudo, os dias são pacientes: tens tempo, apesar dessa pressa aparente. Apenas não percas de vista o teu sonho. É teu, ainda que outros o não entendam, ou não devam conhecê-lo. Tens direito a tê-lo e a dar-lhe vida, tornando-o realidade dentro da tua própria realidade. Tens direito.

Nota: por vezes não nos é possível realizar este ou aquele sonho, mesmo que tenhamos estado muito perto de o conseguir. Mas há que reter algo: o sonho existiu, e tê-lo tido é muito importante pois nem todos conseguem manter a capacidade de sonhar. Às vezes a vida não o permite. Mas nenhum sonho é em vão. É sim, talvez a melhor parte de ser-se humano.

TEIA

10.05.21 | Sandra

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Prendem-se na teia sentimentos, o dito e o não-dito,
o pensamento distraído e absorto
de quem deixa a mente divagar
por espaços escondidos da alma.
É um reencontro de si mesmo,
chegar a lugares que ondulam como finos fios
tecidos num tempo e num espaço
alheios ao Aqui e ao Agora.
Não sei quem teceu tal teia,
crua, fina, nua,
em perfeito caos
que agarra segredos meus
deixados na luxúria das noites!
Mas não me importa...
olho subtil a teia,
deixo tudo fluir
em mim e em meu redor.
É a ambiguidade da força,
da fragilidade,
que cabe
em opostos que se atraem,
completam,
em complexos fios ousados
que não sei ainda
se prendem ou se libertam...
Deixo a teia entregue à luz,
aos seus mistérios
em horas impensáveis sem lugar.
Há-de resistir.

PONTE

06.05.21 | Sandra

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Assim és tu, ponte, uma carta de amor que liga uma margem à outra. Apoias-te em sólidos pilares que são como sólidas rochas, de braços abertos à força rasgada das águas que passam sempre por ti, sem saberem como parar. Perseguem embarcações, talvez..

Não te atravessam só gentes. Com o peso implacável das viaturas, atravessam também caprichos e humores, os vagares da passagem do tempo, toda a tua história e simbologia, e o imenso espanto de quem te conhece pela primeira vez, mesmo que te venha a amar muitas outras vezes depois.

E resistes, resistes sempre, boémia, marginal, inspirando poetas, fotógrafos, cantores, amantes e pintores.

Como ser de outra maneira, se tão bela és tu, e tão bela é a paisagem que te suporta, a panorâmica que te acolhe nas longas horas do dia? Ponte, duas margens de mãos dadas, tendo a teus pés a derradeira admiração e o espanto absoluto de quem te olha com os vagares de um caprichoso amor.

 

MAGNETISMO

01.05.21 | Sandra

 

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Patrulha as ruas e os rios, esta minha vontade de ti. E não te vejo. Vê-te a chuva que cai dócil e embriaga instintos que vêm de muito longe. Vê-te o vento quente que traz com ele o calor amante do deserto e te desfaz em desejos que te quebram por dentro. Vê-te a planície imensa que devasta as horas adormecidas na tarde, imensa ela também. E eu não, não te vejo, eu. Nem tento procurar-te em becos floridos de perfumes indecifráveis, onde guitarras descansam, deitadas, o fado; ou em bancos de pedra que namoram lagos brilhantes entre o grasnar dos patos e o baloiçar dos nenúfares. Tentei uma vez procurar-te em amanheceres, quando a vida desperta sonos que se desfazem na luz vibrante que chega. Em vão. Encontrei  apenas sólidos telhados que albergam histórias de outras gentes e ruas dormentes onde gatos se espreguiçam indolentes à beira da relva seca. Mas sei que andas algures por aqui. É uma certeza, um pressentimento íntimo feito de nuvens lentas e brancas que riem no azul firme do céu parado. A chuva há-de cair, novamente dócil. E então sairei à rua. Que essa chuva caia sem pudores sobre mim, me molhe cabelos e rosto, que roupas fiquem coladas ao meu feminino corpo, revelando formas e a certeza de ti. E quem sabe, enquanto me solto nas gotas leves das horas que tombam ao chão, te pressinta perto e saiba encontrar-te. Porque és enigma que me ronda e estreita nas palavras tuas. Magnetismo. E este querer-te, constante, invisível...