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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

PARDAIS

28.07.21 | Sandra

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Mandam nos espaços verdes, citadinos, enquanto saltitam e debicam entre as linhas cruzadas do dia que passa. Insaciáveis na busca do algo mais, são fidalgos do sol que abate a brancura das pedras das casas e dos telhados de cada nação. Solenes, mandam discretamente nas gentes que passam, e das quais se aproximam altivos e corajosos, para questionar certezas e horas. Conhecem todos os mapas das árvores de tronco rugoso, descascado, e escutam como ninguém todas as dúvidas de cada cão que fareja cimentos e preguiças. Procuram algo que nem sabem o que é, mas que serve, pode ser! Ouvem todos os segredos das ruas, dos jardins, dos parques, e espalham-nos em telegramas enviados ao vento que lhes atiça as penas humildes e calmas. Seguros de si, a chilrear ordens e prepotências, têm na despedida do dia lugar marcado nos ramos das árvores, as suas camas sem pena, na friagem da noite sem dicionário. Enquanto dormem são águias, falcões, grifos, condores. É no silêncio do dormir do Homem que todos eles se tornam Fénix, para depois, no dia novo, nos outros tantos, nomearem-se Pardais. São consortes das horas que nos amarram a liberdade divina, e sabem ousar no tão pouco que têm e que julgamos ser nosso.

SEM RUMO

24.07.21 | Sandra

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... e perco-me no sentido do nada remetido a tudo o que és!
Selada a frágil luz dourada
em angelical madrugada,
já as tuas mãos em mim conetam o meu corpo a outras esferas: 
mundos insondáveis,
de notas subtis, cristalinas.
Já desisti, já me rendi.
Sou tinir de cristal,
frágil gelo quebrado
em vibrações que me sobem
à altura de um firmamento
onde místicos,
gigantes deuses, habitam.
O teu olhar de mistério
há muito que arrebatou certezas onde forte me escondia.
De tudo o que ficou,
sorvo invisível embriaguez de alma, refaço-me sedenta do teu tudo.
Vou enfim, em mim, reencontrar-te.

Desvaneço-me atordoada,
escrava em desejos opalinos, imperativos que comandam ocultos
a roda primitiva da vida.
Que estrelas caiam!
Que torpores adormeçam vulcões!
Que vagas desfaçam rochedos!
Vences, imensidão feita olhar!
Em profundas, vastas planícies
como noite te passeias;
já nada meu quero,
nenhum eu que não tu,
fragata empurrada por silenciosos ventos vindos de longe.
Não treme ansioso
o meu corpo, teu,
no eco de palavras devoradas?
Submissa tua, finalmente,
derradeira paixão na Terra,
onde como bússola
em mapa teu me pousas.
Ama-me sem rumo.

TEMPO E FÉ

17.07.21 | Sandra

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Toda a certeza da tarde entrega-me a este único momento, em que o calor imenso me despe sentidos. Sinto em todo o meu corpo o ondular quente da água macia que nela me recebe. É como se fossem lentas carícias tuas perpetuadas no tempo, em mim. A luz opalina e a calmaria imensa deixam-me atordoada, como se levada a um outro lugar onde nunca fui antes, mas que sei seguramente ser meu. Intuição.

Movo-me devagar e sem esforço nas pequenas ondulações esquecidas da superfície mansa que me embala. Olho de frente o sol baço, escorrido de outros lugares, e que enche as águas de brilhos esbranquiçados. Penso que talvez já tenhas estado aqui antes, neste mesmo momento, numa outra dimensão caída de desabafos teus. Ou terei sido eu? Tenho saudades tuas, mas o ar denso e quente sobre mim diz-me que SE alguma vez for, é assim que deve ser, tudo a seu tempo, segundo as regras de algo ou alguém que está acima do meu conhecimento, da minha determinação ou desejos. Desejos... 

Volto a mim, a este lugar que parece ter sido afastado para longe do mundo e das suas loucuras, a este momento de exata entrega a um silêncio extremo, a uma sensação de paz que raramente sinto em todo o seu absoluto. Sou por ora todo o equilíbrio conjugado entre o calor, o céu baço e exótico que me abrange, a água parada e quente, da qual faço parte. Um momento de compreensão que está para lá do básico e do humano.

Guardo tudo o resto para quando um novo dia chegar, na normalidade desafiante que nos faz mais conscientes da nossa fragilidade e limitações. Hoje, submeto-me a mim, na certeza de uma plenitude que não está assim tão fora do meu alcance. Algo no meu íntimo diz-me: "Se consegues imaginar, existe de certeza...". Tempo e fé, é isso. Dás-me a mão e ficas aqui comigo?

PAUSA DA VIDA

15.07.21 | Sandra

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O regresso...

Férias. Perto, cercando ao alto a aldeia, montes imensos, cobertos de pinheiros, eucaliptos e calor impiedoso. Casas bem pintadas, adornadas nas suas cores, a brilhar vaidosas no branco brilhante do verão. Ruas empedradas, cheias de arbustos, flores e saudações, oferecendo recantos de sombras que abrigam gentes faladoras. O ar leve, impregnado dos perfumes das laranjeiras, dos limoeiros e dos fornos a carvão, onde cozem o pão típico e as cavacas. Os cães preguiçosos e os gatos presunçosos. O dia avança pelas lojas, a igreja, o jardim, os cafés animados, a praça de táxis. Penso vagamente em ti.

Reconhecimento...

A tarde que chega carrega nela um silêncio imenso, indescritível, palpável, quase irreal. Dentro das casas, fresco. Fora de portas, um calor insuportável que torna difícil respirar. Ruas vazias. Rebenta sem aviso prévio o zumbir ensurdecedor de todos os insetos, que abafam com a sua cantoria a hora dourada e estaladiça que escalda peles e paredes, os montes e as hortas, a ribeira quase seca, a barragem parada. Já não me lembrava que é sempre assim nos meses do calor. Agora, faz-se tudo presente, e é como se eu tivesse regressado a tempos de outrora, há tantos anos atrás. Que saudades!

Encanto...

O crepúsculo desce ainda muito quente, como um manto sobre telhados e ruas, poços, tanques, palheiros e currais. As gentes saem à rua para respirar a hora leve que há-de trazer a frescura da noite, arrefecer a terra, os caminhos. Conversas e risos. Lua em quarto crescente, alinhada com a estrela mais brilhante, num céu púrpura e rosa. Música algures. Um carro que passa e apita. Os grilos, as cigarras, os melros fazem-se ouvir. Vontade de amor... 

...

Hoje comecei novamente a sonhar contigo. Porque sim, porque quero, porque gosto de ti. Mais do que imaginas. Não estás perto, nem sequer das palavras que vou aqui deixando - e que não lês, apesar de teres sido tu a conduzir-me na escrita. Mas continuo a imaginar-te, a sonhar contigo. É assim que te trago comigo a esta aldeia onde sempre estive, e estou, mesmo durante os longos meses que me levam para a capital. Hoje sinto-me bem. E gosto de ti, muito, ainda mais um pouco. Amanhã? A vida continua, com tudo o que dela faz parte. Mas a fé no meu Deus ajuda-me imenso. Por ora, quero apenas a certeza destes momentos.

VESTE-ME EM RENDA

11.07.21 | Sandra

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No rescaldo do calor da noite, trago vestidas em mim palavras tuas que releio. Todas elas compõem agora a fina peça de renda transparente que me envolve, luxurioso toque à minha pele.

Os desenhos cruzados uns nos outros são letras que soltas na tua escrita, homem e mulher, bordados em complexos pontos e delicadas laçadas, o padrão requintado que quero em mim. Enreda-me em enredos teus, adorna-me de ti! Cria nessa forma tua de despejar ideias a mesma renda que te deixa adivinhar as formas puras do meu corpo.

São peças formosas, os parágrafos que teces, e que na noite visto, atrevida, para mais tarde despir sempre que escreves, sempre que te leio. 

CEREJA

08.07.21 | Sandra

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É este o tempo. O sol não se acanha e o vento já não tem mais flores para derrubar. Vamos por aí, os dois. Levarei cerejas. No vermelho que nelas se exalta e que levas à tua boca, prova em mim toda a sua vincada simbologia, toda ela feita quem eu sou. Deixemos vazar os minutos contados, fiquemos só eu e tu entrançados no beco de caprichos nossos. Conta-me: já viste uma cerejeira em flor? As cerejas sabem de nós, de um algo que se firmou em algum tempo recolhido ao secreto, ao oculto, ao que (ainda) não foi. Entre as nossas palavras perenes e silêncios vadios, cereja a cereja, reparto-as contigo. Prova-as: firmes, sóbrias, transparentes, decididas, carregadas de algo que ondula entre a luxúria e o inocente. Queres (-me)? Viciam-me, vicias-me! Um jogo: a cada cereja, uma palavra impregnada de significados. Vence quem conseguir ser cerejeira em flor, nesta altura em que andorinhas ainda caçam amores. E no fim do jogo, na última cereja, conjuga um abraço teu a mim, para que possa eu provar-te. Mais cerejas? Mais tu. Mil vezes sim!

VÊS ESTRELAS?

07.07.21 | Sandra

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Pressinto-te na claridade do céu pleno de estrelas. Talvez neste momento também estejas a olhar para elas. Acima de nós existe todo um outro mundo, imensidões tremendas, espaços negros onde só o aparente vazio existe. Mas enquanto me devolvo à serenidade fresca da noite, sei que há muito mais. Imensas estrelas presas na gravidade de uma galáxia que rodopia pelo espaço sem som. Distâncias incalculáveis onde planetas deambulam nas suas órbitas. Cometas que parecem balas disparadas no vácuo.

A noite é longa, e nada mais é preciso senão eu olhá-la e compreende-la. O vento toca-me devagar o rosto, o pescoço, a nuca. Prendo o  cabelo para melhor sentir esse afago, que tão bem poderia ser um beijo teu. O tempo deixou as suas pegadas perto de nós e partiu. Deixou-nos o obscuro, o oculto, a palavra não dita, o sentimento não pronunciado. Não tenho muito mais para te oferecer senão palavras minhas cheias do amor que é só teu. Nada mais a mostrar-te senão as minhas inquietudes e perceções. Não te darei mais que isso, porque tudo o resto já é teu, já te dei há muito. E o que não dei, é porque é meu, só para mim. 

Talvez tivéssemos caminhado pelos mesmos círculos, quando o universo se quebrava em brilhos e explosões. Talvez tivéssemos olhado um para o outro quando a vida chegou à Terra, antes de se  afastarmos de novo. E agora tens de mim o máximo que eu te posso dar. A noite olha-nos, entre nebulosas e constelações, entre histórias de Deuses ou cantos xamânicos. Nada somos de novo para a noite. Somos apenas dois seres decifráveis, dois, entre milhões. Com fraquezas, forças maiores, dúvidas, certezas, questões, vitórias e desistências. É isso que lembro à noite dispersa, que encontrará ecos nas planícies e cordilheiras onde ventos gélidos sopram com violência, arrastando tudo à sua passagem. Não desistirei de mim. Daí não ter mais do que palavras para te oferecer, daí eu sentir tão bem este momento entre mim e o silêncio do universo acima de todos nós. É nele que me liberto, no reconhecimento de algo imenso, um segredo maior que o mundo e os seus desafios. E a noite sabe do que falo. Talvez tu saibas também, se estiveres a olhar o céu. Quando a noite chegar e as estrelas brilharem, lembrar-te-ás de mim? Seguirás o teu caminho, eu sei, órbitas que passam perto sem se tocarem. Mas farás sempre parte do meu percurso, tu só, mais nenhum outro alguém. Nem podia ser de outro jeito, querido meu. 

JARDIM AO CAMPO

05.07.21 | Sandra

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Havia um jardim. Nem grande, nem pequeno. Teu, de toda a gente. Plátanos e palmeiras recitavam sonetos à sequoia e ao cipreste, enquanto o sol se despia no céu acima das copas imóveis
das árvores-de-fogo. No coreto sem tempo brincavam as horas que aguardavam a minha confissão (a ti, se te encontrasse...). Pelos bancos de madeira sentava-se orgulhoso o nome do professor-poeta, dado ao jardim do bairro que assistiu a paradas. No parque infantil explodiam as gargalhadas e os risos do imaginário das crianças,"Sou o Super-homem!", e pombos voavam para longe. A dama de estátua em pedra olhava agitada a minha busca por ti! (Se ela pudesse ter-me dito onde estavas tu...). No lago deslizavam entre os patos todas as minhas perguntas, respostas não conseguidas, o falhar da surpresa que te quis fazer: "Estou aqui!". 

Há um jardim. Conheceu-te, já te viu passar, feito brumas, talvez. Deixei-o para trás no centro do bairro que é Campo... Mas trouxe dos canteiros a sensação de teres caminhado comigo ao longo daquelas minhas horas mistas de busca e passeio, enquanto o quiosque, vagabundo como tu, espreitava-me os passos. Valeu a pena. E vendo bem, é assim que tudo deve permanecer. A incógnita. Jardim da Parada, talvez? Sim. Isso mesmo...