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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

MANHÃ! ESTÁS ACORDADO?

28.09.21 | Sandra

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Manhã minha
Tua
Da alma, da rua
Das gentes
Telhados,
Gaivotas e gatos!
Manhã que me acorda
Recorda,
Que pede
Chama
Arranca
Da cama,
Que envolve
Revolve
Devolve
A paz
Num dia mais!
Manhã
Que chega
No ladrar do Sol
Manhã de frescura
Palavras, ternura...
Manhã sou eu
Preguiça dura, e
Dura, a fé
Em Deus, em mim!
Manhã de ti...
Estás acordado?

LUGAR TEU

26.09.21 | Sandra

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Sei onde estás neste preciso momento: nessa clareira, onde a tua mente esvoaça para o alto, muito acima das copas das árvores, e a luz morna cai em silêncio na superfície fria do lago, onde criaturas que nunca viste se escondem da tua mente na escuridão profunda das águas.

Saúdas pegadas tuas de outros dias e sentas-te, sempre no mesmo sítio. Nas folhas abandonadas à friagem da terra fértil, perscrutas as letras que compõem os teus anseios e as tuas buscas por algo que te assombre, que te dê o sentido final de tudo.

Às vezes vejo-te aí, onde a vegetação se cala ao teu redor e cuidadosas sombras movem-se atrás das árvores rugosas e solenes, como gamos silenciosos. Respiras então a poesia na astúcia dos musgos que descem a encosta da Serra, e o piar de aves que não se veem ecoa junto com o estalar de ramos e das tuas interrogações mordazes.

Foi nessa clareira que certo dia te encontraste a ti próprio, num instante em que passaste a fazer parte do arvoredo que cerca a tua propriedade, das horas que constróis nas curvas sinuosas de Sintra, e do silêncio cansado que avança à tua frente até embater nas águas agitadas do mar do Guincho.

Encontraste-te a ti próprio, tornaste-te outono, e começaste a escrever ao longo do vagar imenso dos dias e das noites. A escrita é agora o teu lugar. 

EQUINÓCIO

22.09.21 | Sandra

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Outono boreal,
Ponto libra.
Move-se o sol
No subtil tracejado
Do descansar da terra.
Reparte-se a luz
Em significados místicos,
Nas sombras adocicadas
Que se alargam
Ao encurtar morno dos dias.

Estação de passagem.
Cores de nós rasgadas,
Rituais celtas
Que enaltecem o tom,
O perfume,
Cheiro de lume,
Floresta, musgo, relva,
Maré baixa, areia molhada...

Fragrância de palavras tuas,
Trazidas na friagem
Do desapego das árvores,
Que soltam à pausa do vento
Folhas de poemas
Já lidos, relidos.
Geadas que chegam caladas
No sono aconchegado das noites,
Beijam madrugadas em nevoeiro,
No meu afeto por ti,
Exposto, por inteiro.

Estação de transição,
Ciclo, roda da vida.
Colheita dos frutos,
Amores maduros,
Que incidem perpendiculares
Ao equador do firmamento.
Sílabas à Solta
Nos vermelhos lascivos,
Dissolvidos
No dourado quente do âmbar.
Equinócio,
Outono-nostalgia,
Folha vazia,
Mutação, 
Que se enche de nós
na maciez da estação.

DEDOS EM NOITE DE LUAR

19.09.21 | Sandra

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Noite. Lua quase cheia num céu estranhamente claro. O luar pálido entra em sussurros pela janela e deixa-se cair como uma melopeia sobre a minha cama, fazendo sobressair o branco dos lençóis. Leio-te com uma calma invulgar. Sem pressa.

As palavras parecem evaporar-se dos teus poemas para se deitarem comigo na hora calada. Por um truque da mente, sinto os teus dedos inquietos (esses dedos machos, escritores), a percorrerem loucos as ruas do meu corpo, traçando serenatas e despertando sinais nas vagarosas encruzilhadas.

Leio sempre, não quero parar. Não sei o que estarás a fazer neste momento, quando no alto do céu em silêncio longínquo a Lua e Saturno olham-se de frente, sem retoques.

Nem sei se entre as letras das tuas constantes dúvidas pensarás em mim. Mas eu leio-te, e com esse gesto tenho-te aqui entre os meus lençóis, como brumas que arrastam lendas e mistérios, desde as primeiras partículas saídas da grande explosão cósmica; ou como acordes vertidos de uma guitarra que acompanha uma tímida declaração de amor.

Não sei como consegues: a tua escrita conduz-me sempre a lugares que até hoje eu mal conhecia, mapas dobrados em gavetas há muito tempo fechadas. Leio-te, e nunca sei o que determinar, o que concluir. Apenas aceito o sentir que chega a mim com a pressa de um telegrama, apenas acaricio o traduzir e soletrar desses dedos teus que escrevem, que conjugam todos os verbos que esta noite arrepiam a minha pele tocada também pelo luar, num misto de desejo e quietude, ausência e presença.

E os teus dedos vagabundos na noite, da qual és o senhor, tornam-se os meus, na poesia tua que leio e que me percorre o corpo em êxtase. Mas tu não sabes...

FIM DE SEMANA

17.09.21 | Sandra

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Tempo de repouso. Celebração. Para já, arrumo incertezas e orações, tudo fica para além da janela aberta à placidez da praceta e da cadência da música que toca baixinho atrás de mim.

Desce no meu íntimo a serenidade da hora, enquanto o fumo do café acabado de fazer sobe, indiferente às pressas finalmente desfeitas, e à sensação de tempo que agora roça a minha pele. É este o momento de esquecer ponteiros do relógio, esclarecer a simbologia do descanso, despir do corpo todas as roupas e afazeres. Objetivos primeiros: pousar dúvidas e promessas, inspirar as cores quentes da tarde que se abastece de folhas a abanarem à brisa morna, e sorver o ameno do dia dividido entre o balançar das estações do ano. Depois, apenas o clássico sabor de não ter obrigações a cumprir. O adágio de um banho de imersão, um gelado, um filme. Apenas isso e pouco mais, dentro da minha fé e do que realmente me importa.

Até porque a noite há-de chegar, feita criatura amante cheia de segredos e gestos simbólicos, insinuações com sabor exótico. E aí sim, sentirei todo o peso da leveza que se costuma sentir quando a sociedade não nos chama, e somos apenas seres de um universo ainda em fase de expansão e descoberta. Amar-te-ei mais um pouco então, no resgate da noite marginal e absurda de estrelas, lua em quarto crescente rasando o oeste e desejos.

Mas isso, será logo! Agora, apenas celebro feliz os adocicados afagos do descanso do dia, no requinte nu da alma aberta em riso ao mundo.

ALEGRIA, DANÇA

15.09.21 | Sandra

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Há caminhos feitos
do teu nome traduzido
em sombras quebradas,
o despir da luz que escorrega
do sol presente, cuidado...
Percursos onde se devastam
formas, cores,
despem-se barulhos, cheiros,
significados indecifráveis;
quando vagos pensamentos
alinham-se, alinhavam-se
e acomodam-se empolgados
ao vento que não sopra,
à chuva que não cai,
ao momento cercado
por passos soltos que dou!

Há caminhos simétricos 
pelos quais passaste,
e voltarás a passar,
deixando o mistério imparcial
das grandes palavras sem som,
quando fervilham
os minutos sem pressa,
onde se esticam
as curvas adormecidas,
no vasto ecoar transparente
do passar dos dias.

Há caminhos que apetecem,
ficam, fazem-se,
conduzem
às incógnitas disfarçadas
de nada e de tanto,
onde o final desapegado
é início,
descoberta, entendimento,
onde estás sempre tu
(origem e finalidade)
feito constante recomeçar meu
em alegria, dança.

REAIS, COMO TU

12.09.21 | Sandra

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Sinto-te novamente parte dessas brumas que parecem ter-te acompanhado de muito longe, até ao aqui e ao agora, para depois, quando finalmente te tinha reconhecido, levarem-te de novo para longe, com elas. 

Em tempos chegaste altivo, Vagabundo assumido como o último dos últimos. Falaste-me em mundos que eu não conhecia, onde tu foste como haragano místico, e narraste-me vidas tuas, pertenças de tempos passados, lutas, reviravoltas. Vitórias. Escreveste palavras que, para mim, eram feitas de novos e ocultos significados. Aprendi a conhecê-las, e achei-te belo.

Desde então vejo-te passar ao longe, levado pelo rumo de uma órbita que te carrega no seu percurso pré-estabelecido desde tempos místicos, e que nunca te deixa chegar perto de mim. Ainda assim, de longe, sem o saberes, abraço-te sempre, quando os dias se enchem de brumas que me rodeiam e cativam. Associo-as à tua chegada aos meus dias.

Gosto tanto de ti, bandido bom...

Mas jamais ousarei interferir na ordem natural das coisas, que se deve manter sóbria, serena, equilibrada - porque há coisas que são como são, e não devem ser remexidas, por serem tão reais.

Reais, como as borboletas que ainda voam sob a minha janela, desde aquele verão em que te falei sobre as sílabas da palavra Amor.

Ou reais como as andorinhas que parecem caças F-18, nos seus voos aerodinâmicos que anunciam primaveras e remetem à infância. Reais, como as nossas vidas reais. Reais, como tu, que mesmo sem o saberes, continuas parte do meu presente.

POR MAGIA

10.09.21 | Sandra

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Desenha-me
na tua folha
de papel branco, liso,
sentido;
desenha-me
nua, crua, tua!
Traça os meus traços,
desejos, abraços,
pedaços,
nas paletes tuas
e pinta-me
com as cores que tu quiseres!
Azul céu, mar seda de oeste;
amarelo girassol, tom mulher;
verde folha, campo poema;
vermelho cereja, sílabas à solta;
branco, vasta cama ao sol...

Define tu as cores
e pinta-me
tu, que me desenhaste,
simbólica eu, por inteiro,
alfabeto primitivo, o primeiro,
nas cores do tudo e do nada!
Olha-me depois nessa folha
que tu usaste em infinito;
pega-a agora em dedos teus:
dobra aqui,
vira ali,
vinca o papel
na forma de um avião
e lança-o do alto, ao alto!
Verás:
no calor bruto do dia 
serei tua,
por magia!

AOS POUCOS

08.09.21 | Sandra

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Há muito que a noite quente tinha enchido de estrelas e poesia a superfície lisa do lago. Quando os ponteiros do relógio marcaram a hora certa, traças voaram como folhas de árvore ao sabor da brisa morna, e eu soube que estarias lá à minha espera. Era como algo estipulado entre nós desde tempos primordiais, quando os dias começaram a ser contados e linhas retas encheram-se de letras nossas.

Com um olhar de reconhecimento maior, deste-me a mão para me ajudares a chegar mais perto de ti. Quando a noite nos acolheu na sua plenitude, falaste-me de todos os lugares por onde andaste, e de interpretações que foram nova música sob a tua própria escrita. Soube então o teu sentido pleno, cheio de infinito, e esqueci significados aprendidos até então.

Nada mais contou senão o abraço nu que demos e que se estendeu como poema ao universo em expansão; e o beijo, que durou até os corpos serem um só e a lua mudar de fase. A noite parou por fim o tempo, projetou astros sobre os círculos desenhados por nós na água tépida, atirou para longe questões que não necessitavam de respostas. Sem pressa, ficamos em silêncio a olhar o mundo acontecer. Era a nossa magia que se desenrolava aos poucos perante nós.

REFLEXÕES À TARDE

05.09.21 | Sandra

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Tarde cinzenta, de muito calor. Um vento seco sopra com força, num de repente sem sentido. As folhas das árvores estão agitadas, barulhentas, pressentindo a trovoada que está para chegar.

Chegaste tu, antes do ribombar do trovão. Sem um aviso prévio surgiste, uma simbiose perfeita que se arrastou por entre sílabas nossas, e que alterou a sequência do tempo, levando passado, presente e futuro a tornarem-se um só instante.

Vieste sim, antes de qualquer trovoada, e eu dilui-me nos traços teus que foram abreviaturas rabiscadas em mim. Se eras a poesia, seria eu a prosa. Então, sem saber bem como, entrei contigo numa espécie de realidade paralela, que nos transporta desde aí a espaços insondáveis, o lugar primeiro de onde partimos e ao qual queremos sempre regressar, onde se perdemos e encontramos na singularidade alternada da nossa escrita.

O vento parou abruptamente. O ar está pesado, estagnado, interrogativo. Relâmpagos sem som desenham o céu indefeso. Um silêncio imenso abarca o momento em que a chuva cai e quebra o calor selvagem da tarde.

Mas o calor que transcende tudo em mim és tu, e esse permanece ainda. Fazes-me lembrar lugares imensos e distantes na noite, vastidões forradas de estrelas que se misturam umas nas outras quando o amor acontece e aves noturnas piam.

Um dia talvez sejamos capazes de interpretar as entrelinhas abrigadas nas letras que trocamos. Até lá, temos realidades que nos absorvem em si, deixando aos poucos algo a ganhar significado num outro espaço, onde a palavra escrita por cada um de nós é realidade também. 

A chuva parou.

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