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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Se Tiver Que Chover, Que Chova

26.11.21 | Sandra

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E se tiver que chover,
Que chova!
Que do céu cinzento
Interrogativo, calado,
Chovam poemas antigos,
Tempos distantes,
Músicas de outrora!
Que se soltem odores
E se abram cores
Na superfície dos meus sentidos
Que inocentes a ti se rendem.

Se tiver que chover,
Que chova!
Que a chuva seja gradação,
O derradeiro toque teu,
(Convergente, divergente)
Que escorrega habilidoso
Por esquinas minhas 
E ruas sem nome,
Neste meu corpo de menina-mulher 
Que não precisa de mapa ou bússola
Para saber que perfume
A terra liberta no ar
Quando a chuva a molha;
Ou que aromas trazes tu
Dos céus e trovoadas
De lugares longínquos,
Onde um xamã celebra a dádiva da vida...

Se tiver que chover,
Que chova!
Chuva promiscua, insolente,
Atrevida, obediente!
Que pássaros cantem
E trevos brilhem
Nos relvados cerrados
Ou entre as pedras da calçada!
Que se pintem telas,
Se escrevam sonetos,
Que amantes se declarem! 
E que a chuva sejas tu
Em toda a tua dimensão,
Sílabas precipitadas em mim
Num lindo dia de amor indefinido!

Hora de Mim

19.11.21 | Sandra

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Agora anoitece depressa. Num instante os dias ainda quentes perdem-se no crepúsculo e dão lugar à noite imensa. Fico uns minutos à janela a observar a praceta, enquanto me delicio com o aconchego de um casaco de malha e um café quente, acabado de fazer.

Hoje não se veem as estrelas. O céu parece mais baixo e parece forrado de flanela. Está tudo muito silencioso. Normalmente a esta hora, sob a luz dos candeeiros de rua, ainda brincam miúdos no parque, ainda estão jovens a jogar às cartas nas mesas de piquenique, e ainda os seus cães se divertem a esmagar folhas secas e a roer troncos caídos no relvado, enquanto pássaros barulhentos procuram um lugar para pernoitar.

Mas hoje não, está tudo muito silencioso, como a lua imensa no céu calado, de onde não vem nenhuma resposta. Penso em ti e como seria estares ao meu lado, nesta janela que tão bem conheces das nossas conversas ao longo de tanto tempo. Falaríamos das grandes cidades que estão para lá do oceano que se avista daqui? Dos desertos imensos e das tribos nómadas com os seus rituais e crenças? Do colossal universo e dos seus mistérios para lá da neblina rosada que tapa o firmamento? Falaríamos de poesia, de como se constrói um soneto ou de como realmente se escreve a palavra Acreditar? Começa a ficar frio e cheira a terra molhada, a relva, a madeira a queimar numa lareira. Lembro-me de algo que te disse ainda não há muito tempo:

"Os cheiros fazem milagres. Por eles te perdes, por eles te encontras. Queres encontrar-te? Perde-te!, ainda que essa ideia assuste um pouco, pois o desconhecido assusta sempre. Mas se tiveres medo, tem! E se tiveres que admiti-lo, admite. Isso é ser corajoso!".

Gosto tanto de ti! Na certeza das nossas certezas, fecho finalmente a janela e dou por terminado o meu dia. Agora é hora do conforto pleno, do descanso, de reforçar a fé e temperar sonhos. É hora de saborear tudo o que de bom o outono traz e saber agradecer. É hora de mim.

A Cidade Não Leva a Mal

13.11.21 | Sandra

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Hoje não há brumas,
Nem limbos ou etéreos!
Vem então, que eu estou perto!
Passeia comigo,
Caminha a meu lado
Por ruas pintadas de sol,
Caminhos estreitos
Cheios de cor e janelas abertas,
E dos odores de flores,
Ervas aromáticas,
De roupa lavada,
E comida ao fogão...
Vem!

A cidade é tua, mostra-ma:
Conduz-me por vielas de fado,
Bairros famosos,
Jardins vaidosos (o teu?),
Becos e pracetas,
Onde gatos se espreguiçam
Sob as mesas de ferro
Das esplanadas alegres.
Mostra-me por onde andas,
Que varandas e beirais
Te veem passar,
Em que colinas te perdes
Ou te encontras de novo,
Quando és feito de soneto!
Vem,
E até que a noite chegue,
Leva-me contigo
Onde houver histórias,
Caprichos, encantos, lendas.
E depois dá-me a mão...
Ou um beijo!
É outono, a cidade não leva a mal!

Lugar Teu

08.11.21 | Sandra

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Que venhas com a chegada do silêncio das estrelas, com os ciclos lunares que regem marés, com os dois grandes planetas que percorrem juntos o céu ao lado da lua branca. Que tragas os cheiros crus da maresia, da terra quente e amante, do dourado imenso dos campos adormecidos no tempo, e que te deixes ficar na minha noite, que é tua também. 

Fica, fica sempre, entre histórias de outras vidas, canções que se perderam no nevoeiro como barcos-fantasma, símbolos esotéricos carregados de significado, sonetos cantados ao som de uma guitarra, enquanto ao longe o farol brilha. Fica, e sê.

Sê, sê cada cor que eu der à noite, quando todos os seres da noite se calam para olharem as constelações acima da humanidade, das suas crenças e das suas lutas. Sê o riacho que atravessa as hortas férteis, escuras e frias sob o quarto crescente. Sê o compasso de espera antes do fogo-de-artifício, e do beijo que se dá quando o amor se cumpre. Sê brumas, as que vieram contigo de longe, e que ainda hoje me falam de ti, porque eu assim o quero. Sê tu e fica, mesmo quando a noite deixa para trás brilhos e luxúrias, e se transforma num dia simples, cheio de sol, como o de hoje.

A noite há-se vir (vem sempre!), e continuarás presente nela, porque é nela o teu lugar, na noite sóbria que te traz a mim, e na qual eu te deixo sempre ficar. Pois se é lá o teu lugar!

Encontro no Café

02.11.21 | Sandra

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Permanecemos na luz branca e dócil que abraça o salão, enquanto lá fora, indiferente à nossa conversa, a vida prossegue pelas ruas atarefadas do dia novo, ainda sem dono.

De tudo falamos: de mistérios que não se podem explicar, porque só podem ser sentidos por quem consegue lá chegar. De palavras singulares, translúcidas, tão carregadas de poder que não devem ser pronunciadas, apenas vividas no instante imediato, antes que o tempo se vá embora. De momentos que devem permanecer resguardados dentro da força de algo maior, ou da hora limpa de uma manhã esta, que promete ser infinito. E da certeza deste nosso encontro que é reencontro, como chegar a um lugar pela primeira vez e sentir que nunca de lá se partiu.

Para lá da cumplicidade das vidraças mudas, risonhas, tão cheias do nosso imaginário, as ruas arejadas. Carros, peões, fumo, odores, barulho. E todas essas ruas ficam dentro de nós. No fundo, só nós sabemos por onde andamos na hora do regresso a nós mesmos. Nós e Deus. E o encontro ganha maior sentido.