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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Recados Que Te Deixo #1

27.01.22 | Sandra

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Nessa tarde, por breves instantes, consegui ter um vislumbre do teu mundo escondido da luz do dia e dos olhares dos outros. É nele que te encontras sozinho perante a melancolia das tuas recordações, o ribombar das emoções, a ousadia dos sonhos e a liberdade da imaginação. Um lugar de pertença e reencontro, um espaço só teu, como o teu mar do Guincho.

O recado que te deixo é este: não há problema em teres esse teu mundo secreto, todos temos uma dimensão assim. É isso que salva a nossa lucidez, e atenua o cansaço ao fim do dia. Ou nos impele a ter novos sonhos, e a ousar realiza-los. E se pensares que já não tens idade para grandes sonhos, lembra-te: o sonho pertence a quem o cria, logo, tem a dimensão que lhe quisermos dar! Por isso, se for tua vontade, nenhum sonho que tenhas será pequeno.

Todos temos um mundo secreto onde sonhos se constroem. Mas nem todos sabem disso, ou apenas não conseguem lá chegar. Outros chegam, mas depois não sabem de lá sair, porque nele têm o que não encontram no mundo real, esse lado exterior da alma onde é tão fácil derrapar como se o chão fosse gelo, quando o que apenas se quer é caminhar placidamente pelo passar dos dias.

Confessaste temer que esse mundo de sonhos e imaginação se estivesse a fechar para ti. Mas crê, se lá estiveste antes, saberás encontrar o caminho para lá regressares não uma, mas as vezes que quiseres! E então poderás dissecar ideias e sentimentos, fazer as perguntas que devem ser feitas, ter acesso às respostas que devem ser encontradas. Ou, se te for mais fácil, simplesmente deixar ir...

Quero que te recordes disto: cada um é como é, com as suas forças e limites, audácias ou ambiguidades, afinal, só cada um é que sabe em que tom o seu coração bate. Mas a partir do momento em que esbarras na certeza de que estás a fazer o melhor que te é possível, na medida das tuas forças e circunstâncias, maior se torna o teu direito a teres esse mundo secreto que visitas quando a tua alma fica inquieta, ou o teu coração se agita. Não faz mal ser-se pequenino de vez em quando!

Começaste a rir, aliviado. Demos então pelo frio que nos picava a cara e as mãos, e fomos beber o tal chocolate quente...

Os Bons Mistérios

19.01.22 | Sandra

ce643bc33f7e66983bbd4dd16989f623.jpgHá mistérios que chegam na hora certa. Trazem com eles o espanto das coisas belas e as certezas que só raramente são alcançadas. Às vezes, uma única vez em toda a vida. São aqueles que ainda hoje percorrem com a sua própria calma toda a vastidão do universo que nos acolhe, e que jamais serão decifrados. Deus e a fé. O sonho, a intuição, as coincidências. O espanto e o deslumbre. O poder, o amor sob todas as suas nuances, e tudo o que vagueia entre a ciência, a metafísica e a religião.

Há mistérios que libertam, evocam notas musicais sob os vários comprimentos de luz, invadem a mente, e trazem neles sonhos já esquecidos no tempo. Têm formas incógnitas ou subtis, e elevam-nos a uma consciência maior, que reconhece o poder das pequenas (grandes) coisas, e que nos fazem felizes. Pode ser um sorriso imprevisto de alguém que se cruza connosco, uma música que desperta lembranças, um delicioso cozinhado a fumegar à nossa frente, um nascer-do-sol sobre uma cidade imensa, ou um pássaro que saltita perto dos nossos pés.

Os mistérios estão por detrás e para além de tudo. Talvez seja por isso que permanecem sempre, quando tudo o mais se torna passageiro e some. Talvez seja por isso que têm o poder de transformar um dia sem sentido, num dia delineado com todas as aguarelas que existem, e que trazem nelas um pouco do que és. Afinal, foste tu quem os criaste há tanto tempo: os mistérios, os bons... 

Para Quê?

14.01.22 | Sandra

20210904_185932.jpgRecebe-me inocente no infinito silêncio das horas sem fundamento.

Deixa que o meu olhar se firme no escuro absoluto do teu, 

E que todas as palavras-chave não ditas desmoronem sobre nós.

Poderemos então trilhar um abraço que tudo abarca,

Daqueles que desbravam caminhos de tempos antigos,

E que levam ao sentimento que rasga poemas ao meio.

Impregna depois um beijo teu impaciente em mim, 

E deixa-o ser campo cru entregue ao avançar das estações,

Enquanto melros se encolhem perante o rigor do inverno.

Desliza nesta minha pele que te conjuga,

Que te chama em sussurros sem pressa.

Se ainda não chegar, abraça-me outras tantas vezes,

E proíbe o tempo de avançar.

Para quê?

Para assim me receberes sempre,

Que o tempo, esse,

Não se importa que algo maior do que ele aconteça!

Obrigada SAPO!

11.01.22 | Sandra

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Hoje tive a enorme surpresa de verificar que a mais recente publicação por mim aqui partilhada foi colocada em destaque. Refiro-me a "Balanço Feito".

Não escondo que mais do que admirada, senti-me muito feliz e muito grata, até porque o que aqui deixo são, como costumo dizer, simples rabiscos.

Assim, de forma muito sincera, quero agradecer a todos: 

- à equipa do SAPO blogs que, embora de forma indireta, permitiu-me desenvolver (e manter) o gosto pela escrita;

- a quem decidiu que o "Balanço Feito" merecia ser destacado;

- aos leitores que vão acompanhando o que aqui escrevo;

- e a todos os que partilham algo neste espaço social, tornando ainda mais dinâmica esta fantástica "sala de convívio", e permitindo-me, ao mesmo tempo, encarar de forma mais positiva os desafios próprios da vida, do dia a dia. O tal avançar...

Muito obrigada!

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Balanço Feito

10.01.22 | Sandra

 

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Agora alguns miúdos brincam na rua, as suas vozes altas e agudas pautadas por risos misturam-se ao ladrar dos cães que correm atrás da bola. A hora avança. A minha respiração está mais leve e pausada, sinto o meu corpo fresco e, imersa no jogo de luz-sombra que me acolhe no quarto onde me encontro, estou serena, tranquila.

Faço um pequeno balanço destes dias que passaram e dos que se seguirão. Repenso tanto de mim: as minhas fragilidades e capacidades. O que me torna ansiosa, e o que me faz sentir mais forte. As minhas limitações e as possibilidades que se apresentam pela frente. Os receios que me acompanham, e a minha tremenda fé no meu Deus. Tanto ainda a alcançar, tantos desafios a ultrapassar! Talvez eu avançe muito devagar. Mas avanço, e é essa a certeza que me move, tendo por objetivo final a paz - a minha e, principalmente, a de quem me importa. Se estiverem bem, eu também estarei certamente.

A tarde está a ceder devagar, mas de forma notória, as suas horas ao crepúsculo. Decido ir fazer um café e com essa bebida que evoca o exótico, fazer mentalmente um brinde em jeito de agradecimento:

Foi apenas mais um dia normal. Que bom! Obrigada meu Deus, obrigada! 

 

Sinto-te

05.01.22 | Sandra

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Chegaste um dia (há tantos anos!) e tenho hoje a certeza de que és tu quem faz parte dos sonhos que tenho antes de adormecer. Talvez já o tivesse pressentido daquela vez em que caminhamos sem pressa pelo areal selvagem desse Guincho, que é como se fosse teu; ou no outro dia, em que percorremos Sintra - os lugares, as lendas, o seu lado místico que ainda hoje pousa nas tuas horas de sono e te guia por recordações que julgavas perdidas.

Traços teus tecem-se agora em estados de alma que não afasto de mim, e que nessa viagem pelo sossego da noite salgada que é nossa, a todos gravo no papel. Sinto-te, e sentir-te é partir para outra dimensão para além de tudo o que é comum no meu momento atual, e que encontra a sua razão de ser no escuro dos teus olhos. No fundo, sou eu, apenas eu, mulher, menina, toda estrela cadente destinada a cair com mansidão sobre o teu corpo maduro feito de infinito.

Um Cão

03.01.22 | Sandra

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Saltita o cão entre as horas novas de um ano também ele novo. Ignora a data impressa no jornal pousado no banco, ao lado do seu humano. Ignora as decorações penduradas nas janelas e na rua, bem como toda a azáfama fora do normal à qual ele assiste à sua volta. São coisas que ultrapassam a sua condição, e não lhe dizem propriamente respeito.

Prefere percorrer em corridas alegres os caminhos que o levam até outros patudos, seus amigos, para juntos passarem horas a perseguir pombos, ou a descansarem ao sol encostados uns aos outros. Prefere ver os dias tornarem-se de forma silenciosa, demorada e quase impercetível, maiores. Prefere cheirar os aromas intensos que os loureiros e eucaliptos soltam à sua volta após uma grande chuvada. Gosta das coisas simples, bem ajustadas ao seu espírito brincalhão e contemplativo. Coisas que, como ele, adaptam-se gradualmente à passagem das estações ou à fase da lua, e não a números que marcam uma data.

Às vezes fica meio ausente, disperso nos seus pensamentos. É quando as boas lembranças vêm de um secreto lugar entre o coração e a mente, trazidas repentinamente por algo que despertou a sua atenção. O seu semblante torna-se sério. Mas logo passa. Recompõe-se, e depressa volta à sua realidade concreta. Porque o patudo sabe que novas lembranças são construídas a cada instante, e também essas podem ser boas. É uma questão de viver reconhecendo, valorizando e agradecendo as coisas simples e humildes. São as que realmente contam, por serem as mais verdadeiras.

É como com os humanos... esses, os simples e os humildes, serão sempre os melhores, mude o ano as vezes que mudar! O patudo sabe disso, é sábio. Sabe muitas outras coisas! Por isso, com a língua de fora e orelhas ao vento, dá atenção apenas ao que merece ter a sua atenção, relativiza o resto, e saltita despreocupado entre os números de datas ou horas. A sua realidade é essa.

Nota: mais cães em https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/cao-85235