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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Derradeira Confissão

26.04.22 | Sandra

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E não preciso de nada mais,
Mesmo se eu fico
E tu vais!

Desde que haja um retorno,
Dormir e acordar
No meio de um sonho,
Entre abraços teus
De cores estivais,
Risos nascidos
Em palavras banais,

Desde que a dança se dance noite fora,
Deixar a pressa cair,
Partir,
Ir embora...
Algo bom enfim chegar,
Apenas, e só, para ficar,

Não preciso de nada mais!
Pois sei que voltas,
Mesmo se vais!
Na derradeira confissão,
Sou toda eu abandono:
Se esta alma é de Deus,
Do meu coração, és tu o dono.

Recados Que Te Deixo #3

20.04.22 | Sandra

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E o mar já não fala de ti. Apenas se consome secretamente em recordações tuas, que foi acumulando em cada onda quebrada no areal maduro.

O céu também parece ter mudado: não procura mais ver-te caminhar pela praia imensa e gélida, nem tenta vasculhar os pensamentos que deixaste imersos em cada pegada gravada na areia lisa. Se lhe pergunto por ti, ouço apenas um eco que se arrasta cheio de nada. Um nostálgico vazio preso num grito de uma gaivota.

Aquela árvore lançada à praia num dia de tempestade ainda lá continua. Numa tarde de inverno, sentados no seu tronco gasto, disseste-me que muitas vezes eras de novo criança. O recado que te deixo é este: ficarmos crianças apesar do avançar da idade, é um tremendo luxo! Isso implica mantermos a capacidade da descoberta, do espanto e do deslumbre. Da envolvência e do acreditar. Do acertar sempre, mesmo quando se erra. É seres completo contigo mesmo, sabendo que há muito mais para além do contabilizável. E isso, meu caro, não é só poesia: é um modo de vida! Sê grato então, és um felizardo! 

O mar e o céu prosseguiram com as suas vidas, apesar da tua ausência. Mas o vento, esse ainda é todo ele feito de pedaços teus. Em certos dias sacode o mundo, parece querer derrubar as barreiras do som ou da velocidade da luz, para arrancá-lo dos seus eixos; noutros, passeia-se suave e gentil, como o canto distante de uma sereia.

O vento tem algo teu, é por isso que nunca lhe escondo as palavras que eu e tu trocamos regularmente. Nesses momentos, é como se estivesses perto, e a praia fosse resgatada por ti, tornando-se novamente tua. Tal como eu.

Primordial

13.04.22 | Sandra

20220413_092710.jpgÉ primordial esta chuva que se impregna dos apelos que te deixo,
na manhã ainda inacabada. É esta a hora do tanto querer, e a chuva conhece-me bem. Também tu. Sabes o que este corpo meu insinua quando decompõe devagar o teu nome, e quer tornar esta espera inocente num apressado começo. Eu e tu.

Mas para já, sou toda da chuva. Autorizo que ela me deixe ser alvorada e areal, bússola e runas antigas que caem cheias de segredos teus. Aceito que a chuva seja linha traçada sem pressa na brancura da minha pele nua, que é mapa teu, e que anseios se soltem dos meus lábios como fagulhas de fogueiras acesas na praia, em noites quentes de verão. E o meu corpo inocente é rebelião, é ele quem manda, comanda e devora cada gota de chuva que procura saciar-me.

Mas quando a chuva passar, vem tu, por favor... Tu sabes, há outras forças também, primordiais como fotões, e poderosas como a gravidade ou o magnetismo... vem depressa, então. E se a chuva voltar, deixemo-la incendiar suspiros indomáveis e vontades agrestes na hora do desejo. Que a chuva é minha aliada, sem dono nem sono, mas dona de mim.

Sem Cartas na Manga

08.04.22 | Sandra

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" (...) Não tenho varinha de condão... mas fecha os olhos. Sentes a brisa? Sou eu..." 

Costumas pensar o mundo como se ele fosse as linhas da palma da tua mão, e foi com essa postura que um dia, há tantos outonos atrás, chegaste a mim, transcendendo tudo e todos. Gostei logo de ti...

Um dia falaste-me de amor, e de outras coisas também, palavras que ainda hoje, em noites de lua escondida, percorrem como motas de alta cilindrada a estrada que termina repetidamente no Cabo da Roca, uma e outra vez. Não há outro caminho, pois não?

Não há...

Mas hoje, exatamente hoje, rumas à "Cidade Berço" do nosso país, onde nasceste tu também, para lá residires por tempo indeterminado. Levas nas malas o teu mar agreste, o cheiro das rochas e das algas quando a maré baixa. Levas na mala as curvas da estrada que serpenteia Serra acima, em direção ao Palácio e à Lua, escondida pela vegetação secular e selvagem, que forra as encostas.
Levas na mala os teus longos serões, quando questões políticas do mundo eram discutidas com fervor, a arte e a cultura acompanhavam um bom licor, e o teu bom humor fazia parar ponteiros do relógio, sempre que falavas sobre as celebridades que faziam parte dos teus dias, ou dos filmes de excelente qualidade que tu dirigias.

Tudo o mais fica para trás, e aquele lugar tão cheio das tuas histórias, luxos, caprichos e excentricidades, que foi outrora tua propriedade, torna-se, de hoje em diante, um enorme e nostálgico vazio. Para mim, será sempre um lugar teu. Nosso. 

Deixo-te o final daquela carta que um dia me escreveste a bordo de um avião, e que faço questão de guardar:

" (...) Não tenho varinha de condão... mas fecha os olhos. Sentes a brisa? Sou eu..."

Enfim, entre outras coisas, és um (grande) produtor e realizador. Ocupa-te agora o melhor que puderes do guião desta nova fase da tua vida, com tempo, leveza, e esse teu humor ímpar. Afinal, agora és personagem também - a principal! E se tiveres que improvisar, improvisa! Eu? Continuarei a gostar de ti, sem truques na manga. Existe outra forma de lidar com o que de bom trouxeste à minha vida?

Hoje a brisa sopra.

 

 

Ser Primavera Outra Vez

01.04.22 | Sandra

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E foi Primavera outra vez,
Com as sombras das nuvens a passarem ligeiras por campinas cheias de verde,
E o negro das asas das andorinhas a rasar o branco dos campanários da aldeia.

Resquícios do inverno ainda se faziam sentir na dormência da madrugada orvalhada,
E no negrume do universo longínquo e dolorosamente calado, constelações ainda trocavam de lugar...
Mas foi Primavera outra vez,
Mudou a hora,
E o vento gélido partiu qual guerreiro templário de outrora,
Cavaleiro a conquistar reinos de nomes estranhos e terríveis dragões.

O calor do novo sol tocou o Dente de Leão.
Este,
Sentindo no seu coração um pouco daquela liberdade que sentira quando era apenas semente aberta à vida,
Soltou com determinação as raízes que o prendiam ao solo,
Fez-se poeta,
E  voou leve para longe ao sabor da brisa!
Era tempo de ser Primavera também.