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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

A DOIS PASSOS lll

18.12.20 | Sandra

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 Trabalho em co-autoria com O Eremita. Texto anterior em:

https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/a-dois-passos-parte-l-continuacao-65003?tc=58297679734

 

Começou. Limpou todo o terreno, já com a ajuda do filho mais velho. Lixo, mais lixo, tudo fora. Aquele terreno estava sem ser mexido desde o último dia em que a sua mulher lá trabalhou. As coisas que ela tinha estavam arrumadas no mesmo local que ele sempre conhecera e por lá se iriam manter após o trabalho. Um santuário era o que era, a dois passos da mulher. Assim pretendia continuar, a tratar da terra, do santuário. Meteu as mãos calejadas pela vida do mar no cabo da enxada e a primeira machada foi como uma libertação, uma fusão de raiva e contentamento: tinha encontrado a sua alma a dois passos de tudo.
O filho, a seu lado, ajudava-o. Rapaz forte, trabalhador e lutador, como o pai sempre o foi e a mãe o cultivou.
Os dois sozinhos, assim, na terra, sentiam-se bem desbravando aquelas entranhas que a mãe tinha deixado secar com a sua ausência deste mundo.
Era uma pessoa conhecida, popular, nascida e criada no meio agrícola, filha da Pederneira, que sempre resistiu às tentações de uma praia cheia de gente, como se corresse ouro pela areia. Manteve-se ali, junto à sua terra até ao último dia em que as forças a deixaram cravar uma enxada na terra dura.
Ele pescava, ajudava ao fim do dia em casa. Eram as conversas dos outros, e deles, que animavam o serão à volta dos pratos colocados no chão.
E assim se passaram duas dezenas de anos de convivência, assim se escreveu uma história, assim se fez uma família. Um dia, de volta a casa, a mulher queixou-se de uma dor nas costas, coisa pouca mas que a apoquentava. Não ligou e disse-lhe que era do trabalho, que eram muitas horas sempre agachada e a cavar. Acreditou, era possível, porque não? Mas a dor, dia após dia, piorava e não a deixava ter força, quebrando-lhe os movimentos. Não durou dois meses e morreu. Com ela morreu uma casa, a casa que ela habitava, e ficavam agora três vidas por viver.
A morte de um ente querido deixa estas marcas, sempre sentidas embora diferentes na forma de sentir; mas a dor, essa não se esvai.
A contranatura da morte custa, mas a morte de uma pessoa jovem com uma família para criar, também tem a sua conta de dor. A morte, se pudéssemos escolher, não deveria de existir. Mas aquela existiu e continuou a sentir-se no seio daquela família. Após a hora da morte da mãe, foi o filho mais velho que pegou no irmão e o levou para casa do vizinho. O pai, avisado quando estava a trabalhar na praia, não soube como chegou à Pederneira. Nada que não se estivesse a preparar. Via a sua mulher a definhar, dia após dia, mas a morte! A morte, não. Como se lida com a morte, não se sabe, só quem passou por momentos destes é que sabe como se lida com a morte de alguém jovem, querido e um pilar de uma família.
Chegou, várias pessoas estavam à porta, de cabeça baixa. Ainda assim o olhavam pelo lado superior dos olhos, sem mexer a cabeça. Nem uma palavra, apenas suspiros, ais, silêncio, nada mais. Passou-se tudo naquele momento, o choro, as lembranças a impossibilidade de ser Ela, tudo se passou, mesmo a razão de estar ali. Mas não. Era tudo verdade, era Ela que estava ali deitada, coberta por uma colcha branca, colcha que o tinha aconchegado a ele e a ela nessa mesma noite, antes de ir para a praia trabalhar, naquela cama, onde trouxeram ao mundo os seus filhos. Tudo, mas tudo, era agora um espaço diferente um pouco mais escuro, sem brilho, sem importância, sem história. Aproximou-se da sua mulher, olhou-a fixamente, (não nos olhos que esses estavam cerrados), mas na face e percorreu todo o seu corpo, oculto pela coberta branca, como se lhe estivesse a tirar as medidas, como o fez na primeira vez que a viu. Mas agora era diferente, a despedida daquele corpo, daquela voz, daqueles olhos, dela, era agora uma realidade. Isso, ele não poderia mudar.


Não era esta a altura de parar, o tempo não espera, isso sabia ele muito bem! Tinha de avançar: por ele mesmo, por aquele filho ali ao seu lado, que o seguira até ao santuário sem o questionar, e pelo outro filho, que a essa hora estava na escola atento à sua professora, ou a cumprir papel de qualquer criança: o de brincar e crescer. Se bem que, na prática, ambos os filhos eram muito crescidos para as idades que tinham. À sua maneira foram felizes, sim, mas sempre tiveram consciência da dureza da vida, do trabalho que cansa e que tão pouco retribui, da dificuldade que é conseguir ter algo para enganar a fome e pior, do que é não ter o beijo de boa noite da sua mãe.
O filho mais novo já há muito que deixara de fazer perguntas, e ainda não tinha completa noção do que é uma vida de lutas, mas pressentia já que o pai e o irmão tinham uma grande fé nele. Todos os dias lhe diziam, enquanto lhe ajeitavam o cabelo desgrenhado, para estar atento à professora, para aprender as letras e os números, para se portar bem na escola, com a promessa de que um dia seria um senhor de dinheiro!
Mas não era para já, ainda não, pensou o pai relembrando essas rotinas, enquanto olhava a enxada, tantas vezes manuseada pelas mãos trabalhadoras da sua companheira. Sentiria ela orgulho da decisão por ele tomada, e que o afastava, a ele e ao filho mais velho, do mar e das redes? Ele tinha de tentar. Tinha de mostrar à vida e aos filhos que existem outros caminhos, que o Homem ainda tem o poder de escolha, e que escolher é preciso. Escolher é avançar, não é como aquele movimento sempre constante das ondas, mas que não passa disso, de um avanço e recuo permanente que não segue em direção a algo novo, diferente, novas perspetivas. O pescador avança; a onda não, fica-se por ali.
Sentiu nele o olhar fixo e interrogativo do filho. Decidiu nessa noite ter uma conversa com ambos os filhos, após aconchegarem os seus estômagos, para colocá-los a par da sua decisão e prepará-los para o que daí poderia, ou não, resultar. Pediu, em silêncio, à alma da sua companheira para que o ajudasse mais logo nessa importante conversa e continuou com a sua missão de preparar o terreno para o que iria fazer com ele. Sentia-se agora mais confiante. Sim, esse era o caminho.

Levantou-se da mesa, foi até à porta, enrolou um cigarro e fixou o olhar na rua escura, apenas iluminada por um pequeno candeeiro a petróleo. Respirou fundo, compôs o barrete e voltou para a mesa:

- Filhos. Não vale a pena continuarmos a chorar a morte da mãe. Ela está bem, esteja onde estiver, e nós temos de lhe dar motivos de orgulho, temos de ser fortes, corajosos. Era isso que ela quereria, é isso que ela quer.
O filho mais novo olhou para o pai assim como quem não percebia o que ele queria dizer. Já o mais velho parecia adivinhar o que iria ser anunciado. Mal sabia ele que nunca esteve tão errado. Continua o pai:

- Tenho de continuar a obra da vossa mãe e tu – dirigindo-se ao mais pequeno – tens de continuar a ir à escola porque, pelo que me disse a professora, não te safas mal. Por isso aplica-te e faz de todos nós, em particular da mãe, orgulhosos do teu caminho. Não tens de passar por esta miséria de vida.
Tu – dirigindo-se ao mais velho – és forte, tens ganas, o sangue na guelra, e por isso falei com o Ti Zé Bombas e ele tem um lugar no candil. Por isso vais andar ao mar.

- Vou andar ao mar, pai?! Perguntou, incrédulo o mais velho, tão incrédulo como a surpresa que aquela decisão lhe causou. Sempre pensou que iria para a terra, acompanhar e ajudar o pai. Agora o mar! Mas ele queria lá saber do mar, esse cão.

- Sim. Temo de nos dividir. Cada qual para o seu lado. Eu trato da horta, tu vais andar na companha do Ti Zé Bombas e o teu irmão estuda. Tás a perceber?

- Que remédio! Disse o mais velho, aceitando a decisão do pai.
O mais novo nem piava, nem imaginava a responsabilidade que lhe estava destinada.

- Portanto, é isto que vamos fazer. Dividir tarefas. Não vá faltar o pão na horta e depois nada temos. Assim, se faltar num lado há-de vir de outro e aqui o pequenote vai à escola. Havemos de ter dinheiro para comer e para pagar os cadernos e os livros para ele estudar, portanto, aplica-te na escola que agente vamos trabalhar, ouviste, ó taranta?

Ninguém saiu daquela mesa satisfeito. O pai porque acha que foi duro com os filhos, o mais velho com a ideia de ter sido empurrado para o mar, e o mais novo a pensar em mil e quinhentas coisas, uma delas, a ânsia de encontrar os amigos da escola já no dia seguinte, e logo pela manhã.
Era um novo capítulo na vida desta família amputada que se iria iniciar.

 

2 comentários

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    Sandra

    18.12.20

    Muito obrigada pelas suas palavras, e pela sua partilha, fico feliz de ter conseguido reconciliar-se consigo mesmo! Muitos beijinhos e excelente fim de semana!
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