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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

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A DOIS PASSOS ll

16.12.20 | Sandra

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Trabalho em co-autoria com O Eremita. Texto anterior em:

https://cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt/a-dois-passos-parte-l-62664?tc=58108845454

Agarrou o filho pelo braço e, sem nada dizer, inverteu o seu destino arrastando com ele o destino do filho, o destino de três vidas. Um homem tem de tomar decisões e a única força que ainda lhe restava estava virada para terra e não para o mar. Desse estava cansado, nem o podia ouvir murmurar ao longe, mesmo quando estava em casa.
Subiram novamente a ladeira e chegaram à Pederneira, o filho não sabia ao que ia, mas não perguntou. Deixou-se ir como se de uma sentença se tratasse e nem pestanejou perante a força, estranha, do pai.

Parecia que tinha sido possuído por uma vontade estranha, por um chamamento, mas não, apenas seguia o seu instinto, levado pela proximidade e pela vontade de não mais pisar aquele areal. Queria outras areias, mais duras, mais castanhas, mais perto. Dois passos chegavam, desde que o levassem onde jazia a sua mulher. Era a dois passos que tinha um pequeno talhão de terra, era a dois passos que iria reconstruir a sua vida e dar aos filhos, aquilo que mais desejavam, um pai.

Parou, olhou em volta apreciando a paz, a calma e o trabalho que o esperava até ter aquela terra pronta para a sementeira. Olhou para o filho e como se lhe dissesse com as palavras todas do mundo aquilo que lhe ia no coração, apertou-lhe a mão e chorou de alegria, de orgulho, e deu graças a Deus por ter o seu filho com ele, aquele homem a formar-se.
Cedo iria chegar a hora de almoço, o irmão mais novo estava na escola, mas era perto, a dois passos.

Almoçaram aquilo que havia para almoçar, pouca coisa, já estavam habituados a pouca fartura, mas a alma alimenta-se com a fé, dizem os que a professam, e eles acreditavam e isso era o suficiente.

Não esperou muito, disse para o mais velho para ir ter com ele à terra, ali a dois passos. Meteu-se ao caminho, curto, ao passar pela matriz e pela Misericórdia, benzeu-se, apenas, sem palavras interiores agradeceu a luz que se tinha feito na sua vida, ou talvez, quem sabe, a ilusão que estava a viver. Não se incomodou, por enquanto, com o facto de a terra ser diferente do mar, sempre tinha o mercado e um homem não come só peixe, batatas também são precisas.

Os outros estavam já nas suas tarefas, semeando as suas terras, mas eram-lhe estranhos, embora os conhecesse a vida inteira, mas o estranho era ele, por ali àquela hora, com uma enxada às costas?
Perguntavam-se os que o viam passar, em silêncio, faziam todas as perguntas, mas nada lhe dizia, sabiam aquilo que lhe ia no peito, e não diziam, não falavam, mas respeitavam as suas condições, a sua condição. Tanta memória que a mulher lhe trazia, era nessa memória que se ia apoiar para ferir a terra, para a fazer sangrar o pão para comer, era essa terra, a dois passos, que reavivava a mulher, afinal era o que ela fazia durante o tempo em que andou no mundo dos vivos.

(Continua)

 

 

 

 

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