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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Naquele Tempo

21.12.20 | Sandra

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Era um antigo bar, numa rua desconhecida e recatada. Restrito, ninguém falava dele. Num palco pequeno, tocava sempre a mesma banda, com os mesmos fatos, os mesmos instrumentos. Havia um cheiro típico no ar, que lembrava tudo e nada. Parecia trazer algo de misterioso, vindo do primeiro início do mundo.

Eu sentava-me sempre no mesmo lugar. De lá, conseguia abarcar a sala por inteiro: o palco, o balcão do bar, as plantas espalhadas pelo espaço e a porta da rua. As mesas estavam sempre ocupadas por boémias gentes de velhos hábitos. Risos, conversas baixas, subtilezas e discretos sinais à fraca luz. Por vezes as pessoas calavam-se e olhavam todas para o palco, quando um acorde mais forte cortava o ar logo abaixo do teto de madeira envernizada. Havia sempre a certeza de que a música era só o nosso princípio.

A banda fazia um intervalo e as conversas subiam de tom. Sorrisos, promessas, caprichos, brindes, arrastar de cadeiras. Quando a banda regressava ao palco e aos seus instrumentos, o público calava-se numa espécie de respeito, homenagem, por aqueles músicos sem idade, vindos ninguém sabia de onde. Alguns clientes levantavam-se para dançar. Horas esquecidas naquele lugar que atravessava épocas ignorando o passar das modas. O ar tornava-se mais denso e a música mais frenética. Jazz, blues, soul. Às vezes, reggae. Perto do final da noite, eu costumava ir até ao alpendre, onde lanternas coloridas estavam penduradas e cadeiras vazias olhavam o jardim selvagem em frente. Para lá do jardim, a praia. A música, misturada com os cheiros que a maré vazia trazia, parecia agora muito distante. Vozes de fantasmas cansados...

Na noite que cedia à claridade da madrugada, o desfecho era conhecido: o bar ficaria vazio de tanto e de tudo, as portas fechar-se-iam, o tempo iria vadiar vagabundo pelas esquinas perdidas. Tu não estavas lá, nunca te encontrei nessas noites marginais, naquele espaço imerso em histórias de todos os tempos e onde todos se conheciam. Nada de novo, nem os segredos.

Chegava a hora. As pessoas saíam então num silêncio arrastado, contido, umas para o jardim, outras para a praia. E outras, como o banda, para algum lugar jamais descoberto, como se se desvanecessem no ar. Perto, os plátanos continuavam o seu doce dormir no nevoeiro que os vestia, alheios à noite que tinha passado. Parecia ficar também ele, o bar, a dormir, ar cansado, abandonado, como se nunca tivesse existido, nem a sua banda, até uma qualquer outra noite em que as portas seriam de novo abertas. Que não se sabia quando seria. Esse era outro dos seus mistérios...

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