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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

BORBOLETAS AO VERÃO

20.08.20 | Sandra

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Estou à janela em jeito de pausa dos meus afazeres domésticos quando passa bem perto de mim uma borboleta branca. Depois vejo três um pouco mais à frente, rodopiando leves, felizes e dançantes sobre o relvado verde e cerrado. Parece que com o passar dos anos são cada vez menos.

Está muito calor. Do nada questiono-me onde ficou o meu Eu de antigamente. Jamais eu teria deixado passar um dia assim sem ir à praia! Adorava tudo o que a praia representava para mim e que ia desde a visão do areal até ao perfume do mar, das rochas cobertas de limo e dos óleos bronzeadores.

Costumava fazer imensas caminhadas pela zona de rebentação, rendida ao toque quente do Sol no meu corpo alto e sentindo nos tornozelos a frescura do mar. Algumas vezes, encontrava alguém conhecido com quem parava a conversar; outras, limitava-me a andar devagar, sem parar, esquecida das horas, vendo através dos óculos de Sol o mar brilhar em toda a sua sensualidade, cheio de reflexos prateados, onde uma ou outra prancha cruzava as ondas.

A minha parte preferida era quando me sentava nas rochas quentes e duras, com os pés dentro de água, olhando entretida as poças que ali se formavam. Encantavam-me as algas, os caranguejos minúsculos, um ou outro búzio, as anémonas coloridas e os peixes tímidos. Apreciava também quando, deitada na toalha com o Sol no seu ponto mais alto, de olhos fechados, sentia o vento passar por mim, como uma carícia vagarosa ou um véu que pousava na minha pele.

Nessa altura o verão era eterno, os dias intermináveis e as noites eram sinónimo de festas ou convívio. Nestes últimos anos raramente fui à praia, acho que já não consigo desfrutar em pleno de um dia passado assim. Julgo que tal transformação pode ser resultado das mudanças trazidas com o passar dos tempos ou de problemas que surgem e interferem com vontades ou estados de humor.

Certo é que hoje em dia prefiro espaços verdes. Adoro os jardins com os seus muros, musgos e trepadeiras, relvados, árvores antigas, bancos à sombra, repuxos e bebedouros. Serena-me a visão dos lagos recheados de nenúfares, libélulas, peixes, tartarugas e patos. Sem falar do som dos pássaros e da companhia dos pavões ou dos pombos. Tenho, de longe a longe, saudades desse meu Eu de outrora que entregava, completamente rendida e despreocupada, o corpo, os sentidos e a alma ao prazer de um dia de praia acompanhado pela famosa Bola de Berlim. Acho que de tudo o que esse tempo representa para mim, aquilo de que tenho mais saudades é da sensação de liberdade, das certezas que tinha então, da confiança e do saber que está tudo bem. Sempre. Que ingénua! Hoje, as responsabilidades são outras, as preocupações são diferentes e alguns pontos de vista mudaram. Até o calor parece outro.

Mas, calor é calor e, rezando sempre para que o amanhã chegue sereno, para mim e para os meus, deixo as minhas reflexões partirem e entrego-me ao ar quente que entra pela janela aberta e atravessa facilmente as cortinas leves e imóveis. Afinal, há que aproveitar já que quase tudo é efémero. As borboletas? Ainda voam sob a minha janela...

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