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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

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DIA DE CHUVA

20.02.21 | Sandra

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Fui acordada ainda cedo pelo som da chuva a bater nos estores. E hoje o dia pertence-lhe, a essa chuva que cai em desalinho sobre telhados desolados, relvados bem cuidados, carros adormecidos, praceta vazia. Sopra um vento forte. Algumas folhas do chão são apanhadas num divertido rodopio, que se eleva no ar, para logo de seguida serem atiradas de novo no chão. Ouve-se o vento a assobiar ao longe, um som constante, fino e agudo, destemido, enquanto corre veloz por entre os prédios de janelas ainda fechadas. E é precisamente à janela que eu bebo o meu café, saboreando o que está para lá do vidro cheio de gotas brilhantes e frias. Dois cães passam a correr, alheios ao temporal, orelhas longas a abanar ao vento e um ar alegre nos seus focinhos joviais. Uma rola passa junto à janela, pardacenta, queixosa, e logo desaparece, como que levada para longe. Para lá dos relvados e dos telhados distantes, a linha azul do mar desapareceu, escondida pelo cinzento pesado das nuvens carregadas de água. Também se esconderam o farol e as colinas da outra margem. Às vezes passa uma ou outra gaivota, fugida à fúria do mar, no seu voo inclinado, aproveitando o embalo das correntes de ar. Nas árvores de ramos despidos, em frente à janela, está, há cerca de um ano, um ninho abandonado, de paus finos entrelaçados uns nos outros, redondo, sólido, perfeito! Admiro-me que resista sem esforço às rajadas impiedosas do vento e não se solte dos ramos, caindo nas pedras molhadas da calçada. A chuva não abranda, e o vento ameaça virar os chapéus-de-chuva das poucas pessoas que atravessam, de rosto fechado e passo apressado, a praceta desamparada. Termino o café e volto para a cama. Em breve enfrentarei eu mesma essa chuva e esse vento, afinal espera-me um turno até à meia-noite. Mas até lá, deixo o mau tempo de lado, como algo que ainda não me diz respeito, e ouvindo alguns pardais despertos na sua cantilena, penso: hoje é um dia bom para o amor, seja que amor for...

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