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Sílabas à Solta

Prosa Poética | Poesia | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria | Fotos retiradas da internet.

Sílabas à Solta

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FORMAS

15.05.21 | Sandra

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Tudo o mais fica sem sentido. O  crepúsculo ainda pousa para lá da janela aberta, feito cetim que sustenta nos braços o cantar macio das aves que regressam às copas das árvores. O ar de fim de tarde faz-se leve, fresco, como uma manta onde se sentam os risos das crianças que brincam na praceta. Cães mastigam o relvado, e melros voam soltando recados à noite que está para chegar. Nada se move neste crepúsculo que parece cantarolar, a não ser pensamentos meus sobre ti.

É estranha esta visão do anoitecer, é como se te rendesses perante mim nos ecos das luzes que se vão acendendo um pouco por todo o lado, no perfume próprio do jardim que se recolhe à quietude do sono, nas vozes das pessoas sentadas nos bancos lisos do parque. Alguém liga um rádio e deixa a tocar uma música antiga, enquanto acende uma fogueira. No fumo que sobe alto para lá dos sentidos, revejo formas abstratas, sem forma. Conseguirias tu imaginar-me nesse fumo que se solta na friagem parada da noite, agora densa, se estivesses perto? Verias tu, nesse ondular desperto, formas minhas? Mas nem sei onde estás, ou se vale a pena pensar nisso: são somente pensamentos que tombam sem sentido, em mim, enquanto se adensa no ar o cheiro da madeira que arde na fogueira crepitante.

A noite chegou agora em toda a sua magnitude. É hora de fechar a janela ao mundo e chegar a mim mesma, à hora do silêncio e do descanso. Quem sabe, talvez mais logo volte a pensar em ti, desta vez sem interrogações?

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