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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Letras

02.12.21 | Sandra

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Há letras que aparecem pela calada da noite, quando lá fora tudo é silêncio e o tempo está suspenso no frio. Chegam devagar, de forma aleatória, e sentam-se à minha volta. Primeiro uma única letra, tímida, solitária, sem pressa; depois, outra. E outra. Aos poucos, mais algumas, desta vez aos pares, curiosas. Até que toda eu estou cercada por letras. Na alma, na mente, no coração.

Pego nelas, maiúsculas, minúsculas, vogais, consoantes. Crio significados, tempos verbais, opostos, infinito, o teu nome. Ai, o teu nome! Se essas letras soubessem o que carregam com elas! Não são só os traços criados pelos sumérios, na Mesopotâmia; ou a força que definiu uma ordem, dando origem ao primeiro alfabeto. Cada letra do teu nome carrega nela os ecos que atravessaram cordilheiras geladas e desertos tórridos, para chegarem com urgência à folha de papel onde escreves, e serem prosa poética ou poesia. As letras do teu nome... brinco com elas. Junto-as, aparto-as, junto-lhes mais letras, mudo-lhes a ordem. E quando dou por isso, já não são só letras. São sentimentos, história, memórias, alegrias. São sílabas vagabundas, livres, à solta no tempo e no espaço, que me dizem de forma clara e ordeira que gosto de ti. Tu sabes, não sabes? Se compreendes a noite, da qual és o senhor, saberás certamente!

Quando adormeço finalmente, as letras, uma a uma, devagar, dissipam-se todas elas no ar quente do quarto adormecido e transformam-se em sonhos que tenho, onde tu estás. Tu sabes que és tu, pois as tuas brumas, que em tempos chamaram-me a ti no meio da noite, também um dia estiveram cheias de letras como as minhas. E tu pegaste nelas.

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