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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

LUGAR TEU

26.09.21 | Sandra

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Sei onde estás neste preciso momento: nessa clareira, onde a tua mente esvoaça para o alto, muito acima das copas das árvores, e a luz morna cai em silêncio na superfície fria do lago, onde criaturas que nunca viste se escondem da tua mente na escuridão profunda das águas.

Saúdas pegadas tuas de outros dias e sentas-te, sempre no mesmo sítio. Nas folhas abandonadas à friagem da terra fértil, perscrutas as letras que compõem os teus anseios e as tuas buscas por algo que te assombre, que te dê o sentido final de tudo.

Às vezes vejo-te aí, onde a vegetação se cala ao teu redor e cuidadosas sombras movem-se atrás das árvores rugosas e solenes, como gamos silenciosos. Respiras então a poesia na astúcia dos musgos que descem a encosta da Serra, e o piar de aves que não se veem ecoa junto com o estalar de ramos e das tuas interrogações mordazes.

Foi nessa clareira que certo dia te encontraste a ti próprio, num instante em que passaste a fazer parte do arvoredo que cerca a tua propriedade, das horas que constróis nas curvas sinuosas de Sintra, e do silêncio cansado que avança à tua frente até embater nas águas agitadas do mar do Guincho.

Encontraste-te a ti próprio, tornaste-te outono, e começaste a escrever ao longo do vagar imenso dos dias e das noites. A escrita é agora o teu lugar. 

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