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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

MADRUGADA

01.12.20 | Sandra

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Há dias assim, em que a madrugada queda-se num silêncio sem forma e a infinidade de tudo parece nada abarcar. São horas paradas, leves e mal definidas, as da madrugada. Sonhos, dos que ainda no seu leito descansam, misturam-se às neblinas frias e silenciosas que sobem do mar e envolvem tudo à sua passagem, nesse momento indefinido. Ondas desfazem o areal, embatem nos rochedos, alheias às gaivotas que, já despertas, acompanham traineiras. Nos vastos campos, ervas orvalhadas, geladas, conversam na luz pálida e frágil que já se adivinha no horizonte. Os jardins tremem ainda da friagem da noite e, nas fontes, só algumas folhas mortas dançam melancólicas nas gélidas águas. As aves começam já os seus movimentos nas horas jovens, ainda acanhadas, como se apanhadas de surpresa pela partida da noite. Becos escuros e ruelas vazias, com os seus vasos adormecidos nas varandas esquivas, aguardam já os raios de sol que lhes hão de dar vida, novamente. Por ora, em tudo paira essa ausência de movimento, cor, forma, como se a madrugada tivesse capturado tudo para entregar, como uma espécie de oferenda ou holocausto, ao dia que sabe estar para chegar.

E o dia chega finalmente, sóbrio sobre as pedras nuas da calçada. Recebe das mãos da madrugada sonhos, esperanças, pedidos e orações, devaneios e amores. E envolve tudo com o sol que cai ofuscante e quente em cada canto e recanto, em cada telhado frio, em cada muro coberto de hera, em cada esquina tímida. Musgos brilham aos primeiros raios de luz, as folhas das árvores sacodem de si a preguiça das horas esbatidas, os caminhos cumprimentam os primeiros movimentos do dia. E a vida recomeça: misturam-se o sol, o calor, as ruas e as suas gentes, os ruídos, os cheiros, a azáfama das horas que não esperam. Já a madrugada está longe, já dorme, serena, esquecida de tudo, aninhada nos braços quentes da noite que a aguardava ansiosa. Haverá de voltar, a madrugada, afinal é esse o infinito ciclo do Tempo que acompanha, orienta, a nossa condição humana.

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