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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

MANHÃS DE NÉVOAS

20.08.21 | Sandra

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Há manhãs que descem rodeadas por um sentido de oculto, algo escondido nas névoas criadas pelo evaporar da forte geada tombada nas longas horas da noite. O sol é apenas uma ténue claridade num céu estranho, desfocado em várias dimensões, e até a luz é húmida e difusa, sobre caminhos irregulares, campos e jardins fechados em si mesmos, tímidos, contidos na friagem que os pisa.

Saio à rua. Gosto de caminhar sozinha na constância dessas brumas frescas, palpáveis. Quero imaginar que estás perto, que a qualquer altura vou ver-te. Cada passo dado atenua as brumas, define os contornos do caminho, os pinheiros, os plátanos seculares, os agapantos tristes. Mas não te vejo.

Compreendo: pertences a algo maior, a parâmetros feitos de grandes escritas, às ruas apinhadas de rostos que não sabem de ti, à noite incapaz de dormir enquanto tu permaneceres acordado.

Vieste de outras paragens, caminhos também eles cobertos de sóbrias brumas. E por lá andas ainda hoje, captando o sentido do belo que ainda existe, trazendo ao de cima a amplitude da natureza que se expande no teu imaginário, criando cenários e dimensões que me espantam e aos quais eu quero pertencer. Ser um pouco tua...

Talvez seja por isso que não te vejo nas manhãs em que me torno parte das névoas: o outro lado de ti apreende-te, mantém-te nesses lugares ocultos que só tu conheces, escritas tuas despidas em sílabas soltas.

Mas talvez não seja assim. Talvez estejas por todo o lado, talvez estejas aqui perto, sempre que letras saídas de ti ficam de tal forma gravadas nas tuas partilhas, que tu próprio te surpreendes. Talvez eu consiga estar acolhida nesse teu caderno escondido dos dias, talvez um dia soletres lá o meu nome, em maiúsculas. E aí, ver-te-ei sempre nessas manhãs adormecidas de névoas húmidas e claridade difusa, sem precisar de te procurar ou esperar.

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