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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria. Imagens retiradas da internet. Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

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O VOO

11.03.21 | Sandra

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Ele tinha sonhos. Todos os dias questionava as suas forças e fragilidades, sabendo que delas partiriam todos os caminhos, todas as suas vontades, os seus cansaços, as suas alegrias e celebrações. Ao fim do dia, desde sempre, ele sentava-se em frente ao crepitar da fogueira. Nas fagulhas que estalavam desordenadas no ar, ele via todas as estrelas do firmamento, todos os ventos que varrem a Terra, todas as grandes montanhas onde o ser humano jamais chegaria. E no dourado quente que crepitava ante os seus olhos, ele orava, sentia o coração fortalecer-se, a alma a pedir mais do que aquelas noites. Sussurros nas sombras que dançavam pelas paredes nuas em seu redor, diziam-lhe que havia algo maior, que na noite lá fora adensavam-se aromas libertados por eucaliptos e pinheiros ponteados de resina, que aves tímidas mostravam-se enfim, belas, que o vento era agora brisa cálida e que rios cantavam. Quando os sons da madeira a queimar se desvaneciam no ar, ele deitava-se, permanecendo acordado na cama acolhedora e coberta de interrogações. A manhã chegava e ele, o homem, abandonava-se ao lugar que lhe pertencia, sem dele se afastar mais do que um dia de caminhada. Aquele era o seu mundo. Ou pelo menos, assim pensava ele, na altura. Certa vez, com o sol ainda a elevar-se acima do pomar, passou à sua porta uma caravana, como aquelas antigas caravanas de comerciantes que cruzavam continentes. Ele trancou a porta e partiu com eles, feirantes, pareceu-lhe. Sim, ele viu que havia muito mais, mais que o lugar onde tantas vezes se perdera e reencontrara, sem nunca de lá sair; mais do que quem ele tinha sido até aí. Sentiu-se feliz, quase comovido com a grandeza de tudo, e com o libertar de tanto que deixava para trás. A meio do caminho, despediu-se dos companheiros de viagem, agradeceu-lhes, e caminhou para o sul, onde estavam as grandes extensões de areia, antes do grande rio. Olhou o azul do céu, as aves ao longe, o horizonte. Ali sim, era o seu lugar! Finalmente, chegava a si mesmo! Com um enorme sorriso, deixou cair a sua sacola no chão, arregaçou as mangas da camisola e começou a correr... correu pelas dunas, abriu os braços e sacudiu-os, para cima e para baixo, como duas asas. Correu com mais força, braços alados ao vento. Correu com mais força ainda!

Então o homem transformou-se em pássaro e voou!

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