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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

O VOO

11.03.21 | Sandra

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Há alturas em que sonhos se impõem à realidade. Subtis, discretos, mas presentes, de forma inquestionável. Muitas vezes os sonhos questionam as forças e fragilidades, sabendo que delas partem todos os caminhos, todas as vontades, os cansaços, as alegrias e celebrações.

Ao fim do dia, quando tudo é escuro e mistério, sonhos parecem sentar-se em frente ao crepitar de uma fogueira. Nas fagulhas que estalam desordenadas no ar, os sonhos veem todas as estrelas do firmamento, todos os ventos que varrem a Terra, todas as grandes montanhas onde o ser humano jamais há-de chegar. E no dourado quente que crepita ante eles, a alma pede mais do que aquelas noites...

Há sussurros nas sombras que dançam por paredes nuas e que dizem que há algo maior, sim, que na noite lá fora adensam-se aromas libertados por eucaliptos e pinheiros ponteados de resina, que aves tímidas mostram-se enfim, belas e singulares, que o vento pode ser brisa cálida e que os rios também cantam. O tempo não para e na manhã  que chega, sonhos abandonam-se ao lugar que lhes pertence, sem deles se afastarem mais do que um dia de caminhada. Uma vez por outra, com o sol a elevar-se acima do pomar, há caravanas que passam, como aquelas antigas caravanas de comerciantes que cruzavam continentes. Nessas alturas, os sonhos movem-se. Caminham para o sul, onde estão as grandes extensões de areia, antes dos grandes rios. E os sonhos olham o azul do céu, as aves ao longe, o horizonte.

(E sonho, sonho eu também, sonhamos todos...)

Sul. Ali havia um homem, da idade do Tempo. Com a chegada dos sonhos às grandes planícies, chegou ele também a si próprio, finalmente! Feliz e completo, deixou cair a sua sacola no chão, arregaçou as mangas da sua camisola e começou a correr...

Então, o homem correu pelas dunas, veloz como o vento; abriu os braços e sacudiu-os, para cima e para baixo, como duas asas. Correu com mais força, braços alados ao vento. Correu com mais força ainda, transformou-se em pássaro e voou!

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