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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Recados Que Te Deixo #3

20.04.22 | Sandra

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E o mar já não fala de ti. Apenas se consome secretamente em recordações tuas, que foi acumulando em cada onda quebrada no areal maduro.

O céu também parece ter mudado: não procura mais ver-te caminhar pela praia imensa e gélida, nem tenta vasculhar os pensamentos que deixaste imersos em cada pegada gravada na areia lisa. Se lhe pergunto por ti, ouço apenas um eco que se arrasta cheio de nada. Um nostálgico vazio preso num grito de uma gaivota.

Aquela árvore lançada à praia num dia de tempestade ainda lá continua. Numa tarde de inverno, sentados no seu tronco gasto, disseste-me que muitas vezes eras de novo criança. O recado que te deixo é este: ficarmos crianças apesar do avançar da idade, é um tremendo luxo! Isso implica mantermos a capacidade da descoberta, do espanto e do deslumbre. Da envolvência e do acreditar. Do acertar sempre, mesmo quando se erra. É seres completo contigo mesmo, sabendo que há muito mais para além do contabilizável. E isso, meu caro, não é só poesia: é um modo de vida! Sê grato então, és um felizardo! 

O mar e o céu prosseguiram com as suas vidas, apesar da tua ausência. Mas o vento, esse ainda é todo ele feito de pedaços teus. Em certos dias sacode o mundo, parece querer derrubar as barreiras do som ou da velocidade da luz, para arrancá-lo dos seus eixos; noutros, passeia-se suave e gentil, como o canto distante de uma sereia.

O vento tem algo teu, é por isso que nunca lhe escondo as palavras que eu e tu trocamos regularmente. Nesses momentos, é como se estivesses perto, e a praia fosse resgatada por ti, tornando-se novamente tua. Tal como eu.

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