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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

REFLEXÕES À TARDE

05.09.21 | Sandra

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Tarde cinzenta, de muito calor. Um vento seco sopra com força, num de repente sem sentido. As folhas das árvores estão agitadas, barulhentas, pressentindo a trovoada que está para chegar.

Chegaste tu, antes do ribombar do trovão. Sem um aviso prévio surgiste, uma simbiose perfeita que se arrastou por entre sílabas nossas, e que alterou a sequência do tempo, levando passado, presente e futuro a tornarem-se um só instante.

Vieste sim, antes de qualquer trovoada, e eu dilui-me nos traços teus que foram abreviaturas rabiscadas em mim. Se eras a poesia, seria eu a prosa. Então, sem saber bem como, entrei contigo numa espécie de realidade paralela, que nos transporta desde aí a espaços insondáveis, o lugar primeiro de onde partimos e ao qual queremos sempre regressar, onde se perdemos e encontramos na singularidade alternada da nossa escrita.

O vento parou abruptamente. O ar está pesado, estagnado, interrogativo. Relâmpagos sem som desenham o céu indefeso. Um silêncio imenso abarca o momento em que a chuva cai e quebra o calor selvagem da tarde.

Mas o calor que transcende tudo em mim és tu, e esse permanece ainda. Fazes-me lembrar lugares imensos e distantes na noite, vastidões forradas de estrelas que se misturam umas nas outras quando o amor acontece e aves noturnas piam.

Um dia talvez sejamos capazes de interpretar as entrelinhas abrigadas nas letras que trocamos. Até lá, temos realidades que nos absorvem em si, deixando aos poucos algo a ganhar significado num outro espaço, onde a palavra escrita por cada um de nós é realidade também. 

A chuva parou.

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