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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

SÍLABAS À SOLTA

25.05.21 | Sandra

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O café acabado de fazer espalha o seu aroma forte no ar. Lá fora sopra um vento gelado que verga copas das árvores e arrasta folhas pelas pedras da calçada. Aconchego-me no casaco de malha que vesti após um banho quente e demorado, que encheu o espaço de um vapor insinuante, luxuriante. Hoje é um dia sem compromissos. Decido escrever algo, sem ter ainda definida uma linha de pensamento.

A escrita ajuda-me a manter um certo equilíbrio, leva-me a outros espaços, lugares íntimos, secretos, muito meus, onde se dá um reencontro, um reconhecimento de mim mesma que não é possível na complexidade dos meus dias. Poderia escrever sobre tanto, sobre tudo e sobre nada, cadernos inteiros cheios de letras, ou somente uma única palavra no centro de uma folha crua, em branco. Mas teria que escrever. Gosto de dedicar as minhas sílabas à solta à grandiosidade do nosso mundo: o universo, a noite que fala alto, numa voz clara, aos mares e aos desertos, onde as estrelas e a lua são tremendas e colocam-nos no nosso devido lugar, em harmonia com elas. As manhãs inebriantes e o sol alto do meio-dia que abre esperanças, os lugares que surpreendem e as suas gentes, cada pessoa com a sua própria história. A emoção das estações do ano envoltas nos seus ciclos, e os crepúsculos, aqueles crepúsculos, quando o vento se cala e tudo parece suspenso à espera de alguma palavra superior a todos nós.

Termino de beber o café e abro um pouco a janela, sentindo no quente da minha pele o ar frio que vem da rua e que entra pela malha larga do casaco. Parece picar, mas eu gosto. Sim, hoje algo ficará no papel, com a minha letra desordenada e quase impercetível, agreste. Sentimentos subtis, sublimes, transformadores, reveladores. É por isso que gosto tanto de, através da escrita, dar-me a mim e a ti, a Deus, aos que me são importantes, a este mundo que hoje, apesar de tudo o que me revolta ou indigna, ainda me espanta! Porque ao escrever, vejo-me, e esta sou eu, mulher-menina. Esta sou eu, Sílabas à Solta. 

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