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Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

Sílabas à Solta

POESIA | PROSA POÉTICA

SÓ PARA QUE SAIBAS

27.06.21 | Sandra

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Agora sim, tenho a certeza de que vieste com as brumas vagabundas que encobrem as manhãs ainda tímidas. Não sei bem de onde vieram essas névoas rasgadas que te trouxeram com elas. Talvez do outro lado do oceano, onde as cores são vivas, o verão parece eterno e as pessoas quando falam, parecem cantar, no seu sotaque... ou talvez as névoas tenham descido a encosta da Serra, quando a lua sobe ao monte e brilha lado a lado com o Palácio que lá mora, cheio de lendas e fábulas?

Mas acredito que sim, que de alguma forma tenhas chegado nessas brumas macias, frias, cheias do perfume molhado das rochas cobertas de musgo e limos, em manhãs de maré vazia; ou plenas dos odores dos pinheiros, da resina, da terra selvagem e dos eucaliptos. Do secreto, do místico, do desafio. Do oculto, que és tu.

Eu não sabia que te esperava, até teres aparecido. Não sabia de nada, então, sobre muito. Sinal dos tempos, que nos afastam da nossa origem. Nem era suposto eu estar aqui, sequer! Vim de um lado secreto, escondido, movida por uma ansiedade, uma necessidade de algo mais de mim e para mim. E comecei a escrever. Um dia li-te, tu por inteiro, nas palavras que partilhas. Gostei de ti no grande imediato e, desde aí, na minha confusão sou mulher-menina ainda, sem saber que nome dar ao que senti (sinto) por ti. Amor? Poderia sê-lo. Ou terei eu apenas amado uma singular ideia que fiz de ti? Não creio. Foi mais, é mais.

Sim, as tuas brumas trouxeram-te a mim nesse dia, trazem ainda, sempre que aparecem para esconder o mundo. Tu vens altivo, feito poeta, ousado, recatado, orgulhoso, errado, determinado a passar a mão num espaço em branco onde deixas então palavras tuas que leio, leio sempre. Amo-te longe, ao longe, de longe. E assim será, nada mais, pois nem sempre foste quem estava determinado seres. Mas trago-te perto. Imagino-te, recrio-te, sonho-te. És o último dos últimos, aquele que ficará sempre no decorrer das estações, dos dias que sucedem às noites, de palavras que arrastam palavras, deixadas para serem lidas.

Estás neste momento longe de mim, tão longe quanto as tuas brumas o permitem. É assim que deve ser, a ordem natural das coisas, as brumas sabem o que fazem. Mas voltaremos a cruzar-se nalguma curva do tempo, em órbitas que se tocam, cruzam, pois ainda nos falta tanto! 

Não sei porque vim hoje aqui e porque te escrevo. Mas tinha esta sede de saltar por cima do rigor dos dias e das regras de sobrevivência, de deixar o sentimento despir-se em letras, num frenesim de sílabas à solta. A vida é mais que tudo isto (fantasias e devaneios), eu sei. Mas deixo os desafios, as lutas, os cansaços e as responsabilidades para o dia a dia que me encontra sempre prática, sensata, sóbria, lutadora e responsável nas suas horas. Para aqui, reservo sempre esse outro lado meu, o mais afastado da razão e mais próximo do sentimento nu, agreste, primitivo. Aquele meu lado que te quer tanto, que é todo só teu, sempre. Névoas, manhãs, uma noite feita poema que que guardo, leio sempre. Vim hoje aqui falar de brumas só para isto: só para que saibas, porque mais não quero.

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