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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

16
Nov20

HARAGANO

Sandra

20201115_155249.jpg

 

Gotas de nobres sentimentos
Intensas em silêncio meu
Levam no âmago a tristeza minha...

Sentidos vãos, de futuro despidos, 
Amor que te dou, toda de mim,
Recolho palavras doces tuas
Alegrias puras de outrora!
Imagens de ti, amor, meu amor
Valem todo o peso da noite
Alma tu, que nela habitas.

Horas nobres guardo-as eu
As que contigo sonhei, planeei,
Risos puros, então crentes...
Amor maior, maior ainda mais!
Gravo em mim esse nome teu
Agora que é só tudo o que me resta!
Nunca esmorecerá este sentir puro
O Haragano que não foi meu...

31
Out20

LUZ LOIRA

Sandra

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Renovo-me ao caminhar por extensos campos. Neles, sou todos os sonhos possíveis. E bebo, deliciada, a liberdade do ser e do estar - como se tudo o que menos bom há, não tivesse lugar em toda aquela vastidão.

Em tardes douradas de sol quente, no céu alto voam as aves. Rasgam o azul infinito, sem nuvens nem pressa. Na terra seca, pálida, ervas e flores selvagens libertam aromas próprios, que pairam intensos no ar à minha volta. Caminho por caminhos não traçados na hora adormecida do calor e perco-me para encontrar-me de novo. Em tempos idos, passeava já assim pelos campos, de alma leve e imensa, do tamanho da imensa extensão que me rodeava. A paz de outrora resistiu a estações e ciclos, e ainda hoje pressente-se nos campos, ao ondular das ervas secas numa dança acesa e sincronizada sob o beijo do vento que sopra.

No descanso das horas intermináveis, a poesia faz-se desejo, que se eleva à cadência dos sons do campo presentes em todo o lado e ao mesmo tempo: a secura das plantas, o chiar das aves, o zumbir dos insetos, o avião que rasga o firmamento alto deixando um traço branco, fino, cortante. E é envolta pelos sons, cheiros, tons do campo, que busco o que de ti tanto quero, ali, na luz loira.

30
Out20

AMOR NA MANHÃ

Sandra

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Despe-se, a poesia,
em palavras de cálida luz,
pausada em livre manhã.
É cetim escorregadio,
macio,
doce o poema,
que desliza do corpo solto,
encantado,
aberto em rimas.
Sentimentos translúcidos
deitam-se na claridade
que embala vontades,
e afetos esfumam-se
em desígnios perdidos de sol.
No tranquilo conforto
da luz que cede certezas,
suspira a paz,
a certa segurança,
que esboça estrofes
de nobres sentimentos.

A luxúria pousa em delicado leito
criado numa folha de papel
virgem, imaculada,
intocada de letras, ideias.
Mimoso é o tempo
que no aconchego do amor pleno manda parar, ávido, 
segundos,
minutos,
horas.
E na serenidade imensa
que despeja desejos,
a liberdade entrega-se
a versos embriagados.
Soltam-se sílabas, diz que sim.

20
Out20

MÃO À NOITE

Sandra

20200921_183214_1603059409966.jpgDá-me a tua mão. Deixa-me levar-te lá fora onde a noite se mostra. No horizonte, uma lua cheia sobe magnífica no céu de seda. Uma brisa morna sopra alto para lá dos cumes das serras embaladas na imensidão, onde as aves dormem das horas passadas. As águas do riacho repousam frescas e brilhantes sob um luar imenso que ilumina o silêncio escuro dos cantos, campos, casas, ruas, pontes. Há tanto que queria dizer-te... deixa-me falar-te baixinho de tudo e de nada.

Lua cheia. O Tempo mistura-se insondável. Ontem e hoje, como dois amantes deitados em praias adormecidas onde o relógio do Mundo parou. Esta é a hora plena em que barreiras tombam e a condição humana cede. Somos da natureza, tu e eu, arrastando sentimentos vindos de tempos primordiais até este exato momento. E a vida pulsa lá fora, para lá de nós dois, onde novos mundos são criados e os deuses nunca dormem.

Na noite, a lua reflete antigas, misteriosas civilizações, enquanto pressente novas eras que ainda não chegaram pois pertencem a futuros longínquos dominados pela ciência e tecnologia. E tu, último dos últimos!

Chega-te um pouco mais perto. Se me pudesses abraçar! Escuta, há tantos sons na noite e a todos eles a lua brinda! O mocho escondido nos ramos altos do pinheiro fala-nos de um universo por descobrir e eu olho-te impávida, serena, segura, certa das minhas certezas e incertezas que guardo no escuro. A noite apodera-se de tudo e no segredo das sombras que se alongam pelas horas que avançam, só te peço: dá-me a mão. 

 

19
Out20

MEIA FLOR

Sandra

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Flor,

que em fogo efémero
cativas as cores do campo,

de que manhãs sem cor

despiste tu

perfumes esses sem fim?

No sol

que tomba frescuras de orvalho

contas tu, flor,

mistérios sentidos

de tempos idos,

pois de tão longe vieste...

Flor,

que em escondidos sorrisos

cuidas do embalo das aves

que no alto voam,

tens livre alma

de ventos tombados

em velhos, vagos mundos!

Danças nas pétalas

que puras giram

em palavras tuas

de sabor a perdidos prados

e caminhos de fim de dia.

E sendo tu flor,

feminina meia-flor,

entregas-te a mim,

sem pudores tu,

despida alma, despido corpo,

só a mim, que não te colho,

só por inteira te amo

e deixo-te ficar.

12
Out20

APELO

Sandra

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O sono faz-se presente mas não quero dormir. Sinto lá fora o apelo da noite. Baixinho, quase inaudível. Leve, discreto, solene. Nunca consigo negar-me quando esse chamamento se faz ouvir. A imensidão do universo que se pressente para lá do visível devora-me a alma. Não é só o céu escuro onde estrelas se abandonam à lua. É tudo, tanto mais! Distâncias tremendas entre objetos espaciais. Galáxias gigantes que em rodopios varrem espaços cheios do quase nada. Planetas cujos movimentos emitem sons que só sofisticados aparelhos conseguem captar. Órbitas que contrariam as leis da física. Colisões e explosões que se julgavam impossíveis de acontecer. E o mistério de tudo. O mistério do primeiro começo, do princípio e do fim, da transformação, do inalcançável. E a sede de querer saber, querer descobrir, querer ver.

Na sua generosidade, o firmamento deixa-nos contemplar no seu silêncio as estrelas da noite. É a elas que me entrego sem pressa. Antes que outras noites venham, esta se fará dia. Mas antes ainda, enquanto o mistério flui entre mim e a noite, sou tocada por um outro mistério paralelo ao céu de cetim preto. Sei que estás algures, dormindo ou olhando as mesmas estrelas, tanto faz. Não sei a que distância real estás mas na noite, nesta precisa noite, estás mesmo aqui. Porque sim. Porque eu quero. Porque tens em mim o mesmo efeito da noite: fazes-me sentir um apelo, um chamamento ao qual não consigo negar-me. Ganhaste.

11
Out20

MENSAGEIRAS

Sandra

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Aves mensageiras voam em bandos soltos pelas ruas. Sobrevoam telhados poeirentos e percorrem ideais tombados ao vento. Sou dona de todas as palavras que transportam e a todas elas eu mando chegar a ti.

Dia após dia, no desenrolar silencioso do tempo, quando a estrela da alvorada ainda dorme, com um só gesto imperioso chamo-as e todas essas aves mensageiras calam a sua vontade para ouvir a minha voz. E à minha ordem, ganham impulso, batem asas na certeza dos meus desejos, e voam por traiçoeiros sonhos!

Aves mensageiras procuram-te em becos onde guitarras portuguesas tocam o fado, em pracetas floridas onde o pintor alegra a tela branca, em coretos onde um sonhador se encanta ao som de um acordeão, em ruelas escondidas onde amantes se beijam. Mando impaciente essas aves à tua procura e elas obedecem-me. Que nem chuva, calor ou vento as desvie da sua rota, que nenhuma distração as demova de voar em busca de ti, que anseio.

Que batam com gentileza à tua porta! Que aos teus pés deitem essas minhas notas escritas na vontade eminente de te amar.

Sou dona dessas aves mensageiras. A todas recolho na noite. São imensas. A mim todas elas regressam e carrego-as ternamente nas mãos. São a minha perdição, pois elas vêem-te e eu não. Tu, força insondável que me desperta sempre a cada aurora, poder indecifrável que me impede de voar feita eu também ave mensageira na sua busca peregrina por ti.

10
Out20

SEM NEXO

Sandra

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És um vago sentido, um mergulho sem nexo. És tudo aquilo que negava mas quero. Que afastava de mim mas anseio. Não estás perto nem longe. Somente estás e eu sinto. Essa é a lógica: ausente, presente. E quem sem nexo mergulha, sou eu. Mergulho no que és, caminhos inquestionáveis que busco sempre sem ter como querer escapar, o meu cabelo em desalinho preso em dedos ávidos teus. Mergulho em devaneios onde não mando nos teus desejos, onde não questiono a tua boca, onde não conduzo as tuas mãos desenfreadas na busca de quem sou, que sou afinal para ti. Mergulho na ânsia das nossas palavras soltas à pressa e deixadas cair sem ordem no chão do tempo que permanece nosso. Apenas mergulho, sempre sem nexo, nesse teu vago sentido que sozinha arrasto a mim na hora em que o meu desejo cede. A imaginação é abstrata e sempre teima em unir-nos quando primitivas forças imperam em cumes longínquos onde a poesia ascende. Em todos os termos, era como se fossemos um só. Este mergulho é sem nexo, e por tanto, por tudo, já vale a pena.

09
Out20

DESEJO-TE

Sandra

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A cor é tua. A nostalgia, minha. Esta é a altura certa. Aquela em que nos dias mais curtos a saudade passeia-se nos parques pintados de sol morno. Quando a pálida luz da tarde é aconchego quente nos ombros, e nos bancos frios sentam-se interrogações que evaporam-se dos sonhos teus. Pela relva arrepiada, onde os pombos pisam afazeres, tu passeias um sentimento novo que ainda não desfiaste. O céu pálido provoca-te peso nas dúvidas que vestes. E não tens a certeza se sim, se não. Junto ao lago, atiras pedaços de memórias à água e círculos divergem devagar na superfície parecendo-te sussurrar o intemporal. E no parque, entre os dourados de esperanças e os prateados dos passos que os dias dão, estás tu, luxuosas cores de outono que me seduzem em fogo até ao âmago das minhas certezas. Desejo-te.

07
Out20

ARMADILHA AO TEMPO

Sandra

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Eu sei que és fera
que há muito me ronda!
Círculos cerrados
que se fecham devagar,
no silêncio escondido
em escuro recanto.
Pressinto-te perto...
Passos cautelosos,
respiração pausada,
olhar focado em mim.
Sem distrações ou desvelos,
sem movimentos em falso,
sem gestos desnecessários.
Rondas-me sempre,
pé ante pé,
em circulos perfeitos
à espera da hora!
És perigo certo,
discreto,
entre a tua lua cúmplice
(que te encobre os gestos)
e eu fraca, desamparada.
Sinto-te, sem te ver
Escuto-te, sem te encontrar
Cheiro-te, sem te vislumbrar
E eu desarmada...
O meu corpo gira rápido
prescrutando sombras
que me parecem suspeitas.
O medo, meu dono...
Eu ali sozinha,
indefesa,
respiração ofegante,
sem ter como escapar,
sem me poder esconder...

Porque não posso?

Porque eu não quero!

Ingenuidade a tua...
Pobre de ti, perigosa fera
descuido tão grande o teu!
Tanto zelo para nada!
Estás perdido
desde o primeiro início!
O jogo não é esse...
a tua caçada falhou!
Porque a presa és tu
e sou eu quem te caça.
Caíste na armadilha!

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