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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

25
Nov20

CHUVA CAÍDA

Sandra

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Manhã de chuva mansa, ininterrupta. Tudo parece abarcar, puxar a si num único abraço ávido, enquanto cai vertical, humilde, frágil e sentida. A paisagem à minha volta parece submissa, rendida já sem força, a essa chuva que veio silenciosa de tantos e secretos lugares. A praceta, os relvados bem cuidados, os parques, estradas e  caminhos, prédios e carros, tudo se despe à chuva mole e insistente que tomba de um céu pleno, nostálgico. Deixo-me levar pela visão das gotas de água que, vagarosas e amantes, se deitam no cenário frio que me cerca. A sua musicalidade mistura-se aos sons das aves, que arrepiadas ignoram a chuva e prosseguem os seus afazeres. Choveu toda a noite, mas é bem diferente esta chuva de agora, que se assemelha a uma melopeia de velhos tempos, a um narrar de histórias antigas ou a um lamento por causa de um triste amor. Sinto frio, trago pouca roupa no corpo, mas não consigo afastar-me da janela de onde vem aquele perfume tão típico a terra molhada, a relva fresca, à madeira fresca das árvores, que torna leve, renovado, o ar. Hoje, numa manhã em que acordei cansada, de tudo e nada, a chuva relaxou-me, lavou não só a paisagem ao meu redor mas também os meus sentidos, a minha alma. A minha fé intensifica-se.

24
Nov20

ESTAÇÃO COR DO FOGO

Sandra

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É vago sentido
o que o outono derrama
no aconchego de douradas tardes
e nos cobres alaranjados da luz.
São doces os abraços
das meigas e cálidas  horas
que se perdem nas folhas secas,
filhas de um tempo maior.
É refúgio da brisa que sopra,
morna, no cair dos beijos teus
que quero quentes em mim
em outonais entardeceres de ouro.
Nos dias curtos dos embalos dados,
na dormência da meia-estação,
passam perenes pelos passeios,
passos teus, estação cor do fogo.
É entrega, embalo,
nas noites paradas de veludo
dos sonhos de outono, meus.

22
Nov20

NATURAL

Sandra

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Quebram-se em raios de luz todas as sombras. Lâminas afiadas feitas de sol descem ao solo onde a tua alma ainda descansa, embrulhada em mantos de folhas soltas. Tens o cheiro da terra fecunda, fresca, húmida e macia. Repousas a cabeça nos dentes-de-leão e trevos que brotam jubilosos do chão. Gotas de orvalho evaporam-se devagar junto às tuas mãos, feitas de sonhos. A luz que fura espaços entre a densa folhagem invade-te memórias, desperta-te aos poucos, e lá longe, silhuetas difusas de gamos silenciosos passeiam-se leves na bruma. O Tempo pára e a tua voz ouve-se em cascatas de águas que correm desde o primeiro dia na Terra. A floresta ganha vida e as aves calam-se para te ouvir. Na luz que desce sempre, fina e esbranquiçada, dás-te ao mundo, finalmente. Ramos estalam à tua passagem e entras nesse lugar insondável, onde te perdes e reencontras! És de todos, és a natureza, geradora da vida e do descanso, és o ontem, o hoje e o amanhã.

21
Nov20

PALAVRAS DE MUNDOS

Sandra

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Há palavras poderosas. Chegam devagar, tímidas, discretas. Cautelosas. Resguardam-se no espaço vazio do papel e aos poucos despem-se, deixam sílabas à solta, letras em festa, ideias que se espalham pelo ar em delicados perfumes vaporosos. Há palavras assim, feitas mundos.

Todos os mundos possíveis: esse espaço lá fora, cheio das imensas cidades, metrópoles, aviões que cortam a fio de espada os céus, estradas rápidas que rasgam ao meio montanhas, aldeias meigas que adoçam a alma. As gentes, multidões, barulhos e cheiros. As histórias, as culturas, os enredos, as leis e lendas, o imprevisto, os amores.

Depois, há o outro mundo: planícies tremendas a perder de vista, cerradas florestas cheias de segredos, caminhos escondidos onde lutam pela sobrevivência espécies raras, pouco conhecidas; grutas profundas onde ninguém vai e se escondem rituais de antigas magias. Desertos poderosos, que matam de dia e amam de noite. Glaciares gigantes e cataratas que parecem mergulhar com estrondo nos confins da Terra, a partir do mais alto céu. E os campos, os lagos, as cadeias montanhosas, os oceanos.  

Há ainda aquele outro mundo, o que nos rodeia, que nos deixou ser parte integrante dele: o firmamento escuro da noite e o mistério para lá do alcançável. Milhares de galáxias, estrelas, planetas. Sistemas em formação, órbitas, radiação, o vácuo, explosões, anos-luz, a vida e a morte, que é apenas transformação afinal.

Depois... às vezes a palavra chega de mansinho, muito caladinha, abeira-se de nós, sedutora, para murmurar ao nosso ouvido um outro mundo. Este é tão especial, frágil, delicado, belo, secreto: é aquele mundo interior de cada um, que começa no coração e termina na alma. Abrangente, misterioso, complexo e, simultaneamente, simples. São os sentimentos, as histórias de cada um, o crescimento pessoal. As aprendizagens, as falhas, as quedas; as conquistas, as grandes vitórias. As verdades, os receios, as fragilidades e as forças. Os avanços e os recuos. O poder, o acreditar, a fé. Os amores, seja que amor for, pois o amor tem várias formas. Os desencantos e os sonhos.

E sempre, sempre a palavra, um minúsculo átomo que explode num todo, encerra em si todos e cada um desses mundos. Palavras que beijam, picam, abraçam, arrepiam. Palavras podem abrir mil universos e fazer brilhar mil constelações; tal como podem derrubar-nos por precípicios e escuridões. Quantas realidades existem numa só palavra! São sílabas unidas tão poderosas que se manifestam até num gesto, num riso, numa expressão, num silêncio que tudo diz. No final é isso que fica: as palavras. As que nos tocaram e as que deixamos por dizer - e que são tantas afinal.

20
Nov20

A IDADE DO ESPANTO

Sandra

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São coloridos acordares
Nestas manhãs
Feitas dos sorrisos
Que, rindo, caem do sol,
E nuvens macias
Trocam segredos
No leito nu e morno
Do céu esquecido de acordar.

Na extensão dos secos prados
Descansam bravas, dóceis,
Ervas douradas e ondulantes;
Conversam com Deuses
Que se passeiam, altivos
Pela brisa cálida, de veludo.
Em praias distantes
De vastos areais
E eruditas, negras rochas,
Gaivotas compõem
Os murmúrios que o mar
Há-de ondular em calmas marés...
E o Mundo,
Aos poucos, desperta,
Espreguiça-se devagar,
Sacode bravos desertos,
As mais altas montanhas
Os grandes rios do mundo
As florestas mais densas.

E pousa, em esquecidas enseadas,
O Tempo sublime
Que sem pressa
Recria histórias
Reinventa trajetos
Embala a humanidade!
É este o momento,
A idade do espanto,
Em que me entrego
Sem incógnitas
A coloridas manhãs
Em todo o macio calor
Da nudez dos meus sentidos.

18
Nov20

ALMA CRUA

Sandra

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É esse o teu espírito. Forte. Intenso. Audaz. Livre e libertador. Pairas no silêncio da tarde com a maciez do tempo que chega. À tua passagem tudo se torna certeza, deslumbre, resolução. E o vento espera, na pausa da hora parada. Nos dourados e castanhos da estação, folhas que caem trazem nelas os poemas do pólen que sobe e se despe no ar tépido, prenhe de ti. É o silêncio que, solene, te afaga esse solitário corpo que sempre me amarra os sentidos. Fico estática no impasse de qualquer gesto que possas fazer. É sempre assim. Sei que bastará um leve movimento teu e já eu estarei perdida em mim, rendida em ti, na mansidão dos tons quentes que nos toldam palavras. No poder que emana de ti, que devoro ávida, alma crua.

17
Nov20

BRUMA

Sandra

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Ainda é cedo mas já não sinto sono. Ou melhor, já não quero dormir mais, hoje isso não me diz nada! Mais uma manhã de névoa. Há seis dias que tem sido assim, no silêncio da manhã ou no embalo da noite calada: uma névoa branca, húmida, cerrada, que atenua a figura das árvores, candeeiros de rua, casas, carros que passam cautelosos. Hoje, tal como desde há seis dias para cá, não consigo ver da minha janela o mar lá ao fundo, a linha do horizonte, e para lá dela, as terras da outra margem. Tal como não me é possível ver a serra de Sintra, coroada pelo seu nostálgico Palácio. Só névoa. Que, estranhamente, surgiu e tem-se mantido, desde o dia em que definiste as tuas analises e certezas. Tuas. Na névoa, vejo-te, sinto-te. Não és tu o Senhor da Bruma? Sabes que sou de pressentimentos, e se sou, é porque todos eles têm-se revelado certos. Tu sabes, definiste o meu mapa. Balança pura. E a na névoa que me rodeia, pressinto-te chegado a mim. Não hoje mas num amanhã nada distante, que contraria números teus. Sinto-me tranquila. Hoje o dia é meu. Vou começar com aquele banho quente, demorado e relaxante, em que me entrego à fé, à tranquilidade, a mim mesma, ao meu corpo, à minha alma que te quer, sempre. Depois? O café e todas as essas horas que se desnudam à minha frente, completas com as minhas crenças, dúvidas e certezas, as minhas forças e o meu Deus. Horas que serão minhas aliadas e conselheiras, cheias do mistério que é esta névoa lá fora, nas ruas, e cá dentro, na alma. O mistério que és tu, meu amor, grande amor.

14
Nov20

DESERTO MEU

Sandra

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É isto que fica. O deserto, o espaço vazio, que se mostra igual em todas e em qualquer direção. É isto que vejo agora, mesmo que hajam prédios, ruas, gentes, cães. Mesmo que ouça o vento a cruzar as folhas, as ervas, as flores. Mesmo que pise as sombras das árvores, das nuvens que beijam o céu, das aves que gritam no alto, a minha própria sombra. É isto: um deserto que vejo. Em meu redor, e pior, dentro de mim. E mais nada quero. Tomarei esse deserto como meu e amá-lo-ei com a mesma intensidade com que te amo. Pois esse deserto foi criado por ti meu amor, quando afastaste órbitas que finalmente, e apesar dos "apesares", eu estava já a aproximar. As órbitas ocorrem no universo poderoso, imenso. E estavamos lá, nesse universo que seria nosso, enfim. Hoje sou o deserto, e nele, sou pequenina, frágil, desolada e descrente. Com um coração gigante, cheio de tanto amor, este amor por ti, sem nada pedir, sem nada cobrar, apenas a vontade de te dar, de te amar, uma vontade imensurável. Apenas a vontade de ti, de sentir na minha pele, na minha alma, a bruma feita mistério, que és tu, o último dos últimos. Em vão, tudo.

13
Nov20

AMOR NA DOR

Sandra

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Já não estava habituada a amar. Já tinha esquecido tudo o que o amor faz ao coração de uma mulher. As dúvidas e as certezas. O par ou o ímpar. A coragem e o receio. O sonhar sem fim. Tudo à minha volta ter o embalo de uma luz especial, doce, quente, parecida com o teu nome. Já não estava habituada a acreditar, a avançar, a sorrir tão tímida na alma que se agiganta de esperança. Já não estava habituada a sentir este amor que tanto, tudo ocupa. Encheu-me o coração, a mente, a alma, o meu ser enquanto eu devagar derrubava incertezas e medos. Apaixonei-me. E agora não sei o que fazer com este amor que tem o teu rosto e o teu corpo. Como o afastar da noite que amo, amada por ti também? Como atenuar este tão grande amor no crepúsculo que antecede a noite? Como lhe pedir que se dilua da bruma que um dia me envolveu e do qual és o Senhor, que sinto conhecer desde tempos primordiais? Como olhar para lá do firmamento da tua poesia, do meu desejo, do desejado romance e do sonho, e ver as tuas mãos que prendem órbitas que lá à frente não seriam tangentes mas cruzar-se-iam inegavelmente? O que fazer com este amor tão sóbrio que despertaste em mim, alma de alma, último dos Vagabundos, que é minha grande, paixão derradeira? Como te encontrar, se te sentia parte em mim e eu própria já não me encontro? Como te pensar sem querer falar de amor, sem doer no meu peito e sem conseguir parar lágrimas mansas e cansadas que caem? O amor, esse, destruía aos poucos os impossíveis, que, saltitando entre passar de tempo, tornar-se-iam possibilidades.

Já não estava habituada a amar, até tu caires alma gémea, em mim. Aperto-te, meu amor, ao peito e nele te guardo, tu, ribombar do trovão, que me fez nascer de novo para nada de nada mais ser, não mais. O amor, este amor, é sempre maior que eu, pois não é só meu, é também teu, pois do meu peito foge para em vão, te alcançar. Ser feliz? Almas puras não têm direito a tanto... viverei apenas amando o amor que te tenho, enquanto no coração tanto te amo, meu amor."

12
Nov20

BOLA DE SABÃO

Sandra

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Elevas-me em sentimentos
que nascem de sopros,
sóbrias palavras,
que fortes voam
da tua boca, que quero minha.
São transparentes,
(em bola de sabão)
as vontades, o querer.
E frágil o espaço, 
o limite, o desejo,
entre o esperar e o acontecer!
Brilham na luz confissões, 
sobem alto vontades.
E no limiar, explode,
rebenta um "sim!",
a poesia, artimanhas,
que se despem em luz
no vago céu
do leve, corpo meu...

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