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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

20
Set20

VENTO

Sandra

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O vento risonho persegue-me pelas ruas! Joga comigo às escondidas! Desaparece em silêncio atrás de um muro para, segundos depois, aparecer de surpresa à minha frente na esquina das ruas! E despenteia-me! E sacode-me a roupa do corpo! E empurra-me! Fico furiosa... e depois solto gargalhadas! Agora escondo-me eu! Atrás de uma árvore. Junto a uma casa. Mão a tapar a boca para conter o riso. Oiço o vento passar cautelosamente à minha procura! E fico quietinha para não ser apanhada. E apareço! Termina o jogo num empate e num abraço...

Outras vezes brincamos às apanhadas! O vento agarra-me, quase sempre desprevenida, à saída de casa; outras vezes, sou apanhada logo que abro uma janela. Ou ainda quando caminho pelas ruas do jardim ou da cidade. Mas a vitória é minha quando feliz corro contra o vento pela praia, tentando apanhá-lo, braços afastados como uma ave a voar ao sabor da vontade, prontos a fecharem-se num abraço. E caímos, eu e o vento, cansados na areia, a rir, felizes! Tão cansados...

Mas à noite o vento acalma. Senta-se ao meu lado, abraça-me pela cintura, e canta-me baixinho ao ouvido. Olhamos o infinito e o vento é confidente, meigo, sereno. Em doces brisas, desvia-me o vestido dos ombros e na minha pele fresca repousa das corridas do dia que lá vai enquanto me sopra segredos ao ouvido. E eu, no vento aconchego-me e sonho voar como uma gaivota.

 

03
Set20

CICATRIZ

Sandra

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Uma criança muito suja atira pedras a um cão.
O cão não foge.
Esquiva-se
E vem até junto da criança
Para lhe lamber o rosto.
Há, depois,
Um abraço apertado,
De compreensão
E de amizade.
E lado a lado,
Com a mãozinha muito suja no pescoço felpudo,
Lá vão, pela rua estreita,
Em direcção ao sol.
(António Salvado, in "Cicatriz”)

 

Nota: Fica a simbologia do conto. Entre seres humanos passa-se o mesmo. Não certamente com pedras mas palavras ou atitudes face àqueles que jamais desistem de nós. A criança, essa, na sua revolta ou luta interior, não queria sinceramente afastar o cão. O cão, na sua sabedoria e força, pressentiu-o. E lutou contra a vã tentativa da criança em mantê-lo longe. No fim, o amor vence. 

30
Ago20

VISITA INESPERADA

Sandra

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Pela manhã bem cedo, enquanto à janela da cozinha espreitava como estava o tempo, tive a alegria de vislumbrar algo que adoro e não esperava encontrar: andorinhas!
Um pouco desconfiada por ver andorinhas nesta altura do ano, e a pensar se não seria outra espécie, concluí que tendo em conta alterações climáticas existentes é possível serem essas aves que admiro tanto.

O micro-ondas deu sinal avisando-me que o meu café com leite já estava quente, mas as andorinhas tinham captado por inteiro a minha atenção. Agora sim, já tinha a certeza do que via: andorinhas de facto! Todos os anos, pela primavera, sou brindada com a sua presença, embora este ano já me tivesse interrogado, por várias vezes, onde estariam elas. Ou se voltaria a vê-las. Afinal, há tantas outras espécies cujo número de elementos tem vindo a diminuir! Mas hoje, aqui estavam elas, vestidas de preto, azul escuro e branco, com as suas asas típicas e a cauda inconfundível, passando a alta velocidade em voos rasantes à minha janela. Quase me tocavam a cara, enquanto faziam manobras verdadeiramente dignas de um caça F-16! Tenho a certeza que a indústria aeronáutica aplica, no fabrico dos seus modelos, dados e técnicas resultantes do estudo da vida animal.

Este bando que vejo é grande, as aves majestosas, firmes, determinadas e focadas na sua busca incessante de alimento. Parecem quase agressivas! Como a sua época oficial do engate, do namoro e construção de ninhos já ficou para trás, só podiam estar mesmo à procura de comida para a sua prole: insetos mais distraídos que são capturados em pleno voo. Dizem que as andorinhas não podem aterrar, as suas patas não estão concebidas para tal. Tal como só podem viver em liberdade, pois em cativeiro definham e morrem. Defendem também que estas aves acasalam e nidificam sempre com o mesmo parceiro. Mas, facto cientificamente comprovado, algumas espécies gostam de ocasionais, secretas, breves e deliciosas relações extraconjugais.

Questões sexuais (e sentimentais) à parte, sou sua fã desta espécie de aves, que migrando persegue o calor, andorinhas que me transportam à minha infância e que adoro ver para cá e para lá atarefadas, chiando em tons altos e agudos, indiferentes à minha presença.

Se não fosse o meu café com leite estar a arrefecer, juntamente com o meu corpo recém-saído do quentinho da cama, teria ficado mais tempo à janela. Mas estas minhas amigas vão ficar ainda algum tempo por cá, voando, chiando e petiscando, até que um dia, misteriosamente, desaparecem para dar lugar às folhas de outono, com tons cruzados entre o amarelo, o laranja e o vermelho. (Ai, o outono!).

 

09
Ago20

SIMPLICIDADES

Sandra

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Considero-me uma pessoa simples embora não propriamente fácil. Mas isso não me impede de desejar, procurar e, sempre que possível, vivenciar, as coisas descomplicadas da vida. São muitas, são tantas, e nada ganharia em enumerá-las todas aqui. Posso, sim, tentar resumir a isto: Quem, ao observar distraído, as ervas do campo a dançarem ao sabor do vento, e, nesse instante, se alhear completamente do tempo, do espaço e de si próprio, compreender-me-á certamente.
E este será apenas um exemplo entre tantos que poderia dar. O poder das coisas simples será só suplantado talvez pelo poder do amor na sua forma mais verdadeira...

Cheguei há pouco tempo a este espaço sem saber bem ao que vinha, questionando-me como partilhar algo, o que partilhar, e como interagir convosco. Não vim com o intuito de escrever (no sentido superior, perfeito e puro, do verbo ESCREVER) pois não o sei fazer, mas com a intenção de largar aqui alguns rabiscos, rascunhos, notas, e ver no que dava. Sílabas à solta. Um pouco como ter uma mala cheia de objetos e despejá-la abruptamente em cima da cama, deixando o seu conteúdo acumulado num monte disforme e sem sentido aparente.
Mas ao ler os vossos blogs fiquei maravilhada, senti-me em casa. E comecei a considerar que estar aqui convosco, deixar aqui um pouco de mim, faz agora também parte da minha lista das coisas simples da vida. Como as cartas que antigamente se escreviam, com o coração na ponta da caneta, para quem estava longe.

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