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Sílabas à Solta

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Textos de minha autoria, uns mais atuais que outros. Todos com fundo real. Imagens retiradas da internet. | Qualquer reprodução dos meus conteúdos deve ser sempre feita com referência à minha autoria.

Sílabas à Solta

26
Nov20

ANALOGIA

Sandra

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Provas as gélidas carícias
que névoas sem perfume
deixam abandonadas
nas cores desbotadas,
as tuas!
Embrenhas-te silenciosa, a ti,
na densa, branca claridade,
sob o peso da suave geada
que, como amante, se deita
no teu corpo nu, frágil.
Devolves-te calada, então,
à inocência de ti mesma
onde estremeces
nesses teus desejos crus, 
que resistem, vergados,
à hora fria.
A cada branco amanhecer
sussurras à madrugada impávida
(que se abstrai de ti)
a tua vontade imperiosa
de partir em amor ao sol!
E na fé do passar do tempo
calas-te, paciente, ao mundo,
gelas gestos, palavras, risos,
até que a brisa quente te beije
em cálidas manhãs feitas renascer
e brilhes, cor de novo,
aberta à vida que te faz seres tu.

25
Nov20

CHUVA CAÍDA

Sandra

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Manhã de chuva mansa, ininterrupta. Tudo parece abarcar, puxar a si num único abraço ávido, enquanto cai vertical, humilde, frágil e sentida. A paisagem à minha volta parece submissa, rendida já sem força, a essa chuva que veio silenciosa de tantos e secretos lugares. A praceta, os relvados bem cuidados, os parques, estradas e  caminhos, prédios e carros, tudo se despe à chuva mole e insistente que tomba de um céu pleno, nostálgico. Deixo-me levar pela visão das gotas de água que, vagarosas e amantes, se deitam no cenário frio que me cerca. A sua musicalidade mistura-se aos sons das aves, que arrepiadas ignoram a chuva e prosseguem os seus afazeres. Choveu toda a noite, mas é bem diferente esta chuva de agora, que se assemelha a uma melopeia de velhos tempos, a um narrar de histórias antigas ou a um lamento por causa de um triste amor. Sinto frio, trago pouca roupa no corpo, mas não consigo afastar-me da janela de onde vem aquele perfume tão típico a terra molhada, a relva fresca, à madeira fresca das árvores, que torna leve, renovado, o ar. Hoje, numa manhã em que acordei cansada, de tudo e nada, a chuva relaxou-me, lavou não só a paisagem ao meu redor mas também os meus sentidos, a minha alma. A minha fé intensifica-se.

24
Nov20

ESTAÇÃO COR DO FOGO

Sandra

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É vago sentido
o que o outono derrama
no aconchego de douradas tardes
e nos cobres alaranjados da luz.
São doces os abraços
das meigas e cálidas  horas
que se perdem nas folhas secas,
filhas de um tempo maior.
É refúgio da brisa que sopra,
morna, no cair dos beijos teus
que quero quentes em mim
em outonais entardeceres de ouro.
Nos dias curtos dos embalos dados,
na dormência da meia-estação,
passam perenes pelos passeios,
passos teus, estação cor do fogo.
É entrega, embalo,
nas noites paradas de veludo
dos sonhos de outono, meus.

22
Nov20

NATURAL

Sandra

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Quebram-se em raios de luz todas as sombras. Lâminas afiadas feitas de sol descem ao solo onde a tua alma ainda descansa, embrulhada em mantos de folhas soltas. Tens o cheiro da terra fecunda, fresca, húmida e macia. Repousas a cabeça nos dentes-de-leão e trevos que brotam jubilosos do chão. Gotas de orvalho evaporam-se devagar junto às tuas mãos, feitas de sonhos. A luz que fura espaços entre a densa folhagem invade-te memórias, desperta-te aos poucos, e lá longe, silhuetas difusas de gamos silenciosos passeiam-se leves na bruma. O Tempo pára e a tua voz ouve-se em cascatas de águas que correm desde o primeiro dia na Terra. A floresta ganha vida e as aves calam-se para te ouvir. Na luz que desce sempre, fina e esbranquiçada, dás-te ao mundo, finalmente. Ramos estalam à tua passagem e entras nesse lugar insondável, onde te perdes e reencontras! És de todos, és a natureza, geradora da vida e do descanso, és o ontem, o hoje e o amanhã.

21
Nov20

PALAVRAS DE MUNDOS

Sandra

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Há palavras poderosas. Chegam devagar, tímidas, discretas. Cautelosas. Resguardam-se no espaço vazio do papel e aos poucos despem-se, deixam sílabas à solta, letras em festa, ideias que se espalham pelo ar em delicados perfumes vaporosos. Há palavras assim, feitas mundos.

Todos os mundos possíveis: esse espaço lá fora, cheio das imensas cidades, metrópoles, aviões que cortam a fio de espada os céus, estradas rápidas que rasgam ao meio montanhas, aldeias meigas que adoçam a alma. As gentes, multidões, barulhos e cheiros. As histórias, as culturas, os enredos, as leis e lendas, o imprevisto, os amores.

Depois, há o outro mundo: planícies tremendas a perder de vista, cerradas florestas cheias de segredos, caminhos escondidos onde lutam pela sobrevivência espécies raras, pouco conhecidas; grutas profundas onde ninguém vai e se escondem rituais de antigas magias. Desertos poderosos, que matam de dia e amam de noite. Glaciares gigantes e cataratas que parecem mergulhar com estrondo nos confins da Terra, a partir do mais alto céu. E os campos, os lagos, as cadeias montanhosas, os oceanos.  

Há ainda aquele outro mundo, o que nos rodeia, que nos deixou ser parte integrante dele: o firmamento escuro da noite e o mistério para lá do alcançável. Milhares de galáxias, estrelas, planetas. Sistemas em formação, órbitas, radiação, o vácuo, explosões, anos-luz, a vida e a morte, que é apenas transformação afinal.

Depois... às vezes a palavra chega de mansinho, muito caladinha, abeira-se de nós, sedutora, para murmurar ao nosso ouvido um outro mundo. Este é tão especial, frágil, delicado, belo, secreto: é aquele mundo interior de cada um, que começa no coração e termina na alma. Abrangente, misterioso, complexo e, simultaneamente, simples. São os sentimentos, as histórias de cada um, o crescimento pessoal. As aprendizagens, as falhas, as quedas; as conquistas, as grandes vitórias. As verdades, os receios, as fragilidades e as forças. Os avanços e os recuos. O poder, o acreditar, a fé. Os amores, seja que amor for, pois o amor tem várias formas. Os desencantos e os sonhos.

E sempre, sempre a palavra, um minúsculo átomo que explode num todo, encerra em si todos e cada um desses mundos. Palavras que beijam, picam, abraçam, arrepiam. Palavras podem abrir mil universos e fazer brilhar mil constelações; tal como podem derrubar-nos por precípicios e escuridões. Quantas realidades existem numa só palavra! São sílabas unidas tão poderosas que se manifestam até num gesto, num riso, numa expressão, num silêncio que tudo diz. No final é isso que fica: as palavras. As que nos tocaram e as que deixamos por dizer - e que são tantas afinal.

20
Nov20

A IDADE DO ESPANTO

Sandra

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São coloridos acordares
Nestas manhãs
Feitas dos sorrisos
Que, rindo, caem do sol,
E nuvens macias
Trocam segredos
No leito nu e morno
Do céu esquecido de acordar.

Na extensão dos secos prados
Descansam bravas, dóceis,
Ervas douradas e ondulantes;
Conversam com Deuses
Que se passeiam, altivos
Pela brisa cálida, de veludo.
Em praias distantes
De vastos areais
E eruditas, negras rochas,
Gaivotas compõem
Os murmúrios que o mar
Há-de ondular em calmas marés...
E o Mundo,
Aos poucos, desperta,
Espreguiça-se devagar,
Sacode bravos desertos,
As mais altas montanhas
Os grandes rios do mundo
As florestas mais densas.

E pousa, em esquecidas enseadas,
O Tempo sublime
Que sem pressa
Recria histórias
Reinventa trajetos
Embala a humanidade!
É este o momento,
A idade do espanto,
Em que me entrego
Sem incógnitas
A coloridas manhãs
Em todo o macio calor
Da nudez dos meus sentidos.

19
Nov20

ENFIM

Sandra

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Estou mais perto de ti. Finalmente, contrariando expetativas e probabilidades, perto outra vez. Também tu estás mais perto de mim. Ousaste cumprir esse teu impulso e agora temos todas as possibilidades abertas a nós. Sei tanto de ti e tudo se conjuga para aquele afeto sempre constante, sempre presente. Esse teu Guincho, cúmplice de tanto da tua vida e do todo que és, já molda ideias, alisa a areia fria da praia que nos aguarda, pede ao vento que seja gentil e ao sol que não desanime, já penteia a erva agreste que canta no frio. Conheço-te tão bem! No conforto da tua casa, entre cigarrilhas e um gin, olhar perdido no céu pesado e cru lá fora, já planeaste conjugações, hipóteses, decorrer de passos dados. Sei que face ao que de novo se apresenta, já o teu lado prático de homem maduro preparou a minha visita, tudo a postos. Sei que o outro teu lado, o mais puro, frágil e belo, se alegra surpreso, coração cauteloso mas tão feliz, que pulsa com essa mesma força que a Serra de Sintra de si emana. E no aconchego do teu lar, cairão palavras minhas, que vaguearam anos, loucas como gaivotas ao sabor dos ventos e das marés. No encanto da tua propriedade e da tua praia, onde te retraíste e te expandiste, poisarão enfim, como confissões e confirmações, as palavras de uma alma que se despe e renova. Anseio. Anseio-te, que tanto de humano tens. Anseio essa tua praia, recanto teu, que nos espera. Anseio o regresso à tua sala cálida e plena dos encantos do mundo. E de novo, num tremendo impasse, anseio-te, humilde e pleno homem. Como já se passaram sete anos....

18
Nov20

ALMA CRUA

Sandra

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É esse o teu espírito. Forte. Intenso. Audaz. Livre e libertador. Pairas no silêncio da tarde com a maciez do tempo que chega. À tua passagem tudo se torna certeza, deslumbre, resolução. E o vento espera, na pausa da hora parada. Nos dourados e castanhos da estação, folhas que caem trazem nelas os poemas do pólen que sobe e se despe no ar tépido, prenhe de ti. É o silêncio que, solene, te afaga esse solitário corpo que sempre me amarra os sentidos. Fico estática no impasse de qualquer gesto que possas fazer. É sempre assim. Sei que bastará um leve movimento teu e já eu estarei perdida em mim, rendida em ti, na mansidão dos tons quentes que nos toldam palavras. No poder que emana de ti, que devoro ávida, alma crua.

17
Nov20

BRUMA

Sandra

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Ainda é cedo mas já não sinto sono. Ou melhor, já não quero dormir mais, hoje isso não me diz nada! Mais uma manhã de névoa. Há seis dias que tem sido assim, no silêncio da manhã ou no embalo da noite calada: uma névoa branca, húmida, cerrada, que atenua a figura das árvores, candeeiros de rua, casas, carros que passam cautelosos. Hoje, tal como desde há seis dias para cá, não consigo ver da minha janela o mar lá ao fundo, a linha do horizonte, e para lá dela, as terras da outra margem. Tal como não me é possível ver a serra de Sintra, coroada pelo seu nostálgico Palácio. Só névoa. Que, estranhamente, surgiu e tem-se mantido, desde o dia em que definiste as tuas analises e certezas. Tuas. Na névoa, vejo-te, sinto-te. Não és tu o Senhor da Bruma? Sabes que sou de pressentimentos, e se sou, é porque todos eles têm-se revelado certos. Tu sabes, definiste o meu mapa. Balança pura. E a na névoa que me rodeia, pressinto-te chegado a mim. Não hoje mas num amanhã nada distante, que contraria números teus. Sinto-me tranquila. Hoje o dia é meu. Vou começar com aquele banho quente, demorado e relaxante, em que me entrego à fé, à tranquilidade, a mim mesma, ao meu corpo, à minha alma que te quer, sempre. Depois? O café e todas as essas horas que se desnudam à minha frente, completas com as minhas crenças, dúvidas e certezas, as minhas forças e o meu Deus. Horas que serão minhas aliadas e conselheiras, cheias do mistério que é esta névoa lá fora, nas ruas, e cá dentro, na alma. O mistério que és tu, meu amor, grande amor.

16
Nov20

HARAGANO

Sandra

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Gotas de nobres sentimentos
Intensas em silêncio meu
Levam no âmago a tristeza minha...

Sentidos vãos, de futuro despidos, 
Amor que te dou, toda de mim,
Recolho palavras doces tuas
Alegrias puras de outrora!
Imagens de ti, amor, meu amor
Valem todo o peso da noite
Alma tu, que nela habitas.

Horas nobres guardo-as eu
As que contigo sonhei, planeei,
Risos puros, então crentes...
Amor maior, maior ainda mais!
Gravo em mim esse nome teu
Agora que é só tudo o que me resta!
Nunca esmorecerá este sentir puro
O Haragano que não foi meu...

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